Qualquer coisa além da beleza

A MPB é recheada de musas. Mulheres sensuais, que passam em doces balanços a caminho do mar. Mulheres que têm olhar matador, olhar 43, olhar sedutor, olhar de gueixa. Mulheres novas, bonitas e carinhosas que fazem homem gemer sem sentir dor. Mulheres que mexem com o juízo do homem que vai trabalhar. Mulheres que escandalizam o comércio. A MPB se dedica à beleza feminina na medida em que seus poetas acreditam que é esse o elemento essencial do amor, do convívio, do bem-querer.

Mas o contraditório Vinicius de Moraes, que tantas vezes cantou os encantos da estampa, também ensinou que a mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza. É verdade que fez isso em causa própria, não esquecendo suas preferências um tanto, como direi, machistas. Antes de apertar o play dessa seleção, vamos, para o bem e para o mal, aos versos do Poetinha: “Uma mulher tem que ter alguma coisa além da beleza / Qualquer coisa feliz / Qualquer coisa que ri / Qualquer coisa que sente saudade / Um pedaço de amor derramado / Uma beleza que vem da tristeza / Que faz um homem como eu sonhar / Tem que saber amar / Saber sofrer pelo seu amor / E ser só perdão”. Tudo bem, Vinicius, eu te acho sensacional e você está entre os meus preferidos, mas uma mulher tem que saber sofrer pelo seu amor e ser só perdão? Não mesmo, né? Vai te catar, Vinicius!

Havia planejado começar essa seleção com “Loira burra”, aquela coisa feita por Gabriel, o Pensador, que se em alguns momentos conta verdades incontestes, em outros, acaba por escancarar a própria conduta do compositor, que ao mesmo tempo em que critica o comportamento de mulheres que cuidam apenas da estamparia, se relaciona com elas por motivos igualmente pequenos. Ao ouvi-lo cantar e ler letra com atenção para a coluna, desisti. Achei que é melhor não gastar caracteres com isso. Mas me deu uma curiosidade sobre de onde vem o mito “loira burra”. Encontrei um caminhão de citações sobre o assunto. A maioria cita papéis que a castanha Marilyn Monroe interpretou em Hollywood que repetiam o clichê de fútil e bela. Mas o mundo não começou na década de 1950 e bem antes disso o assunto foi tratado.

No século 1 antes de Cristo, o poeta romano Propércio escreveu umas coisas sobre mulheres que clareavam o cabelo para imitar outras, pertencentes a povos bárbaros: “Muitos males cercam a garota que estupidamente pinta seu cabelo com uma falsa cor”. Sei que caminho numa linha muito perigosa com essa citação, Propércio, penso eu, não tinha nada que ficar rotulando quem quisesse pintar o cabelo dessa ou daquela cor, mas ele se referia à estupidez de copiar povos estúpidos.

Vou deixar esse assunto de lado, porque acredito firmemente que não é cor de cabelo, natural ou pintado, que define intelecto. Ou beleza. Ou qualquer coisa.

Voltando à playlist. Você conhece Francisco, el Hombre? Se não, vai já para a internet e procura. Melhor, abre o Youtube e vê o clipe da banda para “Triste, louca ou má”. A música também fala sobre essa coisa equivocada de achar que o que vai do lado de fora de uma pessoa determina quem ela é: “Um homem não te define / Sua casa não te define / Sua carne não te define / Você é seu próprio lar”.

Céu, linda por fora e melhor ainda por dentro, cantou o assunto também, presta atenção: “Minha beleza não é efêmera / Como o que eu vejo / Em bancas por aí / Minha natureza / É mais que estampa / É um belo samba / Que ainda está por vir”.

Já que estou nessa temática, não é possível passar por aqui sem citar “Pagu”, criação de Rita Lee e Zélia Duncan, que homenageia você, eu e Patrícia Rehder Galvão, escritora, jornalista e militante de muitas causas que ficou conhecida como Pagu: “Não sou atriz, modelo, dançarina / Meu buraco é mais em cima / Porque nem toda feiticeira é corcunda / Nem toda brasileira é bunda / Meu peito não é de silicone”.

Até Chico Buarque, que é um campeão em tratar de forma equivocada a mulher em suas músicas, também sacou em determinado momento que algumas coisas mudam a partir de um entendimento diferente sobre as coisas importantes da vida. Foi isso que fez em “Tanto Amar”, música de 1981, escrita para uma vesguinha de sorte, que eu considero, sem brincadeira, uma das mais lindas canções de amor de toda MPB. E veja, a depender o dia, considero também uma das mais divertidas composições de Chico: “Amo tanto e de tanto amar / Acho que ela é bonita / Tem um olho sempre a boiar / E outro que agita […] Se seus olhos eu for cantar / Um seu olho me atura / E outro olho vai desmanchar / Toda a pintura […] É na soma do seu olhar / Que eu vou me conhecer inteiro / Se nasci pra enfrentar o mar / Ou faroleiro”.

A falar sobre os interesses de uma pessoa pela outra que vão além da beleza, acho que o tema que mais gosto é “Doralinda”, composição de João Donato e Cazuza. É justo que essa belezinha termine a coluna: “Você não é bonita / Você não é nem charmosa / É tímida e envergonhada / Minha Olívia Palito / Mas singraria sete mares / À tua procura […] Porque você é uma rainha / Mas a vida é assim / O que tem que ser já é / Bonito, Doralinda”.

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