Encontro em Budapeste

Budapeste, 8 de março de 2014 – Saí de Paris rumo a Budapeste às 11h35, porém só fui me instalar no hotel às 16h00. Descansei daquela travessia oceânica por pelo menos quatro horas. Da janela tive uma visão extraordinária do rio Danúbio e da Ponte das Correntes que liga Buda à Peste. À noite o jantar foi Goulash, um ensopado à base de páprica com legumes e carnes típico da região. Os sabores mais famosos da Hungria são feitos de embutidos, legumes crus, especiarias e muita, muita pimenta. Tive uma noite agitada, sonhei com lobos uivando sob minha janela. A inquietude tomou conta do meu sono. Não sei se esses pesadelos foram por minha expectativa de dormir em uma pousada nos Cárpatos, pois o plano inicial era passar essa data na Transilvânia, ou se ocorreram por toda aquela páprika e pimenta consumidas no restaurante. O certo é que aqueles lobos ensandecidos pareciam muito reais.

Acordei suado e perturbado e da janela voltei a observar aquela ponte magnífica. Não pude deixar de lembrar de um trecho do diário de Jonathan Harker:

3 de maio, Bistritz — Saí de Munique às 20h35 do dia 1o de maio, chegando a Viena na manhã seguinte, bem cedo; deveria chegar às 6h46, mas o trem atrasou uma hora. Budapeste parece um lugar magnífico, a julgar pelo rápido vislumbre que as janelas do vagão me proporcionaram — e pela breve caminhada que consegui dar ao longo de suas ruas. Evitei me afastar muito da estação, pois tínhamos chegado tarde e devíamos partir assim que possível. Tive a impressão de que saíamos do Ocidente para entrar no Oriente: sobre o Danúbio — que, neste ponto, é de imponente largura e profundidade —, uma ponte esplendorosa, com a mais ocidental das aparências, conduziu-nos àquele outro mundo onde ainda pulsam as tradições do domínio turco. (Drácula, Bram Stocker).

Aquela ponte, pensei, precisava ser atravessada naquele momento. Tão logo comecei a travessia em direção a Buda, avistei uma figura feminina vestida toda de preto, arqueada e recostada na estrutura. Olhei a paisagem, a ponte, a figura e vi que daria uma boa fotografia. Assim o fiz. Então continuei a caminhada em passos lentos e ao passar por ela, vi rapidamente que era uma senhora bastante idosa, com um pequeno cajado onde se apoiava. Observei que pelos trajes era pobre e cega de um olho. O outro era de um azul profundo, muito brilhante. Continuei meus passos e aí ouvi em um inglês carregado de sotaque: “Senhor, por que tanta solidão?” Parei e respondi: como? Ela: “Sim, meu senhor, por que carrega tanta solidão? Eu fico com a sua solidão, livro-o dela por uma pequena quantia, ok?” Atônito, respondi perguntando como ela faria isso. Basta me ajudar, sir, que o vazio se vai e a alegria voltará ao seu coração. Para mim é fácil, pois vou morrer em breve. Não carregue mais esse peso, mister! Olhei fixamente aquele olho azul carregado de mistério e só vi tristeza e sofrimento. De repente lembrei-me de Eleanor Rigby, aquela da música dos Beatles que só fala em solidão e que acompanhou boa parte das minhas angústias. Então tirei do bolso uma nota de duzentos Florins húngaros e entreguei àquela velha e alquebrada senhora. Ela agradeceu baixando a cabeça e disse: “Sua solidão agora está comigo, sir, siga seu caminho em paz!”. Também agradeci e brincando disse a ela: “Adeus, Eleanor!” Cinco passos adiante escutei uma resposta: “Yes! Prazer em ajudá-lo, mister”. Olhei para trás e vi que ela sorria com docilidade.

Atravessei aquela ponte ensimesmado, mas sentindo-me extremamente leve e revigorado, sem as angústias daquela noite repleta de pesadelos típicos de Jonathan Harker. Do outro lado do rio, sentei-me aos pés de Buda e fiquei a apreciar o Danúbio e o lado de Peste, e por muito tempo expiei meus pecados, desconstruí as mazelas e expurguei toda a solidão comprada naquela ponte mágica. Quando voltei para Peste não encontrei mais Eleanor. Durante uma semana retomei o mesmo caminho na esperança de revê-la, mas não a encontrei. Desejei de todo o coração que o padre Mc’Kenzie não estivesse limpando o seu túmulo.

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