Além do Papai Noel

Em outros tempos, nesta mesma coluna, revisitei músicas natalinas. Deixei num lugar, trancafiada, guardada, presa, trancada, encarcerada, a música que se popularizou na voz de Simone, “Então é Natal”, em 1995 e desde então atormenta todo mundo em dezembro, e passeei por composições menos irritantes que tratam do tema.

Nesse caminho, encontrei composições tristes, de crianças pobres que esperam por uma migalha cadente; sambas inspirados, que misturam amor e esperança; homens vestidos de Papai Noel; versões de clássicos de outros lugares… A lista foi imensa.

Para este dezembro, recebi sugestão de tratar do tema de forma mais, digamos, regional. Então, nesta edição, as festas brasileiras que comemoram o Natal de um jeitinho muito particular.

A Folia de Reis, ou Reisado, está agarrada às tradições católicas, chegou ao Brasil de barco, trazida por portugueses e espanhóis.

Basicamente, funciona assim: a celebração dura doze dias, começa no dia 24 de dezembro e vai até 06 de janeiro. O período é aquele que marca o momento em que Gaspar, Melchior e Baltazar, os três Reis Magos, avistaram a Estrela de Belém no céu e saíram para encontrar o novo habitante da terra, Jesus. Levaram junto com eles uns mimos: incenso, ouro e mirra.

A festa, que se desenvolve a partir de características de cada região, tem em comum em todos os lugares um cortejo pelas ruas, em que um grupo, formado por um mestre, um contramestre, os três Reis Magos, palhaços, alfeires e foliões portando um estandarte, cantam, visitam casas, dançam e fazem apresentações teatrais. A depender da região, há comida típica, a música muda um pouco e a participação dos moradores é intensa.

No Brasil, é em Minas Gerais o local mais carregado pela tradição, a festa foi declarada como Patrimônio Imaterial e contabiliza 1.255 grupos espalhados em 326 cidades.

Uma das músicas tradicionais: “Senhor e dono da casa, vai chegando a folia / Vem beijar a nossa bandeira e escutar a cantoria / Vem beijar a nossa bandeira e escutar a cantoria ai ai ai / Senhor e dono da casa, se não for muito custoso / Vem abrir a sua porta que nós viemos de pouso / Vem abrir a sua porta que nós viemos de pouso ai ai ai”.

Outro folguedo importante para a diversidade, história e cultura do país é o Cavalo-Marinho. Também mistura música, teatro e dança, e é um acontecimento forte na Zona da Mata de Pernambuco e em algumas cidades da Paraíba.

O Cavalo-Marinho é mais extenso que o Reisado, as apresentações acontecem entre julho e janeiro, mas os pontos fortes, a festa para valer mesmo está no ciclo natalino, entre Natal, Ano Novo e Dia de Reis. A orquestra que anima as apresentações é chamada de Banco e é composta de zabumbas, pandeiros, ganzás e rabecas. A parte cênica reúne 76 personagens que são divididos em três categorias: fantásticas, animais e humanas. E todo mundo junto conta uma história imensa apoiada na música e na poesia, na dança e no improviso, no sacro e no profano.
Utilizo a música de Fernando Filizola e José Chagas para tentar mostrar um tiquinho do que acontece: “Nas horas de Deus, Amém / Pai, Filho e Espírito Santo

São as primeiras cantigas / Que nesta casa eu canto / Nossa Senhora da Guia / Me cubra com vosso manto/ Cavalo marinho / Dança no terreiro / Que a dona da casa / Tem muito dinheiro / Cavalo marinho / Dança na calçada / Que a dona da casa / Tem galinha assada / Cavalo marinho / Já são horas já / Dá uma voltinha / E vai pro teu lugar”.

Dentro destes festejos, há também o Pastoril. Também está colado no Nordeste brasileiro e se espalhou para o país a partir das tradições portuguesas. Alguns historiadores encontraram a manifestação no século XIII, de lá para cá, ela vem ganhando corpo, mudando características, misturando influências, mas sempre mantendo como ponto de partida a ideia de utilizar dança, teatro e música para tratar do nascimento de Jesus.

No Pastoril não há diálogos, as construções são soltas e encenadas a partir das expressões corporais, das canções e da participação ativa dos espectadores.

Para explicar melhor, recorro ao antropólogo Waldemar Valente: “No Pastoril, os espectadores, representados pelo povo, a comunicação com os personagens faz-se franca e informalmente, não só com palmas, mas com vaias e assobios, com dedos rasgando as bocas, piadas e ditos, apelidos e descomposturas. Tudo isto enriquece o espetáculo de novos elementos de atração, dando-lhes nova motivação, reativando-o, recriando-o pela substituição de elementos socialmente menos válidos, por outros mais atuantes e mais condizentes com o gosto e os interesses momentâneos da comunidade para a qual ele exibe. Deste modo, revitaliza-se o espetáculo, permanecendo sempre dinâmico e atualizado, alimentando no espírito do povo e no dos próprios personagens um conteúdo emocional que tem no imprevisto e no suspense sua principal tônica”.

É claro, prezada leitora, querido leitor, que há outras festas, outras estruturas de cunho popular a fazer cores em dezembros de todos os anos. Eu sei. Assim como sei também que os três exemplos estão amputados pela limitação da coluna. Mas a minha escolha por esses temas foi só para salpicar um pouco de diversidade ao peru de natal, ao Papai Noel de outro hemisfério, à reza formal do Galo, ao amigo secreto da família.
Festas de final de ano são muitas, são todas, são cada uma que cada cultura, cada grupo social, em qualquer época, escolhe. E este espírito deveria servir para acompanhar e pautar a vida durante toda a jornada que se inicia. Deveria ser um lembrete e um aviso para o ano seguinte e uma comemoração por ter passado o que se despede dentro dessas largas palavras que repetimos muitas vezes sem pensar: fraternidade, divisão, liberdade, igualdade.

Pronto! Agora que dei o meu recado, me despeço, desejando todas as festas para todo mundo.

 

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