Títulos, o batismo dos filmes estrangeiros

Na época dos grandes estúdios hollywoodianos, estes pediam aos funcionários das suas respectivas distribuidoras em países fora dos Estados Unidos, sugestões para títulos de seus filmes e com termos que estivessem em voga, inclusive para incluir nas legendas, nos países que as usavam, na época feitas por lá.

Regularmente, remetiam as sinopses das produções com os títulos em inglês, pedindo sugestões para que a titulagem resultasse adequada para a publicidade do filme. Alguns países usavam a dublagem, como por exemplo a Itália. Aqui no Brasil, High noon, de 1952, ficou Matar ou morrer; Giant, de 1956, Assim caminha a humanidade.

Algumas adaptações de sonoridade forte escapam da tradução literal, não desvirtuam o sentido do filme e funcionam bem, como por exemplo Raging bull, de 1980, que seria “touro enraivecido”, ficou Touro indomável, uma solução mais precisa de acordo com a história. Mas aconteceram barbeiragens como no famoso O poderoso chefão, no original de 1974 The godfather (literalmente, “o padrinho”) reitera a corrente de relacionamentos e compadrios, forma pela qual se equilibra o comando do patriarca dos Corleone, que o título em português não alcança. Claro, tudo com o intuito de vender o produto, despertando o interesse do público.

Um dos piores exemplos é A última loucura de Mel Brooks, no original Silent movie, de 1976, comédia em cores, widescreen, mas sem diálogos com música e efeitos sonoros, um dos filmes mais originais do diretor. A distribuidora, com medo de que o título afastasse o público dos cinemas como se fosse filme antigo, criou um que não diz nada e que ficou desatualizado em seguida à comédia posterior de Brooks.

O jornalista Ernani Gomes Correia, o popular EGC da coluna Roda Gigante da Tribuna do Paraná, e que foi por muitos anos gerente da Paramount em Curitiba, contava que mandava suas sugestões. Uma das suas foi uma expressão em voga na época “é da pontinha”, significando maravilhoso, surpreendente. Filme A princesa e o plebeu (Roman Holiday), de 1953, direção de William Wyler, filmado em Roma, e quando Gregory Peck mostra a Audrey Hepburn o Coliseu romano, exclama: It’s Wonderful, na legenda aparecia: é da pontinha! Gabava-se ele que o título A porta de Ouro era sua criação. No original Hold Back the dawn, com Charles Boyer e Olivia de Haviland, direção de Mitchel Leisen, produção de 1941, versava sobre gigolô casando com solteirona para poder entrar nos EUA legalmente. Estas solicitações das distribuidoras resultavam numa concorrência entre os empregados dando seus palpites.

Mas estas titulagens modificadas do original não acontecem só no Brasil. Vejam alguns exemplos, sem piadas, mas reais, comparando o título original, o dado no Brasil e em Portugal.

  • Stagecoach – No tempo das diligências – Cavalgada heróica
  • High noon – Matar ou morrer – O comboio apitou três vezes.
  • On the Waterfront – Sindicato de ladrões – Há lodo no cais.
  • Rosemary’s baby – O bebê de Rosemary – A semente do diabo.
  • Citizen Kane – Cidadão Kane – O mundo a seus pés.
  • The general – A general – Pamplinas maquinista.
  • Vertigo – Um corpo que cai – A mulher que viveu duas vezes.
  • West side story – Amor sublime amor – Amor sem barreiras.
  • A streetcar named desire – Uma rua chamada pecado – Um elétrico chamado desejo.
  • Ben-Hur – Ben-Hur – O Charreteiro infernal.
  • The lady killers – O Quinteto da morte – O quinteto era de cordas.
  • Laurel and Hardy – O gordo e o magro – Stica e Bucha.
  • The gold rush – Em busca do ouro – A quimera do ouro.
  • The sound of music – A noviça rebelde – Com música no coração.
  • A hard day’s night – Os reis do iê iê iê – Os quatro cavaleiros do após-calipso.

No cinema nacional houve a fase das pornochanchadas, nada pornôs, apenas comédias eróticas, mas que divertiam já pelos títulos, e que faziam a alegria dos exibidores obrigados a cumprir as cotas obrigatórias de filmes nacionais: Pura como anjo, Será virgem?, Como era boa a nossa empregada, A banda das velhas virgens, Agite antes de usar, e por aí vai. Com apelações, estes filmes ganhavam o suporte de frases de apoio e cartazes do mesmo nível. Esta fase terminou com a liberação dos pornôs no fim da censura do regime militar, que inundou os cinemas com a demanda reprimida por anos, além de muitos filmes reexibidos “sem cortes”.

Hoje, os títulos aparecem em tradução literal ou na língua de origem mesmo. Em alguns casos os distribuidores recorrem ao complemento do título original, Crash, por exemplo ganhou o apêndice No limite ou Syriana – a indústria do petróleo. Na maioria das vezes existe a redundância, mostrando a falta de criatividade ou cede a tentação de contar no título, o essencial do filme: Noivo neurótico, noiva nervosa, versão para Annie Hall, filme de Woody Allen com Diane Keaton no papel título.

Ainda existe um complicador para pesquisar ou procurar produções – nos canais por assinatura ou na Netflix, principalmente; disponibilizam o filme com o título sem tradução, ou diferente do exibido nos cinemas. É o caso de A qualquer custo, filme de 2016, que está disponível com o original Hell or hight water, dirigido por David Makenzie com Chris Pine, Bem Foster e Jeff Bridges, considerado um ótimo faroeste moderno. Também tem acontecido títulos iguais para filmes diferentes, causando confusões em pesquisas na internet.

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