Sejamos realistas
exijamos o impossível

Que fim levaram todas as flores, o último romance de Otto Leopoldo Winck, é um novo contato com a década de 1960. Para nós, brasileiras/os curitibanas/os, é a possibilidade de ver um 68 aqui, nosso. Que fim levaram todas as flores nos aproxima das ruas de Curitiba sem ingenuidade e nos deixa reformular o afeto e a rebeldia com/por essa terra. É o contato com a memória e com concepções do tempo em constante movimento.

Três jovens, Ruy, Adrian e Elisa, querem mudança e, por caminhos diferentes e juntos, transformam suas vidas e pensam o mundo. Décadas depois, ao falarem da juventude, o que restou? Ainda é tempo? É possível fugir da urgência e do conformismo?

Por isso e pelo Brasil de hoje e de ontem que bate na porta e entra sem perguntar, Que fim levaram todas as flores vale a pena. Pulsa a necessidade de aproximar o sonho da ação, da ação ao entendimento da história como todo e qualquer movimento. O delírio como retomada, como mudança.

Para saber um pouco mais, conversei com o autor nascido no Rio de Janeiro, criado em Porto Alegre, mas que vive em Curitiba desde 1982. Já publicou Jacob (2007), Minha pátria é minha língua: identidade e sistema literário na Galiza (2017), Cosmogonias (2018) e foi vencedor do prêmio da Academia de Letras da Bahia com seu romance Jacob.

 

Ideias – Gostaria de saber um pouco do processo do livro. O impulso para, o tempo dedicado, e se você se viu como um escritor/historiador ou se o escritor já seria um historiador sem sê-lo?

Antes de você colocar a primeira palavra no papel, o livro já deve estar dentro de você. Que fim levaram todas as flores eu já o carregava dentro de mim há anos, talvez décadas. Eu sempre tive um fascínio pelos anos 60 – quem, com alguma chama de rebeldia dentro de si, nunca teve? Eu sou de 67, o ano do Sargent Peppers, do Verão do Amor, do Monterrey Pop Festival, da aparição catártica de Jimi Hendrix e Janis Joplin. Quando eu me tornei adolescente e comecei a me interessar por música, o som que infestava as rádios e as trilhas sonoras das novelas da Rede Globo era a disco music. De minha parte, eu preferia o rock, e o rock remetia aos anos 60: a Beatles, a Rolling Stones, a Led Zeppelin, a Pink Floyd… Embora a década de 60 tivesse acabado há não muito mais de 10 anos, já se afigurava como uma década mítica, perdida no tempo, uma espécie de idade do ouro do inconformismo e da criatividade… E eu admirava não só a música, mas o pacote inteiro: a indumentária, os cabelos compridos, as calças surradas, o ar de rebeldia. Era difícil adquirir informação naquele tempo, então qualquer revista ou material que caía em nossas mãos, que remetia à época, era uma fonte preciosa de consulta e deleite. Me lembro quando assisti ao Woodstock no cinema ou Easy Rider na televisão. Mais tarde, a dimensão política me fascinou também: a luta contra a ditadura aqui no Brasil, os protestos contra a guerra no Vietnã e a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, as explosões de rebelião pelo globo afora… Comecei a devorar livros sobre a época, romances, filmes, documentários. Ou seja, durante muito tempo, este tema me perseguiu como um espectro. Quando, em junho de 2017, comecei de fato a escrever o livro, ele de certa forma já me acompanhava há muito tempo. De todo modo, de maneira concreta, me concentrei na redação do romance de junho de 2017 a fevereiro do ano seguinte. Até que foi rápido (meu outro romance, Jaboc, me tomou três longos anos), embora tivesse dias em que eu me dedicava a ele por oito, dez, doze ou mais horas seguidas…

Sou romancista (e poeta), não historiador. Mas o romancista tem às vezes que dar uma de historiador – e o romancista-historiador dentro de mim foi bastante obsessivo, minucioso e rigoroso na coleta e seleção das informações históricas, do catálogo das gírias da época à indumentária. Durante o processo de escrita, li ou reli cerca de 35 livros. Algumas obras de ficção foram fundamentais para a reconstituição do clima da época: a novela Tempo sujo, do grande Jamil Snege, sobre quem me debrucei no mestrado, publicada ainda em 1968; os romances O guardador de fantasmas, do Fábio Campana, e Memória de neblina, do Luiz Manfredini, duas testemunhas da época; e o excelente HQ 1968 ditadura abaixo, da Teresa Urban, com desenhos de Guilherme Caldas: um amplo painel da resistência à ditadura na Curitiba de 1968.

