Encontros felizes

Mônica Moro Harger estreia em livro, faz isso utilizando a crônica para tratar de seu cotidiano, de suas memórias, de suas saudades e encontros. Começou no mundo imaterial da internet, colecionando curtidas, fazendo amigos, fidelizando leitores. Foi além. Provou, mais uma vez, que o livro ainda é a grande e eterna marca que se pode deixar para a humanidade. Lançou “Encontros felizes” e juntou à profissão de formação, a Arquitetura, a função de narrar sua vida, que é também a nossa.

 

Vá aos encontros felizes

Para Luísa

Recentemente participei da formatura de uma prima, numa quarta-feira, distante 300 km da minha casa. Peguei o carro e fui. Sozinha, eu e minhas músicas. Encontrei primos que não via há anos, abracei a tia que aos 96 ainda sabe quem eu sou, comemorei, sorri e chorei (de alegria). Esforcei-me para estar presente. E como valeu a pena! “Vá aos encontros felizes”, eu sempre penso. Pode ser complicado, difícil, caro. Pode ser uma viagem longa (ou até pode ser ali do lado mas bate aquela vontade de sofá). “Vá!” Tem festa de 80 anos da tia? “Vá!” Aniversário do filho dos amigos? “Vá!” Encontro de 20 anos da sua formatura? “Vá!” Amigo secreto das amigas de infância, casamento do primo, show da sua banda preferida? “Vá!” Pega o carro, o ônibus, o avião… pega carona! Fica no hotel, na tia, agora tem airbnb! Parcela a passagem, combina com a sócia uns dias de folga, dá um jeito!

Sabe por quê? Porque nos encontros tristes você irá. Quando alguém morre todos vão. Por protocolo, por obrigação ou por amor (e dor). As pessoas vão, se esforçam. Pedem folga no trabalho, deixam as crianças com a avó, levam as crianças, cancelam a reunião, transferem as entregas. E todos se reúnem e se abraçam e choram juntos. E é bonito isso. E é bom que seja assim. Mas é bom que seja assim também, e, principalmente, nos momentos felizes. É bom estar junto nas comemorações, nas conquistas, nas festas que brindam a vida! Dando risada com os amigos, relembrando as histórias de família, deixando-se levar pela alegria despretensiosa dos momentos bons.

Penso que assim vamos juntando as peças na melhor coleção que a vida tem a oferecer: a dos encontros felizes!

“Vamos?”

 

Sobre momentos felizes e notícias tristes

O que te faz sorrir? Não falo de risada solta, gargalhada, reação a uma piada bem contada ou fato engraçado. Quero saber o que te faz sorrir de mansinho, geralmente sozinho, de pura satisfação? O que te repuxa o canto dos lábios naquele sorriso singelo de completa gratidão?

Esta questão apoderou-se de mim junto com o sorriso leve que aquela curva da estrada me traz. Apesar de conhecer bem o percurso, não faço questão de marcar o ponto exato em que o mar se descortina, roubando-me um sorriso e um suspiro. Sempre me surpreendo! Sempre sorrio. Para o mar, para o céu, para mim mesma.

Sempre fui de somar motivos de ser feliz. Elaboro listas mentais de coisas pequenas que nos fazem sorrir. Gosto de escrever sobre o extraordinário da vida comum. Sobre a estrada e a liberdade. Sobre o sorriso do seu cachorro e a cara de festa do seu filho na sua volta pra casa. Sobre receber flores, rever um velho amigo, embalar uma criança. Sobre um bilhete embaixo da sua porta. Sobre dias de sol e cheiro de chuva; lençol recém-lavado e banho demorado; café recém-passado e bolacha no forno. Sobre perfume. Sobre elogios. Sobre convites inesperados e aceites desejados. Sobre a primeira estrela que nasce, sobre o bebê que vai nascer, sobre a vida que renasce a cada amanhecer.

Entretanto, enquanto eu somo momentos felizes uma tragédia de proporções gigantescas assola o Sudeste do meu país. Centenas de vidas não vão amanhecer. Milhares, diretamente ligadas àquelas que partiram, jamais voltarão a sorrir – não este sorriso leve, que busca pequenos milagres. Lá, o sol ainda brilha e a chuva ainda cai, mas os encantos da natureza não somam nenhum alento aos que sofrem, aos que resgatam, aos que vivem este momento de indescritível tristeza e dor.

Eu também sofro. Meu sofrimento é intenso, porém, distante daquela realidade. Longe da calamidade a vida segue seu curso. Tenho que trabalhar, descansar, viver. Esboço um sorriso ou dois, meus motivos são insistentes. Sinto-me culpada, egoísta. Como posso sorrir enquanto tantos padecem? Como posso programar uma viagem, iniciar um projeto novo, fazer yoga – enquanto tantos sofrem? Como posso viver, enquanto tantos morreram – de forma tão trágica?

