Mentira: com perna curta e governo longo

O fenômeno das notícias falsas.
O que é fake news e como elas podem eleger o presidente de um país, e confundir o eleitorado

Seria mais fácil acusar Johann Gutenberg por ter inventado, em 1450, a imprensa e quase seis séculos depois precisarmos falar das mentiras veiculadas no site do MBL (Movimento Brasil Livre) – o maior propagador de fake news (notícia falsa) do Brasil, segundo pesquisa da Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP). “Desinventa, Gutenberg, deu ruim”. Mas teria o alfabeto, inventado em 2000 a.C. ou a escrita, 5000 a.C. As maneiras de mentir e propagar as mentiras são criativas, a humanidade dá seu jeito. Na civilização grega, mais do que o alfabeto, o destaque era para a palavra falada. Por que aprendemos a falar? Quem inventou esse negócio? Não dá para chorar o conto mal contado. Quinhentos anos depois, passando por livro, jornal, folhetim, rádio e televisão, chegamos à internet.

Em 1641, Samuel Hartlib, um exilado do Leste Europeu na Grã-Bretanha, otimista, falou: “a arte da impressão disseminará tanto conhecimento que as pessoas comuns, sabedoras de seus direitos e liberdades, não serão governadas de forma opressora”. Na década de 1990, intelectuais que estudavam a chegada da internet diziam o mesmo: ela democratizaria o conhecimento e o acesso à informação; as pessoas não ficariam reféns da televisão ou do rádio. E estamos aqui, em 2019, tendo que falar sobre fake news, pois governos se elegem e se mantêm no poder a partir delas.

A questão imposta é: qual a diferença entre as fake news que recebemos no Whatsapp das falsidades propagadas no século XIX? Ou da cômica transmissão radiofônica de Orson Welles, de 1938, que convenceu os Estados Unidos que uma invasão alienígena chegava? (Era só um trecho do livro “Guerra dos mundos”, de H.G. Wells. Essa talvez tenha sido a maior fake news de todas; pessoas abandonaram suas casa e fugiram desesperadas sem saber do que e para onde.) Ou ainda, das inverdades ditas nos jornais do século XX, muitas vezes caluniosas? Em última instância, o que são as fake news?

O especialista em fake news Axel Gelfert, da Universidade de Berlim, no artigo Fake news: a definition, sugere que elas são sempre orientadas por motivação política e também são intencionalmente falsas a fim de enganar, manipular ou desinformar a opinião pública.

O doutor em Direito Civil pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Carlos Affonso Souza, é mais categórico e didático em sua definição, a começar a restrição de fake news a sites, os quais ele classifica em quatro categorias: “(I) os que intencionalmente buscam enganar através de manchetes tendenciosas; (II) os de reputação razoável que compartilham boatos em larga escala sem verificar corretamente os fatos; (III) os que relatam de forma tendenciosa fatos reais, manipulando a informação; e (IV) os que humoristicamente trabalham com situações hipotéticas”.

Talvez a fundamental diferença entre as fake news e boatos jornalísticos, mesmo mentiras divulgadas por grandes veículos de comunicação, se dê na questão da quantidade. Um jornal não pode contar fatos mentirosos muitas vezes, pois, entre outras coisas, seu negócio funciona calcado na credibilidade. Um anunciante não colocará sua propaganda num jornal que tem fama de ser calunioso. Há um princípio ético do jornalismo. Enquanto nas fake news – na verdade, no modelo financeiro da mídia digital – não importa o conteúdo veiculado, e sim o número de cliques existentes. Quanto mais cliques, mais anúncios.

Portanto, quando no começo do século XX se impôs o jornalismo baseado na venda de assinaturas e de anúncios, os jornais precisavam, além de dar a notícia por primeiro, dar a notícia correta.

No entanto, pesquisadores dizem que a pós-verdade, palavra do ano de 2016, segundo o dicionário Oxford, também é fator contributivo para a proliferação das fake news.

A pós-verdade é o princípio que o fato não importa tanto quanto aquilo que eu quero que ele seja. Isto é, a verdade não importa, e sim a minha opinião. Isso prejudica o jornalismo, já que sua principal função é dar o fato independentemente de governo, de partido, de ideologia. E é baseado no desejo das pessoas que as fake news funcionam para eleger presidentes, por exemplo, como Trump e Bolsonaro.

O jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná, Vinicius Torresan, diz que “O fenômeno das fake news não é exclusivo no Brasil, mas ele assume algumas particularidades aqui. Uma delas é a popularidade do WhatsApp. Nove entre dez brasileiros conectados usam o aplicativo. Em grande medida, a natureza privada do WhatsApp torna ainda mais ineficaz qualquer tentativa de fiscalização e controle da circulação de fake news. O boom das notícias falsas no aplicativo certamente foi um aspecto importante do período eleitoral”.

