Crônicas de Izabel Campana

Três crônicas de Izabel Campana. Atendo a pedidos de leitores que sentem saudade do seu texto e das suas observações. Hoje ela mora em Quito, no Equador, mas promete voltar a escrever para IDEIAS regularmente. Suas crônicas sairão em livro no ano que vem.
Fábio Campana.

 

Com açúcar, com afeto

Ninguém pode dizer quantas vezes aquele caderninho foi aberto. Centenas de vezes. Milhares, quem sabe? Há páginas que denunciam o uso pelas nódoas. Marcas onde o papel fica transparente do óleo ou amarelinho da gema. Algumas folhas são enfarinhadas como a massa de macarrão que descrevem, passo-a-passo.

A capa do caderno é dessas rajadinhas, tipo pedra granito, daquelas que não se vê mais, exceto em livro-caixa de venda de interior. Pelo menos no que eu imagino sejam as vendas do interior.

O recheio de receitas, copiadas com letra bonita, conta a história das aulas de caligrafia à caneta tinteiro e mata-borrão de outros tempos. Letra de professora.

E as receitas são um mundo mágico de lembranças açucaradas, de gostos e aromas, de comadres e vizinhas, de costumes e infâncias. Passados de mães para filhas, cadernos de receita eram como álbuns de retrato da família. Afinal, há pouco da nossa vida que escape aos rituais da comida.

São obras de arte em extinção, esses pequenos documentos da memória gastronômica nacional. Nossa tradição culinária restará talvez nos livros de receita, que não guardam com tanta graça nem tanto detalhe as peculiaridades da cozinha caseira. Não levarão aos netos as nódoas de gema de ovos que marcavam as melhores receitas, ou os títulos que homenageavam os autores dos quitutes. Empadão da Dona Sônia, Sonhos da Vó Erminda e por aí vai.

Não que alguém se importe. Quase ninguém cozinha hoje em dia. Há uma moda gastronômica, isso lá é verdade, mas toda cheia de firulas e aparatos. Todos querem aprender a fazer risoto e a enrolar sushi. Pouco interesse sobra para a cozinha diária, do arroz com feijão. Ninguém tem tempo para isso, melhor mesmo é comer no quilo ou preparar aquela lasanha de micro-ondas, não é verdade? É só noventa por cento da sua vida comendo mal.

Divago. Voltando aos livros de receita, não têm aquela graça pessoal dos caderninhos da vovó, mas são, ainda assim, os arquivos das tradições alimentares dos povos mundo afora.

Houve um tempo em que os livros de culinária eram mais do que manuais, também se prestavam à memória gastronômica. Os maiores ainda são esses, os escritos como reminiscências ou biografias, de La Varenne, Carême, Escoffier, Alexandre Dumas, Brillat-Savarin e até Petrônio.

Os livros desses gênios são como aquele caderninho de receitas da vovó, cheios de histórias para contar, mas de mesas como as dos imperadores romanos, a de Talleyrand-Périgord, do Kaiser Guilherme II ou dos hotéis Savoy e Ritz em pleno auge.

Desta mistura de comida e história surgiram a pizza Marguerita, os biscoitos Garibaldi e até os mexilhões do banquete de suicídio de Satíricon.

Nada parecido com o que se encontra hoje nos livros de receitas. Livretos cheios de fotos desfocadas e com regras passo-a-passo para idiota nenhum botar defeito.

Verdadeiro aglomerado de regrinhas de como medir o açúcar e a farinha para cozinhar a verdadeira comida chinesa inventada nos Estados Unidos na sua própria casa em apenas 15 minutos.

O caderninho e suas histórias se perderam no tempo, assim como as comadres e as vizinhas. Sobrou o micro-ondas.

 

 

Bacon, zumbis e gatinhos

O bacon está na moda. No mundo da culinária, então, nem se fala. Tudo com bacon tem mais popularidade. Na verdade, o que está na moda é o que os ingleses chamam indulgence. Indulgência. O prazer sem culpa. O prazer do torresmo.

Agora, vou lhe dizer, não é para qualquer um. O prazer sem culpa é um talento. Há quem tenha e quem nunca chegue lá. Talvez seja algum tipo de mutação genética. Dia desses os pesquisadores do genoma humano hão de descobrir essa chave no DNA. Os alelos do hedonismo.

