A realidade da segurança em Curitiba

O Brasil é muitas vezes clamado por não ter em seu histórico guerras de proporções continentais e sangrentas como as duas grandes guerras do século passado ou uma guerra civil como a americana. Apesar de haver em nosso histórico conflitos localizados, principalmente no século XVIII, e a Guerra do Paraguai (1864-1870) principal conflito armado em que o Brasil empenhou forças. Isso, no entanto, nada diz sobre o cenário nacional. Entre 2001 e 2015 houve 786.870 homicídios, 70% causados por arma de fogo. Para se ter uma comparação – existir ou não uma guerra parece não fazer diferença – a guerra do Iraque, entre 2003 e 2017 somou 268.000 mortes.

 

Os números, embora concretos e assustadores, não dão exatamente a dimensão da experiência cotidiana. O que sentimos diariamente é a insegurança ao sair de manhã, de tarde e de noite. Quem não foi assaltado, conhece alguém que foi, e muitos sabem de casos de homicídios.

 

A vida real, do trabalho, do lazer e da escola encontraremos nas cidades, cuja variância é significativa. Há cidades com taxas baixíssimas de violência urbana, enquanto outras são assustadoras. A Ideias foi atrás dos dados de Curitiba, a partir do que se tornou comum ouvir na cidade: hoje está muito mais violenta do que antes; está cada vez mais parecida com São Paulo, isto é, com todas as mazelas existentes num grande centro urbano etc. Resumindo, a sensação de insegurança cresceu, o que se confirma no dado de 2018 do Instituto Gallup: o Brasil é o quarto país no mundo em que as pessoas se sentem mais inseguras, entre 142 nações. Venezuela, Gabão e Afeganistão estão à frente, o que mostra o verdadeiro terror que os brasileiros vivem.

 

CURITIBA

Os dados mais recentes são do “Atlas da Violência – Retrato dos Municípios Brasileiros 2019”, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) em agosto deste ano, e curiosamente Curitiba, apesar do clima de guerra entre os brasileiros, caminha na direção contrária nas estatísticas. Na década de 2007 e 2017 houve uma redução de 38,2% nos homicídios dolosos (com intenção de matar). De 2016 para 2017, a redução foi de 19,6%. Isso representa uma taxa de 24,6 homicídios para cada 100 mil habitantes. Dez anos antes, essa taxa era de 39,8. O dado coloca Curitiba entre as dez capitais com menos homicídios no país, é a quarta, atrás de São Paulo (13,2), Campo Grande (18,8) e Brasília (20,5). A média nacional da taxa, para municípios com mais de 100 mil habitantes, é de 37,6.

 

Em contrapartida, cidades da região metropolitana ainda têm índices altos; cinco delas estão acima da média nacional: Piraquara, São José dos Pinhais, Almirante Tamandaré, Colombo e Pinhais, o que na prática afeta Curitiba, pois nos dias de hoje o intercâmbio entre as cidades é intenso. O caso mais assustador é Piraquara com 67 assassinatos para cada cem mil habitantes.

 

Segundo especialistas, o que torna as cidades da região metropolitana as mais perigosas do estado é a proximidade da capital e, ao mesmo tempo, a distância do aparato estatal –tornando essas cidades verdadeiras terras sem lei. O tráfico de drogas é uma das principais causas (cobrança de dívidas e disputa de territórios).

 

Aknaton Souza, sociólogo e pesquisador do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da Universidade Federal do Paraná, afirmou à Gazeta do Povo ser “bastante clara na ciência a relação entre o urbanismo e criminalidade violenta. Quanto mais desertificada é uma cidade, no sentido de aparato estatal e políticas públicas, maior a tendência de haver crimes violentos”.

 

Diferentemente do que é comum ocorrer nas secretarias de Segurança Pública, o Ipea aperfeiçoou a metodologia de acordo com os padrões mundiais, dessa forma há o cruzamento de dados para que se chegue num dado mais preciso.