CPI das fake news

Sendo um problema contemporâneo mundial, o Brasil não passou incólume às fake news. Por isso, no dia 4 de setembro foi aberta uma CPMI (Comissão parlamentar mista de inquérito), com 16 senadores e 16 deputados, para investigar a criação de perfis falsos e ataques cibernéticos nas diversas redes sociais. A justificativa é que os ataques poderiam influenciar o processo eleitoral e o debate público. O presidente é o senador Angelo Coronel (PSD-BA), que ao ocupar a presidência foi ameaçado de morte. Em seu e-mail funcional mensagens anônimas diziam que ele não sabia com quem estava mexendo, e prometiam “encher sua boca de chumbo”.

A CPI mista terá 180 dias para investigar a criação de perfis falsos e ataques cibernéticos nas diversas redes sociais. O trabalho deverá ser intenso, pois segundo o professor da USP Pablo Ortellado, são criadas em torno de 3 mil a 5 mil notícias falsas por dia no Brasil. A relatoria ficou com Lídice da Mata (PSB-BA), o que indica que o governo estava pouco articulado e não conseguiu emplacar alguém na base nem na presidência, tampouco na relatoria.

As consequências disso são óbvias, os alvos podem causar preocupação ao presidente Jair Bolsonaro. Tanto o presidente quanto a relatora garantiram a convocação de Carlos Bolsonaro. “É uma pergunta muito simples. Você usou fake news para depreciar adversários? Você vai jurar que está falando a verdade? Eu vou lhe dizer: se você mentir, eu posso lhe dar voz de prisão”, disse Angelo Coronel à TV Câmara de Salvador fazendo referência a Carlos Bolsonaro.

Há requerimentos para convocar a ministra Rosa Weber, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a ex-deputada e candidata a vice de Fernando Haddad, Manuela D’Ávila, e representantes das principais empresas de telecomunicações que atuam no Brasil, Oi, Tim, Claro, Vivo e Nextel. Além de empresas como WhatsApp, Telegram, Google, Instagram, Youtube e Twitter, que são consideradas pelos deputados como meios de distribuição de notícias entre a população. O site The Intercept Brasil também está na lista.

Angelo Coronel salientou a importância de descobrir a fonte das notícias falsas para “dar um basta” e que elas abalam a democracia brasileira.

“Nós vemos a cada dia famílias sendo atingidas por notícias falsas e precisamos dar um basta nisso e descobrir quais são os focos desta indústria de fake news que abala a democracia brasileira. Esta é uma comissão suprapartidária e espero contar com todos os pares para que a gente possa dar essa resposta a nossa sociedade”, afirmou.

Antes da CPI, o assunto já causava inquietações. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) promoveu em maio um seminário sobre a temática. Os especialistas apontaram lacunas na legislação e a necessidade de atualizá-la, embora acreditem no amplo debate que necessita ser feito. “A questão é definir exatamente o que é fato falso e o que é opinião falsa. Porque opinião falsa existe, e é de cada um”, ponderou na ocasião Henrique Neves, presidente do Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral (Ibrade).

Qual é o estrago?

O reflexo das notícias falsas é real, e aquilo que não existia tem consequências severas (ver o box). Em maio de 2014, uma dona de casa de 33 anos foi espancada até a morte por vários moradores da cidade do Guarujá, após boatos espalhados pelo Facebook de que ela sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de bruxaria. Em 2016, um serralheiro da Baixada Fluminense foi identificado como estuprador de crianças e sofre ameaças de morte até hoje, mesmo o caso não sendo verídico. Neste ano, uma multidão tentou linchar um casal em Araruama, no Rio de Janeiro, após boato de sequestro de criança divulgado no WhatsApp. Os casos foram reunidos no artigo do doutor em Direito Civil, Sérgio Branco, “Fake News e os Caminhos para Fora da Bolha”.

Segundo uma pesquisa internacional publicada no Canadá em junho deste ano, 86% das pessoas admitiram já ter acreditado em alguma notícia falsa. A pesquisa foi realizada pela Ipsos e encomendada pelo grupo canadense Centro para a Inovação em Governança Internacional.

De acordo com os dados, 77% dos usuários do Facebook já se depararam com notícias falsas. No Twitter o número é de 62%. E as redes sociais são as principais responsáveis pela disseminação do conteúdo mentiroso, 82%. Foram mais de 25 mil pessoas consultadas, em 25 países.