Ideias – O que é esse fôlego necessário para se escrever um romance? Como se torna um romancista?

Eu mesmo disse no romance, ou melhor, meu narrador, que escrever romances “exige fôlego de maratonista.” É uma questão mais de transpiração que de inspiração, de obsessão que de insights. É sentar a bunda na cadeira e teclar, faça chuva ou faça sol, é roubar tempo de si e dos outros para escrever como se não houvesse amanhã. Não há fórmulas. Há é disciplina, teimosia. São Flaubert, nesse quesito, é meu santo de devoção.

 

Ideias – Voltando-nos para o contexto da obra. Com o histórico de golpes no Brasil, por que o de 1964?

O meu objetivo foi contar uma história sobre os “anos rebeldes”. Infelizmente, no Brasil, estávamos numa ditadura. Como disse o Millôr Fernandes: o Brasil é um país com um enorme passado pela frente. Então, não há como falar dos anos 60 no Brasil sem mencionar a ditadura. Você vai falar de baseado, de Jovem Guarda, de Iê-iê-iê, mas também de coquetel molotov, de Mao Tsé-tung, de “foquismo”, de AI-5.

 

Ideias – Pensando com Michel Foucault, “onde há poder, há resistência”. Neste momento de pulsões na América Latina, você acredita que Adrians, Elisas e Ruys (personagens principais do livro) estão sonhando e poderão vir a agir ou logo se conformarão?

A história não terminou, apesar de alguns sempre tentarem congelá-la ou pausá-la. Outros outubros virão, outras primaveras despontarão… Não é isso que estamos assistindo no Chile?

 

Ideias – Você acredita que falta vontade de “estar na história” em nossa resistência atual? Como diria o narrador sobre 1968: “você não queria apenas testemunhar a história, que se fazia, ao vivo, diante de seus olhos, mas participar dela, intervir nela, estar nela” (p. 118).

Pois é, a pasmaceira que reina no Brasil, diante de tanto arbítrio e desmonte, é de espantar e desanimar. Quero crer que seja só uma impressão errônea, que em breve a resistência vai sair de trás dos teclados e se postar atrás de barricadas. A conferir.

 

Ideias – Carlos Fuentes escreveu que o ano de 1968 foi “um desses anos-constelações nos quais, sem razão imediatamente explicável, coincidem fatos, movimentos e personalidades inesperadas e separadas no espaço”. O narrador parece concordar. Há quem diga que 2013 foi também um 1968. Você acredita que a história é feita de ciclos? Teremos outro 1968, onde poderemos estar na história e não só assistir?

