Quem vai e quem fica

Movimentos migratórios aconteceram em diferentes épocas e acompanham a história da humanidade. Os motivos que levam grupos a migrarem são vários: alterações climáticas, intolerâncias políticas, culturais ou religiosas, insegurança ou insatisfação com o governo do seu país… E na bagagem sempre a esperança que lá seja melhor do que aqui.

A SAÍDA PELO AEROPORTO

Nos últimos anos é possível perceber um movimento de brasileiros deixando o país. As motivações atravessam vários temas urgentes como segurança e bem-estar. Qual grupo está deixando o país? E quem fica? Fica por que quer?

Os dados da Receita Federal mostram que 22,4 mil brasileiros/as entregaram a declaração de saída definitiva do país em 2018. Em 2011, o órgão registrou a saída definitiva de 8.170 pessoas, e em 2017 o número foi para 21.701, contabilizando um aumento de 165%. A expectativa para 2019 é ainda maior, pois em julho o número de entrega de documentação já chegava a 23.149 comunicados. O documento de saída definitiva é obrigatório e exigido às pessoas que declaram o imposto de renda, sendo assim, o número de pessoas que não moram no Brasil pode ser maior.

Em entrevistas, muitos brasileiros levantam que o problema de segurança pública no país é um dos motivos decisivos para a partida. De acordo com Jorge Botrel, da consultoria especializada em expatriação JBJ Partners, “as pessoas estão desesperançosas no Brasil”, e por isso buscam outras alternativas. Para o professor de Relações Internacionais da UERJ, Maurício Santoro, a vontade de sair do Brasil não pode ser explicada apenas por um fator, ele destaca as três maiores motivações: crise econômica, instabilidade política e o medo da violência: “Não é só economia, não é só o fato de o país estar vivendo um momento de desemprego alto. É um sentimento mais amplo que isso, de preocupação com o Brasil e de desesperança”.

Como os especialistas listam, a falta de esperança no país está presente em muitas destas bagagens. Além dos dados da Receita Federal, o Itamaraty levanta que cerca de 3 milhões de brasileiros estão vivendo no exterior, seja a trabalho ou a estudo temporário. Desde o golpe à presidenta Dilma Rousseff, a instabilidade quanto a um futuro por aqui passou a ser destaque para os/as brasileiros/as que podem discutir a possibilidade de começar a vida em outro lugar.

Dados de 30 de agosto de 2019 do IBGE mostram que o número de desempregados no Brasil chega a 12,6 milhões de pessoas, representando 11,8% neste mesmo mês. Em 2018, o rendimento da parcela mais rica do país subiu 8,4%, e os mais pobres sofreram uma redução de 3,2%. A população mais rica (1%) ganha 33,8 vezes mais que o total dos 50% mais pobres. As regiões Norte e Nordeste apresentaram os menores valores de rendimento médio mensal: 886 e 815 reais, respectivamente. O Sudeste registrou 1.639 reais. Neste cenário de desigualdade intensa, existe ainda um dos dados mais alarmantes em relação a população pobre brasileira: 50% dos mais pobres, quase 104 milhões de brasileiros, em 2018, vivia com apenas 413 reais per capita ao mês, segundo Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua).

Portanto, o cenário nacional é bastante desestimulante, principalmente para a população mais pobre, que com a estagnação do desemprego e pouco avanço nas áreas sociais neste novo governo, encontram escassas possibilidades de saírem do país ou projetarem mudanças. De acordo com o Datafolha de maio, 43% da população adulta deixaria o país, se fosse possível. Entre os jovens de 16 a 24 anos, a vontade de deixar o país é de 62%. Santoro destaca que é alarmante para o Brasil, futuros pesquisadores e investidores não se sentirem atraídos em permanecer no país e aqui produzirem conhecimento.

Os que saem, buscam países como Estados Unidos, Canadá e Portugal. De acordo com a Casa do Brasil em Portugal o número de brasileiros imigrantes no país acentuou-se. A presidenta da Casa, Cíntia de Paulo, diz que já ocorreram outros momentos expressivos de chegadas de brasileiros no país, como final dos anos 1990 e início dos anos 2000, mas reafirma que neste momento há um aumento significativo.

O grupo é composto por pessoas com qualificação profissional, estudantes universitários e também uma comunidade de aposentados que mantem rendimentos próprios no Brasil. De Paulo afirma que o sentimento de incerteza quanto à terra natal e um descontentamento é sempre presente nas justificativa dos/as brasileiros/as. Mesmo com uma grande parcela preparada e com estrutura para iniciar uma nova vida no país, chegam também brasileiros com pouco conhecimento sobre a situação, mais propriamente sobre o “problema de habitação nos grandes centros urbanos”.

A população no Paraná não foge à onda. De acordo com os dados da Receita, entre 2015 e 2017 cresceu 84% o número de paranaenses que deixaram o Brasil, transferindo todas as obrigações tributárias para outros países.

O casal paranaense, André e Luiz Souza, mudou-se para Braga, em Portugal, pois nos últimos anos sentiam-se pouco seguros, “todos os dias ouvíamos falar de assassinatos, de alguém que levou um tiro ou uma facada”. Ainda, “por causa da orientação sexual, uma pessoa morre a cada 19 horas”, afirmou André ao Jornal de Notícias (PT). Conversamos com Daniel Naves, que há alguns meses começou a organizar sua saída do Brasil para Dublin, na Irlanda: “Eu acho que o Brasil não me oferece segurança no emprego, seja pela oferta ou pelos direitos (Naves é jornalista). Não sei se na Europa será diferente, porém há outro fator, a segurança. O Brasil é um país muito violento. Desde quando começou esse governo, o clima de instabilidade é muito alto, logo não vejo outra saída senão tentar a vida em outro lugar”.

Faz parte da história da humanidade andanças em busca de melhores condições e fugas das intempéries, todavia cabe ao presente também a busca pela mudança dos espaços esquecidos e precarizados. A quem estamos designando o poder por essas transformações parece também decisivo para o futuro da esperança dos/as brasileiros/as.

 

 

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