Outro estudo, também da Ipsos, só que de 2018, concluiu que o Brasil é o país que mais acredita em fake news entre 27 países pesquisados. Os dados mostram que 62% caem em notícias falsas. Na sequência vêm Arábia Saudita e Coreia do Sul, com 58%. Em seguida, Peru e Espanha, com 57%, e China, com 56%.

Os países mais “desconfiados” são Reino Unido e Turquia, com 33% de aceitação de fake news; e Itália, com 29%.

A porcentagem no caso do Brasil corresponde a 120 milhões de cidadãos, o que dá 81% do eleitorado. Por isso que a CPI da fake news é mais do que necessária, pois 81% acreditaram nelas.

O fato foi comprovado pela pesquisa do IDEIA Big Data/Avaaz, divulgado em novembro do ano passado. O estudo revelou que 83,7% dos eleitores de Jair Bolsonaro (PSL) acreditaram na informação de que Fernando Haddad (PT) distribuiu o chamado kit gay para crianças em escolas quando era ministro da Educação. O levantamento mostra que 85,2% dos eleitores de Bolsonaro tiveram acesso à fake news, e que 10% dos eleitores de Haddad acreditaram na história. Além disso, 98,21% dos eleitores de Bolsonaro entrevistados foram expostos a uma ou mais mensagens com conteúdo falso.

Outra notícia falsa em que os apoiadores de Bolsonaro julgaram como verdade foi a que atribuía a Haddad a defesa da prática do incesto e da pedofilia (74,6%). Entre os eleitores do petista, 9,8% consideraram que a informação era verdadeira.

A opinião do especialista em marketing digital, Marcelo Vitorino, é que as medidas do TSE para controlar as fake news durante as eleições foram insuficientes, e enquanto não houver regularização as pessoas precisarão aprender a conviver com elas.

“Houve avanços em algumas frentes, mas, no caso do WhatsApp e Facebook, poderiam ir além. Mas até as coisas se regularem, pode levar no mínimo cinco anos. Enquanto isso, as pessoas precisarão aprender a conviver com as fake news. É difícil pará-las. Depois de enviada, não conseguimos controlá-las”, disse.

Ele também sugere algumas medidas que poderiam de uma forma ou de outra diminuir o impacto. “Como o WhatsApp não consegue restringir a conversa entre as pessoas, seria preciso que os responsáveis pelo aplicativo fizessem um pacto com as empresas de telefonia. Hoje, qualquer pessoa consegue comprar um chip e ativar por meio de um gerador de CPF. Fora do país, se você quiser comprar um chip, precisa apresentar um passaporte. Por que aqui é tão fácil? Temos que restringir que aquele número de telefone esteja atrelado ao aplicativo.”

Pode a fake news ganhar a eleição?

Desde o fenômeno Trump, muitos especialistas apontam que as fake news são fatores preponderantes para as vitórias nas eleições. Nomes do marketing digital tomam os lugares dos tradicionais marqueteiros de campanha política, e desenvolvem estratégias para, mais do que eleger, perpetuar governantes no poder e emplacar agendas.

Vinicius Torresan, não põe na conta da fake news a vitória de Bolsonaro, embora veja com centralidade a sua atuação.

“Seria um reducionismo afirmar que Bolsonaro se elegeu pelas fake news, o que não significa negar que elas foram centrais na sua estratégia. A campanha de Bolsonaro identificou e inflou os descontentamentos dos brasileiros com as instituições e com o sistema político, e fez isso também com a ajuda das fake news. Diversas pesquisas indicam que as datas decisivas do período eleitoral de 2018 foram as que registraram maior circulação de fake news, com inegável protagonismo das que endossavam a agenda política de Bolsonaro. Não é correto afirmar que todo o êxito da campanha de Bolsonaro se deve às notícias falsas, mas elas tiveram protagonismo”.

Torresan também aponta para a importância da estratégia desenvolvida pelos operadores das fake news para influenciar o eleitorado.

“A produção de fake news está muito ligada a essa possibilidade de direcionar conteúdos para públicos específicos. Se antes um candidato ou governante se comunicava com uma ampla audiência com uma só mensagem – pela TV ou pelos jornais –, agora ele se comunica de maneira estratégica com diferentes grupos. O emissor é o mesmo, mas as mensagens são diferentes e atingem pessoas diferentes. Bolsonaro soube fazer isso muito bem durante a campanha: os fragmentos de seus discursos, dos extremados aos amenos, chegaram de forma assertiva às pessoas cujo descontentamento já estava previamente mapeado”, conclui.