 

“O aperfeiçoamento nas coletas de dados de declarações de óbitos e ocorrências policiais é fundamental para o ciclo das políticas públicas […] na área de segurança pública. Neste sentido, proposta contida no Protocolo de Bogotá […] dentre outras, de aplicação da metodologia de cruzamento de homicídios, vítima a vítima, pode contribuir para melhorar a qualidade das informações produzidas pelo SIM (Sistema de Informações de Mortalidade) e pelas instituições de segurança pública”, diz o instituto.

 

Segundo reportagem do Nexo, a secretaria de Segurança Pública de São Paulo, por exemplo, contabilizava casos de homicídio não pelo número de vítimas, e sim por crime. Então se numa eventual chacina morrer dez pessoas, contabiliza-se um homicídio, o que mascara a estatística.

 

Até 2015, o manual da ONU não explicitava se o cálculo da taxa de homicídio deveria ser feito considerando o número de vítimas ou de casos. Isso foi discutido na Conferência sobre Qualidade de Dados de Homicídios na América Latina e no Caribe, em setembro de 2015 em Bogotá, na Colômbia. Daí a citação do Protocolo de Bogotá pelo Ipea, que definiu: “A unidade de registro do homicídio deve ser a vítima. Assim, caso duas ou mais pessoas sejam vítimas de homicídio no mesmo incidente, cada uma delas deverá ser registrada individualmente”.

 

ASSALTOS

A insegurança sentida pelo curitibano não se dá apenas pelo número de mortes – as quais ocorrem em seu grande número em bairros mais afastados e marginalizados –, os assaltos e furtos também são grandes responsáveis pelo lazer do curitibano deixar de ser o parque e se tornar o shopping, embora nem estes escapem.

 

Os números, contudo, assim como nos homicídios, caminham em direção oposta. Segundo dados do relatório elaborado pelo Centro de Análise, Planejamento e Estatística (CAPE), da Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná, e publicados em setembro deste ano, mais de 60 dos 75 bairros apresentaram queda tanto em furto como em roubo.

 

As ocorrências de roubo caíram 20,69% em Curitiba, enquanto os registros de furtos tiveram queda de 15,87% no primeiro semestre do ano, no comparativo com o mesmo período de 2018.

 

Até julho ocorreram 18.731 casos de furtos e 10.464 de roubos. Se compararmos com o ano passado são 3.534 furtos e 2.730 roubos a menos, ou seja, uma diminuição de 16% e 21%, respectivamente. Os dados que mais chamam a atenção é a redução no número de roubos a residências (-40%), de veículos (-32%) e ao comércio (-31,3%).

 

Em números absolutos os bairros com maior número de furtos e roubos são Centro (4.564); Cidade Industrial de Curitiba (1.706); Sítio Cercado (1.333); Portão (1.128); e Cajuru (1.001). Três deles são os mais populosos da cidade, o que explicaria de certa forma o maior número de crimes: CIC (188.247 moradores), Sítio Cercado (128.695 moradores) e Cajuru (102.643 moradores). Fazendinha é o bairro com menor índice entre furtos e roubos (334); na sequência vem Mercês (366); e Bigorrilho (392).

 

O secretário de Defesa Social e Trânsito de Curitiba, Guilherme Rangel explica que o fluxo de pessoas da região metropolitana para o centro de Curitiba favorece esse maior número de roubos e furtos, foram 4.564 no total. “Curitiba tem uma população normal de 2 milhões de habitantes, mas flutuantes chega a quase 3 milhões. Então isso pesa principalmente nas aéreas centrais, onde tem bastante parque, praça, comércio, rede bancária. O Centro tem essa peculiaridade.”

 

Embora os números não coincidam com o que vemos e apresentem quedas, ainda são altos. Curitiba ano a ano cresce. Já deixou de ser provinciana, e se aproxima das grandes capitais do país, o que exige políticas públicas. Obviamente, as medidas de segurança são importantes, mas nem sempre elas estão vinculadas a policiamento. A ocupação do espaço público pelas pessoas faz diferença. Isso nos leva a crer que mais do que módulos policiais, são necessários módulos de educação, lazer e cultura para que o curitibano possa fruir a cidade e os índices diminuam ainda mais.

 

 

 

 

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