A história não terminou, repito. É um livro de final aberto. O final ainda não chegou e então tudo é possível. 2013 tem pontos de contato com 1968, evidentemente. Mas acho que tem mais diferenças. Pra começar, em 1968 estávamos dentro de uma ditadura de coturnos e tanques. (É verdade também que nossa democracia burguesa nunca se livrou de um forte ranço autoritário: mesmo em governos de centro-esquerda os aparelhos de repressão que herdamos do passado escravocrata nunca deixaram de atuar.) Outra diferença fundamental: se em 2013 os protestos nasceram com jovens de esquerda, como em 1968, logo eles foram engolfados por uma onda de manifestações direitistas cujo resultado está aí, hoje, aos nossos olhos. Bom, em 1968 também havia agrupamentos de direita (não só no governo): o CCC (Comando de Caça aos Comunistas), uma milícia de extrema-direita, como o nome deixa claro, e os estudantes da faculdade Mackenzie que entraram em confronto com os da USP na rua Maria Antônia. Mas as ruas eram hegemonizadas pela esquerda. Até a classe média que, quatro anos antes, pedira o golpe, se solidarizou com os estudantes – antes que o milagre econômico a cooptasse. Mas não é só isso: 2013 foi um fenômeno estritamente brasileiro. O Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, foi em 2011, assim como o 15-M na Espanha. Acontece que em 1968 ocorriam explosões de revolta em todos os cantos do mundo: Japão, França, Reino Unido, Brasil, Argentina, Espanha, Tchecoslováquia, Venezuela, México… Era um fenômeno de sincronismo impressionante, antes da era digital. Ao mesmo tempo que um Jimi Hendrix queimava guitarras no palco, americanos queimavam seus certificados de reservistas, mulheres queimavam sutiãs e os vietcongues davam um baile nas tropas estadunidenses. Tudo isso pra não falar dos Panteras Negras e dos movimentos de libertação nacional que pululavam no então chamado Terceiro Mundo. Nunca vimos nada parecido depois. Nem antes. Talvez a chamada Primavera dos Povos, de 1948, possa guardar alguma semelhança, no entanto restrita ao continente europeu. 1968, portanto, foi um ano de explosão da utopia como nunca foi visto antes. O paraíso parecia estar ao alcance das mãos, a revolução na próxima esquina. Um dos grafites de Paris dizia: “Sejamos realistas: exijamos o impossível”. Isso não voltou mais, não com aquela força. Claro: havia muitos fatores para esse cenário, e não somente políticos. Não dá pra entender 1968 sem o ácido lisérgico. Sem Timothy Leary. Sem Marcuse. Sem Marshall McLuham. Sem o Álbum Branco. Sem a Tropicália.

Um detalhe: até 1968, a esquerda era muito séria, circunspecta, careta até. 1968 assiste ao despertar de outras demandas. O corpo vira território político. O corpo, o desejo, a imaginação. A luta agora não é só contra a burguesia e o imperialismo. Mas contra o patriarcado, a heteronormatividade… Claro, muito ainda eram sementes, que seriam germinadas somente anos depois. Mas já estavam lá: implícitas nas pichações dos muros de uma Paris sublevada.

 

Ideias – Em seu livro pensei muito sobre o choque de gerações e sobre a concepção do tempo. Você acredita nessa consciência distinta sobre o tempo conforme as gerações? É possível fugir da urgência passageira da juventude e do comodismo e conformismo final? Como subverter?

Cada época tem o seu zeitgeist, a sua vibe, diríamos hoje. Os anos 60, como eu relato no romance, foram os anos em que se consolidou a invenção da juventude. E juventude estava associada à rebeldia. Sempre esteve. Mas nessa época essa associação foi ainda mais intensa, radical. Infelizmente, esta ligação automática passou ou obliterou-se um pouco: hoje vemos muitos jovens conservadores, quando não reacionários. Sim, é possível subverter essa lógica. Veja Sartre: de apolítico nos anos 30, o vemos migrar para a esquerda durante a Segunda Guerra, se alinhar ao Partido Comunista e depois se colocar inclusive à esquerda do PC. No final de sua vida, vamos encontrá-lo, quase cego, distribuindo panfletos maoístas nas portas da Renault. Independente do acerto ou não de suas opções, ele é sinal de que idade não é necessariamente sinal de conformismo.

 

Ideias – “Fazer profecia ex evento é sempre cômodo” (p. 215), como afirmou Ruy, mas o que a volta ao golpe militar em Curitiba, a dita República de quem defendeu a Lava Jato e a cidade que 74% votou no Bolsonaro – um defensor da ditadura – tem a nos ensinar, “mesmo que esse livro não [seja] uma tentativa de recuperação de nada” (p. 239)?

“É preciso estar atento e forte”, cantou Gal Costa em 1968. Isso vale pra hoje também. “Não temos tempo de temer a morte”.

 

Ideias – Por fim, onde você renova o seu olhar?

Nos olhos de minha filha de nove meses. Não quero um mundo sombrio e sem esperanças para ela.

 

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