Ideias no alvo

Esta revista Ideias recentemente foi alvo de mensagens anônimas via WhatsApp. A profissionalização da prática criminosa de fake news invade, como pode ser percebido, esferas que ultrapassam o poder público. Todos estão sujeitos. Os criminosos também atacaram o editor da Ideias Fábio Campana; as mensagens são todas caluniosas. “Sofri um ataque daqueles. Apócrifo, sórdido, mentiroso, escrito com a tinta da covardia. Um texto enviado por WhatsApp circulou entre políticos, jornalistas e pessoas de meu relacionamento pessoal”, diz Campana. “Seja quem for, tenha a força e o poder que tiver, terá punição, como manda a lei e a minha vontade de justiça”, conclui.

Ao que se apresenta, não há limites para estes ataques (veja o box abaixo). Por isso, é mais do que necessário que o poder público se agilize para conseguir aperfeiçoar investigações nessa área. A grande questão é que em não poucos casos, quem se utiliza dessa prática criminosa são as pessoas que compõem os cargos públicos.

O governador Ratinho Junior, quando estava em campanha, em abril do ano passado, lançou uma cartilha sobre fake news. Disse ser um debate urgente, e falou da necessidade de combate-las. Meses depois, em entrevista à Folha de S. Paulo, logo após ser eleito, minimizou o debate, afirmou que o impacto das notícias falsas nas eleições não era tão grande, e que o eleitor já estava vacinado.

No último maio, a ex-coordenadora da Rádio Educativa, Adriana Sydor, foi alvo de uma série de ataques. E-mails, mensagens no WhatsApp etc. traziam conteúdos difamando-a e pedindo sua exoneração. O governo de Ratinho Junior cedeu às fake news e a exonerou. E a vítima foi transformada em vilã. Tentamos contato com a comunicação do governo Ratinho para obter algum posicionamento do caso, mas não tivemos resposta. A Ideias também pediu o depoimento de Sydor, é o que segue abaixo.

IDEIAS: Você foi alvo, durante o seu período como coordenadora na rádio, de e-mails falsos, e o governo em vez de apoiá-la preferiu lhe exonerar. O governador Ratinho Junior no ano passado lançou uma cartilha sobre as fake news e à época afirmou: “A busca pela verdade não é tarefa exclusiva dos veículos de comunicação. Somos todos responsáveis pela manutenção do verdadeiro, do legítimo e pela luta contra a propagação das mentiras e boatos”. De lá para cá, aparentemente alguma coisa mudou, haja vista o que aconteceu com você. O que você pode nos dizer como vítima dessas ações?

Adriana Sydor: Quando passei a ser vítima de e-mails, mensagens de WhatsApp e criação de perfis falsos propagando mentiras e ofensas a exigir minha exoneração, não acreditei que o governo do Estado pudesse pender a balança para o lado do crime.

Recebi apoio incondicional de colegas de trabalho, colegas da imprensa, de praticamente todo o universo que recebeu este material e, de alguma forma, este suporte me tranquilizou ao mesmo tempo em que potencializou minha força de trabalho.

Mas com o passar dos dias e a crescente campanha fui sendo avisada por pessoas amigas que o governo me exoneraria. O governo de Ratinho Junior, apesar de ter desenvolvido material contra fake news durante a campanha, cedeu às vontades e aos esforços de um criminoso ou criminosa ou quadrilha, ainda não sei. Isso me faz acreditar que o material e as ideias eram só artigos de comunicação de campanha e que no cotidiano, outra coisa é aplicada.

É revoltante ser vítima de um crime e mesmo assim ser punida.

Depois da minha exoneração, passei por um período que foi intercalado por depressão, revolta, tristeza, raiva, decepção. Medo, abandono e indignação ainda me acompanham.

Escrevi mensagens destemperadas (porém verdadeiras) ao governador, ao secretário, à direção da RTVE. Pensei mil vezes antes de dizer não a duas jornalistas de fora do Paraná que souberam da história e quiseram trata-la em cadeia nacional. Desviei de aproveitadores de plantão que se apropriam de histórias apartidárias para transforma-las em artilharia política. Recusei os holofotes cedidos por alguns deputados da Assembleia Legislativa. Vou à polícia uma vez por semana atrás de novidades e amargo os dias, em relação a esse assunto, com frustração.

Mas as sociedades são compostas de matérias de várias ordens. Se de um lado, há a sordidez por cargos, a estupidez em achar que um pequeno poder dura para sempre, a falsa pregação do discurso, há também os dias azuis estampados nas mãos amigas e na solidariedade de muita gente: gente que não pode se expressar publicamente porque tem medo da guilhotina do governo; gente que nem conheço mas que por conta dos princípios democráticos se apresentou como apoio; gente que tem queixas parecidas deste governo; gente que me amparou, me olhou nos olhos e segue comigo a caminhada.

Supero as injustiças desta história, mas é triste saber que os discursos e atitudes de campanha continuam tão longe da prática diária.

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