Lula na luta

Acreditem. Daqui pra frente, tudo vai ser diferente. Lula está livre e como não veio ao mundo a turismo, saiu da cadeia com ânimo de jovem militante. É dele a frase, que pode soar a muitos como de extremo mau gosto, especialmente aos seus adversários que torciam para que ele viesse a morrer na prisão. “Tenho tesão de uns 20 anos. Esse jovem de tesão de 20 anos vai estar nas ruas com vocês.”

Depois de 580 dias encarcerado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez seu primeiro pronunciamento para o partido em Salvador, na Bahia. Em meio a discussões sobre o PT compor ou não com candidaturas de outros partidos de esquerda nas eleições municipais do ano que vem, Lula disse que a legenda “não nasceu para ser partido de apoio” e que deve lançar candidatos em todas as cidades possíveis. Afirmou, ainda, que o partido não precisa fazer nenhuma autocrítica.

Nesse discurso, citou praticamente todos os possíveis candidatos à presidência em 2022, com críticas e ironias ao presidente Jair Bolsonaro, ao governador de São Paulo, João Doria, do PSDB, e ao apresentador de TV Luciano Huck. Em todas, ele aparece como o favorito ou um deles. Ao falar de Bolsonaro, Lula voltou a ligar o nome do presidente ao de milicianos e ao assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e de seu motorista Anderson Gomes. “Bolsonaro, não pense que eu quero brigar com esses milicianos. Não quero, essa briga resultou na (morte de) Marielle”.

Lula voltou a criticar a condução econômica do governo federal, numa demonstração do que deve ser o mote de sua atuação na oposição e atacou de forma rápida o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, a quem chamou de “canalha”.    

Foto: Gibran Mendes / CUT-PR

Fica estabelecido que ele volta ao cenário político para ser candidato à presidência da República, mesmo impossibilitado de disputar qualquer eleição, já que a condenação em segunda instância o enquadra na Lei da Ficha Limpa. Mas seu nome é o único viável para qualquer pleito. Para a militância reunida em Curitiba, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que permitiu sua liberdade ao determinar que só podem ser presos condenados sem direito a recurso, trouxe o otimismo de que a Corte possa ser favorável à ação de suspeição de Sergio Moro, o juiz que o condenou e hoje ocupa o ministério da Justiça de Bolsonaro. Se o STF considerar que o antigo juiz da Lava Jato não era isento para tomar sua decisão, o processo será anulado e voltara à estaca zero. A condenação cairá. E um próximo julgamento em segunda instância poderá demorar para além de 2022, abrindo a possibilidade para que ele ocupe um lugar na urna eletrônica.

A expectativa que inflamou as esquerdas vai além da disputa eleitoral. A presença física do principal líder político da oposição nas ruas sinaliza um rumo para a oposição ao ultradireitista Jair Bolsonaro. Lula – e ninguém mais em todo um partido que parecia anestesiado nos últimos 580 dias – é visto como o guia capaz de ordenar e liderar os discursos e as ações a partir de agora. O ataque se baseia nos três principais pilares que sustentam o atual Governo: o próprio Bolsonaro, a quem acusou de “governar para as milícias”; Sérgio Moro, apontado como um “canalha”, e Paulo Guedes, o superministro da economia, acusado de ser um “demolidor de sonhos”. Um discurso sob medida para o atual momento político brasileiro.

Foto: João Urban

Bolsonaro tem a popularidade em queda e um teto de vidro, causado pela investigação contra seu filho, que o impede de fazer uma crítica enfática à Corte cuja decisão colocou Lula nas ruas. Moro tem a imagem abalada pela troca de mensagens mantidas com os acusadores da Lava Jato obtidas pelo The Intercept, e publicadas por veículos parceiros. Guedes ainda não foi capaz de alavancar os números da economia brasileira com sua política liberal, para que o povo possa sentir os efeitos: a taxa de desemprego caiu, mas ainda há 12,6 milhões de pessoas sem emprego no país; a extrema pobreza está em ascensão, com 13,5 milhões de miseráveis que sobrevivem com até 145 reais por mês.

Da vigília que apoiou Lula em Curitiba, Roberto Baggio, um dos coordenadores do espaço e membro do MST, disseca essa estratégia. “O núcleo que sustenta Bolsonaro não chega a 12%, segundo o Datafolha de setembro. É muito pouco se comparado ao de Lula, que historicamente sempre teve 30%. É um núcleo pequeno, ignorante e atrasado. Bolsonaro envergonha o grupo de forças políticas que foram com ele [contra o PT nas eleições] porque não está à altura do país”, afirma.

Baggio vai além. “É claro que tem esse grupo econômico ao redor do Guedes, que está se aproveitando para se apropriar de tudo. Mas a crise social está se ampliando”, ressalta. “Existe uma crise social estrutural que só se resolve com políticas públicas. E o projeto do PT está experimentado: o povo viu na era Lula que é possível melhorar a condição material através das iniciativas estatais”, ressalta ele.

