O sebastianismo de Lula

Há quatro anos sofrendo os efeitos perversos de uma crise continuada, grande parcela dos brasileiros começa a desacreditar no futuro, até há pouco personificado nas promessas de Jair Bolsonaro. Rapidamente, o governo do capitão se desacredita com os pífios resultados alcançados em um ano no poder. As pesquisas qualitativas começam a mostrar que esta gente agora tende a apostar no passado. A libertação de Lula acendeu em torno dele a aura de um movimento messiânico para salvar o país.

É uma porção significativa de brasileiros que continua de nariz torcido para o PT, mas que exclui Lula do julgamento. Acredita que ele já foi punido; e para uma parte ele não foi o culpado pela corrupção denunciada pela Operação Lava Jato. Isso é o de menos. Lula passou a ser a esperança de dias melhores já vividos no passado.

O sebastianismo lulista diz que o Brasil e os brasileiros viviam muito melhor quando ele era presidente. As lembranças são de expansão do mercado do trabalho, elevação do poder de compra dos salários, planos de crédito a longo prazo para compra de carros e eletrodomésticos, acesso a bens e serviços até então impossíveis para as camadas mais pobres da população, investimentos em programas habitacionais, ampliação dos programas sociais.

Bolsonaro se elegeu em cima da derrocada moral do PT. Subiu com pautas conservadoras, que lesam direitos fundamentais, mas soam para a classe média como uma “alternativa” ao fisiologismo político que seria a causa de todas as nossas desgraças.

Bolsonaro revelou-se um presidente despreparado para lidar com os “antagonismos” de uma sociedade plural, como a brasileira, num momento estrutural complexo, mostrando-se incapaz de apresentar pautas econômicas, jurídicas ou culturais, para o país. Mantém uma cruzada moralista (costumes), que atende a uma parcela de classe média, com baixo nível de formação (política), insegura, em razão da violência urbana, e com dificuldades de ingresso ou manutenção no mercado formal de trabalho, mas, principalmente, que não enxerga nos “políticos profissionais” que se apresentam, mudança significativa a seu favor.

Resta agora ver como Lula vai definir sua estratégia. Nada ocorre por acaso, inclusive partidos de esquerda.  O país chegou a acreditar que surgia um forte e inteligente partido, capaz de cumprir por aqui o mesmo papel que fortes e inteligentes partidos de esquerda desempenharam em outros países, hoje na liderança do mundo. O Trabalhista inglês, o Socialista sueco, por exemplo. Não somos ingleses, italianos ou suecos, mas os homens se parecem muito, ainda que as circunstâncias possam ser bem diferentes.

 

Tanto acreditou que entregou o poder ao PT, que há 12 anos se autoproclamava único partido honesto e protetor dos interesses da população mais humilde. Foi um teste decisivo. O PT naufragou nos escândalos de corrupção e perdeu completamente a credibilidade. Da esperança de um partido forte e inteligente restaram escombros. O tempo transformou o PT de partido dos oprimidos, com pretensões à contemporaneidade do mundo, em referência de desvios de dinheiro público para enriquecer seus membros e garantir campanhas eleitorais caríssimas para se reproduzir no poder. Mas restou para Lula o saldo de reconhecimento dos programas sociais.

As ideologias não existem para o prazer de alguns intelectuais ou o encantamento místico dos fanáticos do Apocalipse. Elas informam a linha partidária, até o momento em que convém renová-las. A consciência proletária não é o destino do trabalhador, a miséria e a opressão não são a condição definitiva da maioria.

O PT naufragou ao aderir, sem pejo, sem constrangimentos, ao jogo político da falsa mudança. Aquele de que falava o príncipe de Salina, “muda alguma coisa para não mudar coisa alguma”. Agora Lula terá que convencer que vai mudar muito para mudar o fundamental. Na polarização com Bolsonaro ele leva vantagem. A diferença entre o “lulismo” e o “bolsonarismo”, embora ambos tenham um viés messiânico, é que o salvacionismo do “lulismo” é pautado na história de gestão pública que o Brasil vivenciou de 2003 até 2010. Desta forma, o “sebastianismo” lulista é a volta de quem vai salvar a nação repetindo o que foi feito. Já o “bolsonarismo” é um messianismo estéril, pois não esboça qualquer viabilidade pessoal ou de projetos, passado ou presente, sendo somente um “D. Sebastião eunuco”. Ridículo. Mas nefasto e perigoso.

 

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