G. B. SHAW: CÉTICO, CÍNICO & CABOTINO. MAS GÊNIO

George Bernard Shaw (1856-1950), escritor inglês nascido em Dublin, na Irlanda, e que sempre viu a Old Albion com os compreensivelmente preconceituosos “olhos irlandeses”, é por certo uma das figuras mais interessantes da literatura universal.

Pertence, por todos os títulos, a uma família ilustre integrada, entre outros, por Cervantes, Rabelais, Voltaire, Swift, Oscar Wilde, Sterne, Mencken e Bierce. Os nomes são muito diferentes, mas há entre eles um denominador comum, feito de cinismo, ironia, ceticismo, criticismo e bom humor. Este, por vezes, quase vitriólico.

A título de curiosidade direi que Shaw era devoto da música de Wagner e do teatro de Ibsen e, além de altíssimo dramaturgo e ensaísta penetrante e sutil, foi crítico teatral empenhado sobretudo em arranhar ou demolir a glória de Shakespeare. Um intento insano típico, aliás.

Dono de uma inteligência privilegiada e de uma verve sem limites, Shaw foi também um dos fundadores do grupo político dos fabianos, corrente socialista moderada, não marxista.

Foi antes de mais nada um mestre da criação dramatúrgica. O mais representado do mundo, no seu tempo. Entre as suas muitas peças contam-se Casa de viúvos, A profissão da sra. Warren, As armas e o homem, César e Cleópatra, Homem e superhomem (onde, paradoxalmente, existe um Don Juan tímido, perseguido por mulheres), O discípulo do diabo, Pigmalião (que virou filme saboroso, com o título de My fair lady, interpretado por Rex Harrison e Audrey Hepburn), Santa Joana e O dilema do doutor. Nesta última peça há um médico que, possuindo apenas uma pequena reserva de um remédio raríssimo, hesita entre salvar a vida de um gênio devasso e a de um cidadão honestíssimo, ainda que medíocre, apagado.

Shaw notabilizou-se sobretudo pelos seus ditos espirituosos, às vezes amarga ou irritantemente espirituosos, pelas frases de efeito, prenhes de ironia cáustica, onde o riso se confundia com o esgar. Não sabia – nem queria, evidentemente – resistir a um bon mot.

Acima de tudo, Shaw pretendia, e conseguia, com extrema facilidade, épater de bourgeois da Oxford Street ou de Piccadily Circus.

Mas vamos sem mais delongas àquilo que mais interessa o leitor: uma seleção de frases, ditos, aforismos, em que a fértil inteligência do britânico se revela em toda a plenitude.

  1. Meu jeito de brincar é simplesmente este: dizer a verdade. Não há no mundo brincadeira mais engraçada – nem mais perigosa.
  2. Quando um tolo faz algo de que se envergonha diz que está cumprindo o seu dever.
  3. Quando um homem mata um tigre, chama-se a isso esporte. Se o tigre mata um homem, é ferocidade.
  4. Não temos mais direito de gozar felicidade sem produzi-la, do que em consumir riquezas sem criá-las.
  5. A genialidade e a estupidez são duas doenças da mente. Só que uma é adquirida e a outra, geralmente, é congênita.
  6. O martírio é a única forma de o homem conseguir fama sem competência ou capacidade para conquistá-la.
  7. Não há escritor famoso que eu despreze mais do que Shakespeare, quando comparo o seu intelecto com meu. (Temos aqui – e seria desnecessário dizê-lo – o ápice do cabotinismo de G. B. S.)
  8. Sou milionário: é essa a minha religião. O meu deus é realmente aquilo que o vulgo chama de vil metal.
  9. Há uma diferença entre sexo pago e sexo grátis. Este sai geralmente muito mais caro.

Para concluir a minha exígua nominata, aí vai uma frase de Shaw supremamente indigesta, inaceitável, repugnante. Diz ele: O verdadeiro artista deixará a mulher morrer de fome, os filhos andarem descalços e seminus, a mãe de setenta anos mourejar para sustentá-lo – de preferência a trabalhar para outra coisa que não seja a sua arte. Esse artista, digo eu, aqui e agora, não seria um ser humano, mas um monstro da natureza, um leproso moral, um aidético de espírito – ainda que se chamasse Leonardo da Vinci, Dostoievski ou Johann Sebastian Bach.

A intencional e premeditada crueldade da frase não justifica, não minimiza, não altera a sua intrínseca e demoníaca perversidade. Confesso mesmo que é essa frase que compromete até certo ponto o edifício de gênio construído por Shaw. Pelo menos para mim.

 

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