Há quinze dias perdi um amigo muito querido. Recebi a notícia a caminho da casa da minha afilhada, que me esperava faceira para comemorar seus sete anos. Nosso passeio era promessa de aniversário. Ela correu, rodou, contou muitas coisas e perguntou outras tantas. De repente, disparou: “Porque você está assim, madrinha? Assim, olhando para longe?” Não lembro as palavras que usei para explicar minha dor, mas ela entendeu. Sem falar nada, me abraçou longamente. Enquanto suas mãos suaves acariciavam meu cabelo eu me permiti sorrir. Aquele sorriso de quem agradece o momento, mesmo estando com o coração partido.

A gente precisa continuar. A busca por momentos felizes não é, enfim, uma desculpa – é uma necessidade. Eu não sou egoísta, você não é indiferente. Somos todos sobreviventes. Sobre a vida, é urgente brindá-la, enquanto é possível. Sempre há algo para agradecer, uma promessa a cumprir, um amigo para (re)encontrar. O sol vai nascer, a curva da estrada vai revelar o mar, seu filho vai começar a andar. Você vai sorrir. Eu vou escrever. Enquanto há tempo.

 

A velha máquina de escrever

O senhor na minha frente está comprando duas fitas para máquina de escrever. A marca é Olivetti, posso reconhecer na embalagem, velha e empoeirada. O preço está rasgado, mas vejo que custa pouco mais de cinco reais cada. Fico pensando com qual frequência a papelaria vende fitas para máquina de escrever.

Fico pensando que fim teve a velha máquina de escrever do meu pai, marca ”Hermes baby”, portátil. Era linda, vestida em tom vermelho brilhante. Eu, pequena e curiosa, gostava de observar meu pai trabalhar. Ele tinha predileção pelo objeto escrevedor, o que não o impedia de me emprestá-lo com gosto. Então era ele que parava para observar a filha juntando as palavras que comumente resultavam num bilhete de amor. Amor de filha para pai.

Eu dizia que a máquina escrevia com “letra deitada”. Ele explicava, sempre gentil: “são tipos inclinados, minha filha”. Tipos! A memória me rouba um sorriso. Hoje a palavra “tipo” tem novo significado. “Tipo o que, pai?” – tenho vontade de perguntar.

Tipo, que saudade! Chego a sentir na ponta dos dedos o peso das teclas da velha máquina. Toco com a mão esquerda a alavanca e mudo para a próxima linha. Sinto de novo aquela alegria infantil dedilhando sonhos letra por letra. Os sonhos do futuro brilhante. De “todo o futuro pela frente”. Da médica ou engenheira que ele queria que eu fosse. Da escritora que ele achava que eu poderia ser.

Súbito, o “futuro” me chama. É a moça do caixa dizendo o preço da tinta da impressora. Não tenho tempo de despedir-me dele, mas ainda escuto o som de suas mãos datilografando com agilidade. Ele retira o papel e me alcança um bilhete. Está escrito, com letras inclinadas, o tamanho do seu amor. Amor de pai para filha.

 

Gratidão

Gratidão é uma palavra que está na moda. Não sei se pela pureza do sentimento, pela força da palavra, ou simplesmente pelo alcance da “hashtag gratidão”; só sei que virou comum expressar-se assim, utilizando-se o substantivo e toda a sua carga de convicção. “Muito obrigado”, “valeu” e todos os derivados transformaram-se em “Gratidão!”.

A primeira vez que me deparei com a força deste sentimento eu estava na pré-escola. Um colega arteiro machucou-se no parquinho, abrindo a testa e o berreiro. Prontamente atendido pela professora e a diretora da escola, nada de mais sério ocorreu, além de alguns pontos doloridos e mais tarde uma fina cicatriz a marcar-lhe a rosto matreiro. O fato, porém, marcou sua mãe, que ficou imensamente grata pela atenção e cuidado com que o filho foi atendido. Não foi uma ou duas vezes que o garoto chegou à escola empunhando flores, frutas e outros mimos para as suas salvadoras. Nas datas comemorativas os presentes ganhavam maior vulto e a mãe ia pessoalmente prestar sua homenagem. Eu acompanhava tudo aquilo de longe e pensava, no alto dos meus seis anos, que elas haviam simplesmente cumprido com sua obrigação. “Para que agradecer tanto, já está tudo bem” – eu refletia. Eu não sabia, ainda, que a gratidão é o mais nobre sentimento, e que não há motivo pequeno demais para ser imensamente grato.

