Destino: as eras de Auvers-sur-Oise

Em 37 anos de vida, Vincent van Gogh vagou por 38 endereços diferentes. Trocou de casa, trocou de país, trocou de paisagem, trocou de roupa. Não trocou de vida. Enfiou a mão no próprio avesso para transformar tormentos em expressões; para entender sobre azuis, laranjas e amarelos; para contar ao mundo sobre o poder da solidão e do girassol; para marcar a humanidade com notas de sensibilidade e sofrimento; para pintar não como as coisas são, mas como as sentia.

Van Gogh foi um estrangeiro. Sempre. Um estrangeiro será para sempre um corpo estranho independente do lugar. E para sempre sentirá a angústia dessa condição.

O pintor chegou no seu último endereço, Auvers-sur-Oise, cidadezinha perto de Paris, em 1890 depois de uma temporada no hospício de Saint-Rémy. Foi para lá porque lhe foi indicado o doutor Paul Gachet, que tinha um fraco pela pintura, uma dedicação pela medicina e um tanto de inconformismo com a vida – sobre o médico, van Gogh escreveu ao irmão “parecia-me mais doente do que eu, ou vamos dizer tanto quanto”.

Em Auvers, van Gogh viveu por 70 dias, pintou 72 quadros, 33 desenhos e uma gravura. Em Auvers, van Gogh bebeu absinto até a beira do abismo. Em Auvers ele conheceu os campos de trigo, os corvos e a imensa solidão que isso representava. Foi em Auvers que ele puxou o gatilho e atirou contra o próprio peito para morrer dois agonizantes dias depois, sua última frase: “gostaria de ir para casa agora”. Em Auvers está o seu túmulo, coberto de era, ao lado irmão Theo – que morreu seis meses depois e alguns anos mais tarde foi transferido para perto do melhor amigo.

As eras que vestem as sepulturas cruas, sem salamaleques, sem pompa, sem circunstância, são as plantas mais comoventes que já vi na vida – e sei que nenhuma superará aquele tapete. O lugar mais surpreendente que conheci no mundo, sem dúvida, foi as eras que cobrem os túmulos de Vincent e Theo van Gogh.

Por causa do turismo e de algumas expectativas bem particulares fui a Auvers-sur-Oise em 2017. Sozinha. É uma viagem fácil e rápida pelos subúrbios de Paris.

Mas toda a praticidade da chegada não corresponde à facilidade de estada. O vilarejo é ríspido, trancado nele mesmo, sem dizer um meio sorriso a quem passeia por ali.

Não há problema. O melhor amigo que uma pessoa pode fazer em Auvers é o próprio artista, que continua deitado naquele fim de mundo numa tombe tão simples como foi sua vida, tão comovente como foram seus quadros. No entanto, é preciso, antes de viajar, que se saiba que van Gogh não era um doidaço de pedra, nem um gênio sem correspondência; ele era mais, era um homem a partilhar os ideais aprendidos no Evangelho, na bondade, na abnegação, na negação de bens materiais. Sabendo de algumas coisas de sua biografia é mais fácil se tornar amigo…

A comuna tem um trajeto turístico específico pelo cotidiano de pouco mais de dois meses de Van Gogh. Além do túmulo, do seu lugar no bar, do trigal, das paisagens, seu último quarto está lá, em silêncio, nenhum móvel, nenhum objeto, apenas aquele espaço vazio que obviamente é entulhado de tudo que o expectador quer.

Pode ser que tenha sido aquele silêncio, grande e imenso, combinado com minha marcha em direção a lugar especial que me tenha despertado coisa nova. Ou pode ter sido que o frio tenha promovido um curto circuito qualquer dentro de mim. Não sei explicar, mas o passeio mexeu comigo.

Primeiro chorei sem parar. Antes de visitar qualquer pedaço, antes de chegar ao túmulo ou à igreja ou à casa. Era uma, como direi sem parecer ridícula?, uma energia diferente, que foi se apropriando de cada contorno meu para me levar ao choro convulsivo.

Esta atrapalhação me fez caminhar sem pensar em direção. E sem motivo aparente, e sem ter percebido sua chegada, de repente eu estava na frente da igreja, depois do túmulo, depois da hospedaria, no trigal… Era como se fosse o contrário da lógica: como se eu estivesse parada e os endereços girassem até me alcançarem.

A experiência, que posso chamar de quase mística, foi linda e assustadora: um encontro de silêncios, de pensamentos, de emoções.

Não sei explicar direito o motivo, mas aquela vila linda e inóspita, a paisagem, a ideia da mente louca e genial de Van Gogh sendo incompreendida, amada e odiada por ali…

a empatia de não pertencimento, independente do lugar, aquela coisa de estar fora do padrão social, tudo, tudo, tudo é pura emoção em Auvers.

Ao mesmo tempo que compreendi que não haverá, nunca jamais, cura para os meus desassossegos, uma parte de minhas inquietudes ficou ali para sempre, junto com os irmãos e suas eras, ici repose

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