São parcos os adoradores de um queijo de porco e um belo patê de torresmo sem um comentário sequer sobre o teor de gordura. A maioria absoluta é da culpa. Resquícios de nossa tradição católica? A confissão do pecado expia o pecador?  Bobagem. Viva o torresmo quando tiver que ser. E a salada também com prazer.

Um comediante americano fez piada com os candidatos republicanos. Sugere que eles se cubram com pedacinhos de torresmo a fim de aumentar seus tristes índices de popularidade. Bom, seria isso, caçar zumbis ou virar um gatinho. Na TV e na internet, como se sabe, zumbis, bacon e gatinhos são o que há de mais popular. Talvez seja porque todos representam o prazer às últimas consequências.

O bacon é esse símbolo maior de satisfação. Já foi o tempo em que se comia toucinho sem ressoarem na caixola preocupações mil. Já o zumbi é uma grande metáfora para a irresponsabilidade. A hecatombe zumbi talvez não seja um medo, mas um desejo, o sonho do fim da sociedade correta e regrada. Quem sabe esse mundo do politicamente correto peça um pouco disso, bacon e zumbis, para aguentar os donos da verdade.

Afinal, o que você faria diante de um apocalipse zumbi? É o que essas histórias nos perguntam. Segue sua vida medíocre ou muda tudo e corta uma franja? Fica na saladinha ou se lambuza de x com bacon?

Afinal, os contos de zumbis são alegorias que trazem os valores de uma vida mais simples, desligada do consumo irrefreado, por um lado, mas onde a indulgência faz todo o sentido, por outro, pois você pode morrer a qualquer momento. E não podemos todos?

Em sua profunda superficialidade, a tevê e a internet nos mostram muito do que queremos. No fundo, sonhamos todos em ser os gatinhos da rede. Seres elegantes, egoístas e hedonistas que passam seus dias a tomar banhos de sol.

 

 

Senso prático

Sou desprovida de senso prático. Zero, nada, niente. Sabe quem eu sou? Sou aquela pessoa que leva o carro à oficina e esquece a chave de casa lá dentro. E só percebe quando chega à porta.

Aí, no caminho até o chaveiro, senta na padaria da esquina e escreve uma crônica. Porque o tempo não faz sentido para quem não tem senso prático.

Um ser normal, dotado do tal senso, perceberia, por exemplo, que está há três horas em uma loja de utilidades domésticas. Ou há duas em uma papelaria. Notaria que já incomoda vendedoras e deixa ressabiados os demais clientes.

Mas eu não sou normal. Sabe quem eu sou? Sou aquela pessoa que se perde dentro de shopping. Que se perde na rua, que se perde no supermercado, que se perde até em banco. Que entra em uma galeria à esquerda e, ao sair do outro lado, caminha para a esquerda novamente, assim tomando o caminho de volta por engano.

Sou aquela pessoa que pensa que vai em direção a Santa Felicidade, mas sempre acaba no Portão. Coisa que só percebo ao ficar presa nas avenidas cheias de canaletas de ônibus, sem nunca conseguir sair. Nunca. Encontram-me um mês depois morta de inanição ainda procurando como fazer aquele quadrado que liberta do labirinto.

Pois. Nada de senso prático. Eu só tenho senso estético. Saio por aí achando tudo bonito. Não me mostrem caminhos, mas capas de livro, caderninhos, batedeiras coloridas. Sou capaz de ficar horas admirando as linhas, as formas, a engenhosidade.

São coisas que só apetecem a gente como eu, deficientes de vida quotidiana. Gente eficiente não usa caneta tinteiro. Não usa lápis, compra só BIC. Esferográfica me serve apenas para fazer cruzadinhas. Mas gente com espírito prático não faz cruzadinhas, paga contas.

Porque o tempo, para quem é prático, é destinado ao que lhe é útil. Gente prática só se interessa pelo que tem utilidade, pelo que tem função. De preferência múltiplas funções, do tipo lava, seca e centrifuga. Funções a sair pelo ladrão. Minto. Que gente prática não desperdiça.

Gente prática come como passarinho e adora sobras de geladeira. Isso porque “você deve comer para viver e não viver para comer”. Gente prática vê obra de arte e diz: “meu sobrinho de três anos faz igual”. Ou comenta: “não dá trabalho para limpar?”. Gente prática é, como você vê, um bicho completamente diferente.

Diferente de mim, pelo menos. E suspeito que seja coisa inata, algo genético que alguém muito prático pode lhe explicar melhor. O homo pragmaticus só pode ter outros genes, um par ao menos que a mim não deram.

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