Sem ilusões. O trabalho que o PT tem pela frente para reestruturar suas bases não será fácil, já que nos últimos anos o partido se desorganizou nas pontas. E o plano é que isso ocorra para além das caravanas de Lula. E é neste ponto que a experiência de Curitiba ganha uma importância estratégica. A vigília não serviu apenas como base de apoio moral ao ex-presidente encarcerado. Mas se propôs a ser um espaço de formação de militantes, com a pretensão de atuar como uma rede descentralizada pelo país, explica Baggio. É a retomada da ideia básica de criação do partido, que cresceu na redemocratização, apoiado na organização dos movimentos sociais.

“A esquerda brasileira nos últimos anos se encantou com os processos eleitorais, priorizou os parlamentos, os governos, as institucionalidades. Muitos militantes se incorporaram a essas estruturas e renunciaram aos processos de organização popular, de formação política. A vigília, de certa forma, tentou incorporar o método organizativo que a esquerda brasileira tinha abandonado. Ela se organizou de maneira independente das forças partidárias. O centro era um conjunto das forças populares, as centrais sindicais, o MST, as bases religiosas. E neste período se transformou na maior universidade popular do Brasil”, afirma o coordenador Baggio, que explica que durante o período de prisão do ex-presidente uma das estruturas alugadas pela equipe da vigília, a Casa Marielle Vive, funcionou como um espaço de formação, com cursos que explicavam como se fazer uma reunião e organizar forças nos municípios e discutiam o contexto histórico e social do país.

“Com a liberdade do Lula, temos o sujeito que vai contribuir para armar um processo de organização e luta popular no Brasil. Ele sozinho resolve? Não. Mas vai ajudar o campo popular a retomar suas iniciativas organizativas e de participação. Em um curto espaço de tempo, vamos ter uma grande retomada de organização popular no Brasil inteiro, no campo, na cidade, nas universidades, nas periferias”, espera Baggio.

Foto: Ricardo Stuckert

“Ou seja, o PT deve voltar a fazer o trabalho de base, diminuir a valorização da institucionalidade e construir uma força popular para além da eleição, que também seja capaz de sustentar um Governo”, diz. “E a vigília preparou e lapidou a militância para isso.” O desafio agora é como fazer essa organização sobreviver para além do Lula preso ganhar força no partido.

“O futuro político é promissor, porém temos que trabalhar bastante para isso. Essa foi uma pequena etapa do processo de luta. Claro que o Lula simboliza uma parte muito significativa deste processo, uma parte fundamental para a atual conjuntura, mas foi o início da etapa”, explica Cristôtes Chaves, 33 anos, militante do PT há 20 e coordenador da Casa Marielle Vive. “O partido precisa ter um vigor mais orgânico, mais plural. A centralização em torno de Lula sempre me preocupou, porque a luta não é de uma única pessoa. O Lula é fundamental neste processo, mas o que está em torno dele, as pessoas, as organizações, talvez sejam mais conservadoras do que ele em relação ao papel que ele tem. Essa proteção ao culto da personalidade de Lula é mais do partido”, diz. “Mas acredito que com esse processo que ele passou, Lula vai trazer esse debate internamente.”

É óbvio que a oposição vai levar pedradas e, se duvidar, mais que isso. Se de um lado a presença de Lula nas ruas alimenta suas bases, de outro representa um desafio: a força antipetista que alavancou Bolsonaro para além de seu núcleo duro de extrema-direita e o fez chegar à presidência é forte e capaz de virar o jogo em direção a uma direita mais moderada que já está a negar o presidente ultradireitista, mas que até o momento ainda não consolidou seu candidato forte. Números da consultoria Atlas Político de setembro mostram que a rejeição ao nome de Lula beira os 58%. O ex-presidente busca retomar os espaços nas ruas que o partido perdeu nos últimos anos, e, por isso, planeja viajar pelo país em uma nova caravana. E vai mobilizar sua militância — não por acaso, dedicou grande parte de seu primeiro discurso livre para agradecer nominalmente todas as pessoas que mantiveram a vigília nesses 580 dias.

Foto de capa: Ricardo Stuckert

DIRCEU APONTA O CAMINHO

Logo após a soltura de Lula, outro líder petista ganhou liberdade, beneficiado pela mesma decisão do Supremo. José Dirceu, o único membro do PT de primeira grandeza que se recusou a trocar benefícios pela delação, grande estrategista das campanhas petistas, apontado como responsável pela guinada ao centro conciliadora com o mercado que elegeu Lula pela primeira vez, encontrou-se em Curitiba com a cúpula petista, Lula incluído. Ele anunciou sua volta “à trincheira da luta”. E explica os novos rumos, calculadamente opostos aos que implementou ao partido naquele início dos anos 2000. “Agora não é por Lula Livre, é para nós voltarmos e retomarmos o Governo do Brasil.” Para isso, explica ele, é preciso deixar claro: “somos petistas, de esquerda e socialistas”, concepções que colocam o partido no espectro antagônico de Bolsonaro —e também do centro que rejeita Lula e pretende se firmar como liberal— e o situa mais à esquerda, um campo onde o PT também perdeu a hegemonia nos últimos anos. Um discurso que, por enquanto, mais alimenta a militância do que se calca na realidade, mas homens como José Dirceu e Lula sempre apostam na vitória.

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