Ode a Leonardo da Vinci

Único e plural, sem disfarces, sem máscaras,

tu foste, não um, mas inúmeros.

No teu cérebro os lírios do gênio

floriam e as aves da glória voavam

em largas elipses.

Tu foste, nas noites do burgo de Vinci,

uma espécie de humana sarça ardente

clareando as auroras de cristal.

 

Pintor, teu pincel era um gládio

(de gume de espanto) em perpétuo duelo

com a luz e a sombra. Sonhador,

tu soubeste inventar na solidão das telas

a música rara de um raro arco-íris.

Arquiteto em delírio, construíste

o edifício da beleza implacável que mora

entre nuvens, imune à passagem dos bandos

das aves de rapina do tempo.

 

Poeta, disseste o indizível em palavras

em que havia o perfume agridoce

das metáforas.

Cientista, inventor, reconstruíste

com mãos aladas de artesão do sublime,

nas tuas máquinas a Máquina do mundo.

(Eram aves e peixes de metal e assombro.)

Mas tu simplesmente copiavas

os sonhos de Deus em sua sempiterna vigília.

 

Alquimista sutil das sintaxes ignotas,

prestidigitador de estranhos jogos lúdicos,

visionário, profeta do futuro, taumaturgo

dos milagres possíveis, saltimbanco

do Novo, Rei Artur de todas as Távolas,

Galaad de todos os mitos, descobridor

de Índias, Eldorados, Passárgadas,

argonauta de todos os périplos, êmulo

de Deus e dos seus anjos e santos,

perante a tua imagem nós rezamos:

São Leonardo, rogai por nós!

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