História e mistério da cidade dos Mortos

Com mais de 96 mil sepultados, o Cemitério Municipal é um reflexo da Curitiba dos vivos, da sua organização social, urbana, seus mitos e heróis

 

Com 51.414 metros de área, o Cemitério Municipal São Francisco de Paula é uma espécie de pequena cidade dos mortos, um aglomerado urbano, repleto de história e surpresa, que mimetiza o espaço urbano de Curitiba. Ali estão sepultadas cerca de 96 mil pessoas. Para efeitos de comparação, a população do Municipal faria do São Francisco de Paula o 22º município mais populoso do estado.

Em 139 quadras divididas em 5.743 túmulos, dos jazigos mais simples aos mausoléus do tamanho de um apartamento médio, o cemitério conta, a seu modo, a história da Curitiba dos vivos, como explica a pesquisadora Clarissa Grassi, que estuda o cemitério há mais de 15 anos. Relações pública por formação, Clarissa é autora de livros e de uma dissertação de mestrado sobre o cemitério. “O São Francisco de Paula foi refletindo as mudanças no espaço urbano de Curitiba, seus modismos e suas tendências. Entender o cemitério é entender as dinâmicas da cidade”, explica ela que organiza visitas temáticas que já levaram mais de seis mil pessoas para conhecer o cemitério.

A história do Municipal remete a 1854, quando a Câmara de Vereadores e a Igreja acharam que era hora da cidade da época, com cerca de 12 mil habitantes, enterrar os seus de forma organizada. A chácara do padre Agostinho Machado de Lima, vigário da Catedral de Curitiba por quase meio século, parecia então um bom lugar para a fixação do campo santo.

Localizada em um ponto alto da cidade, longe do perímetro urbano e com uma circulação de ventos satisfatória para afastar os chamados “miasmas”, atendia os preceitos dos higienistas da época. O cemitério veria seus primeiros sepultamentos em setembro do ano seguinte.

Túmulo do padre João de Abreu de Sá Soto Maior, o jazigo conservado mais antigo do cemitério

Poderosos e anônimos

O túmulo do padre João de Abreu de Sá Sotto Maior, de 1857, é o mais antigo dentre os que estão conservados no Municipal. Ele está localizado em um dos pontos mais antigos do cemitério, que Clarissa identifica como “Largo da Ordem” e “Centro Histórico”.

Nestas quadras, que marcam o início do São Francisco de Paula, estão os túmulos de figuras como o governador Carlos Cavalcanti (1864-1935) e os prefeitos de Curitiba Cândido de Abreu (1856-1918) e João Moreira Garcez (1885-1957), além de heróis do paranismo como o Barão do Serro Azul (1849-1894) e o Capitão João Busse (1886-1921).

Ali, de quando em quando, túmulos mais populares quebram a repetição dos fidalgos que batizam as principais ruas da capital. “Dividir o cemitério em quadra dos ricos e dos pobres é um equívoco simplista”, explica Clarissa. De fato, não é preciso esforço para encontrar ali jazigos anônimos ou as sepulturas das santinhas do povo, caso de Eunice Taborda Ribas (1923-1929) e Maria Bueno (1854-1893). Das duas há mais dúvidas do que certezas. Suas bibliografias são cheias de arestas, mas as dezenas de placas de lembrança provam que elas são fruto de “graça alcançada” para muita gente.

“Largo da Ordem”

O Batel dos mausoléus

Um pouco mais recente é a área que Clarissa chama de “Batel”, não por acaso uma região de belos mausoléus que guardam famílias de políticos e empresários da primeira metade do século XX. É a morte burguesa em seu age. Um movimento natural, uma vez que a Curitiba de 1900 a 1930 via o surgimento dos grandes casarões e palacetes como produto da época de ouro da erva-mate. Ali estão enterrados Caetano Munhoz da Rocha (1879-1944) e Bento Munhoz da Rocha (1905-1973), pai e filho, ambos governadores do estado, além de grandes ervateiros como Guilherme Xavier de Miranda (1844-1920), que chegou a ser prefeito da capital por um ano, Ivo Abreu de Leão (1893-1963) e David Carneiro (1853-1918)

Barão do Serro Azul

Mais afastada, em uma parte mais nova do cemitério, está o que Clarissa chama de periferia. Projetados com outra dinâmica em relação ao espaço físico e às alegorias, os túmulos da periferia são menores e mais sóbrios. Nem por isso menos interessantes. Por ali, esbarra-se em sepulcros como o do poeta Emílio de Menezes (1966-1918) ou o do pintor Alfredo Andersen (1860-1935), além de uma multidão de curitibanos comuns. Entre nomes e sobrenomes que poderiam ser de nossos parentes ou vizinhos, acha-se até o túmulo de um príncipe austríaco. É Franz von Hohenlohe (1879-1958), que sorrateiramente ocupa um jazigo muito discreto para um membro da realeza que teve participação marcante nos jogos diplomáticos e de espionagem que culminaram com a Primeira Guerra na Europa do começo do século. Essa, no entanto, é uma outra história. Uma das tantas guardadas na cidade dos mortos do Municipal.

 

 

Fotos: Hugo Pontoni

 

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