Muitos anos mais tarde chegou minha vez de nutrir um infinito sentimento de gratidão, e então relembrar a mãe do meu amiguinho, finalmente compreendendo o que ela sentia. Lembro como se fosse hoje o dia em que conheci a pessoa que me fez assimilar o sentido daquela velha lembrança. Era uma nebulosa segunda-feira de abril do ano mais difícil da minha vida – 2002. Estávamos na porta da UTI onde minha mãe era atendida após sofrer um AVC. Ele, o médico tão aguardado, não trouxe boas perspectivas. Porém, apesar da gravidade da situação, transmitia calma e segurança. Entreguei em suas mãos minha dor e esperança, além de toda a minha confiança. Ele recebeu a missão e cumpriu com maestria. Os percalços que minha mãe enfrentaria no longo caminho de luta pela vida não cabem aqui; o que cabe é o sentimento de gratidão pelo homem que a salvou. Depois da vitória da vida, no tempo da paz e do reconhecimento, tornamo-nos amigos. Nossas famílias se aproximaram e minha mãe o chama ternamente de “meu filho”, e seus filhos de “meus netos”. Acho que não há forma melhor de expressar sua gratidão. De minha parte, faço como alguém que conheci na infância: não esqueço o presente de aniversário nem as datas especiais. Dedico-lhe minha amizade e as mais sinceras palavras de incentivo e gratidão, porque descobri que para este sentimento não existe motivo pequeno ou grande demais.

Palavra da moda ou sabedoria antiga, o que vale é agradecer! Pelas coisas grandes e pelas pequenas. Pelos atos de colaboração, incentivo e doação. Pelo empenho profissional (não é apenas obrigação), pelas grandes vitórias partilhadas e pelos pequenos atos do dia-a-dia. Pelo sorriso, pela mão estendida, pelo ombro amigo, pelo apoio do irmão. Pelo café no meio da tarde. Pelos velhos aprendizados e novos ensinamentos. Por tudo de belo que faz a vida valer a pena. Pela Vida, e pelos que a partilham comigo, minha sincera #gratidão.

 

As palavras de meu pai

Tivemos um pai-avô. Quando nasci, ele acabara de fazer 62 anos. Não bastasse, depois de mim vieram mais quatro! Aos quase 70 ele segurou o caçula pela primeira vez. Trinta e sete anos separavam a filha mais velha, do primeiro casamento, do irmão mais novo. Ao completar 80 anos, fez constar no convite de sua festa de aniversário:

“A juventude é uma dádiva que se pode ter em todas as idades; inclusive quando se é jovem.”

Ele tinha a alma jovem, o corpo forte e o coração bom. Se algo delatava a idade era apenas o branco dos cabelos e algumas palavras e expressões que gostava de usar. Sempre achei graça quando as amigas comentavam “isso é palavra do seu pai”. Sim, era. Que criança fala ‘compêndio’? Pois eu falava, assim como me calava por completo quando começava o ‘noticioso’. Seus pedidos não eram uma ordem, eram apenas pedidos, atendidos com prontidão. Da mesma forma eram cumpridas as várias ‘incumbências’ recebidas. Ao lado dele, tudo era leve e proveitoso. Com meu pai aprendi a datilografar, pintar a casa (evento que pedia ‘roupa de briga’), gerenciar as contas, organizar documentos, ‘subscritar’ envelopes, cuidar dos bichos, fazer compra de supermercado, passar café. Que prazer ele tinha em arrumar a mesa para o café! Se alguma amiga felizarda ficasse até o final da tarde, ele buscava ‘petit fours’ e servia junto com um sorriso: “mais café?”.

Os filhos, apesar de tantos e barulhentos, jamais lhe tiravam do sério. Ele era mestre na arte de educar pelo exemplo, e seu exemplo era a ‘parcimônia’. Quando as crianças entravam em atrito, ele, muito sério, advertia: “olha que vou te colocar atrás da porta com a cabeça entre as orelhas”, ou, ainda, “com o calcanhar pra trás”. Era o suficiente para encerrar o entrevero. Ninguém queria ir parar atrás da porta, ainda mais nestas lamentáveis condições.

Em nossos trajetos pela cidade a bordo da Belina verde, trocando ideias e confidências, ele me perguntava se eu estava ‘simpatizando’ com alguém. Quando eu contava, um pouco ‘encabulada’, alguma simpatia especial, ele simulava surpresa e dizia “agora você me pegou de calças curtas”.

Ele chamava aniversário de ‘festa de anos’, pedia uma ‘salva de palmas’ e arrematava com ‘meus apla-ú-sos’ – assim mesmo, “u tônico”, que era para fazer graça. Ele chamava gol de ‘gôlo’, guidão de ‘guidón’ e salário de ‘soldo’. Ele usava ‘sapato-tênis’ e ‘safári de cor cáqui’. Ele me ajudou nas lições de casa formulando ‘mnemônicos’ que guardo até hoje. Ele me ensinou palavras difíceis como ‘claviculário’ e eu guardei as chaves do seu coração.

Meu pai dizia que iria escrever suas ‘reminiscências’. Não tenho dúvida que seria uma bela história, pois foi uma bela vida. Porém, quando finalmente a juventude abandonou seu corpo ainda forte, levou junto suas lembranças. Foram tempos de ausência lógica e intensa presença emocional. Naquela época compreendi que, além de cuidar das chaves, eu me tornara guardiã das suas memórias. “As palavras de meu pai” fazem parte delas. ‘Achei por bem’ lhes contar.

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