O ovo de Colombo que não fica em pé

Desde a campanha eleitoral, Jair Bolsonaro demonstrou despreparo e delegou a economia a Paulo Guedes. Ao presidente caberia a política. Mas política não existe sem economia e vice-versa. Não à toa tem-se o caos quando, sem resultados positivos entre os números, Guedes abraça a política ao citar o AI-5. Resta saber quem não entende de quê. Se ambos não entendem nada ou apenas se fazem de desentendidos.

Pasmem. Michel Temer e sua trupe de ocupação conseguiram puxar o país de volta ao purgatório. Dados oficiais apontam crescimento entre 0,85% e 0,90% para 2019, menos da metade do prometido pelo governo Jair Bolsonaro, que deve terminar o ano atrás de Temer. Ele herdou o país no auge da depressão, com índices negativos sucessivos de 3,8% e 3,6%. Saiu do vermelho, colheu crescimento de 1% em 2017 e entregou o comando ao novo chefe do governo com PIB positivo de 1,1%. Nem isso Bolsonaro conseguirá.

O presidente foi perguntado sobre o que ele achava da declaração dada pelo ministro Paulo Guedes, da Economia, sobre o AI-5 em Washington. Ele respondeu que não falava sobre AI-5. “Eu falo de AI-38, quer falar do AI-38, eu falo agora contigo aqui. Quer o AI-38, eu falo agora. 38 é meu número. Outra pergunta aí”. O 38 que o Chefe do Governo se referia é o número que escolheu para o seu novo partido, Aliança pelo Brasil.

 

Desculpa esfarrapada

Paulo Guedes é ministro da Economia e tentou sair da saia justa. Disse que sua declaração dada sobre o AI-5 foi feita sem sua autorização, em um momento off. Só que a fala foi dita durante uma coletiva e que já estava em curso. Por isso, resolveu recuar e fez nova declaração. “É inconcebível, a democracia brasileira jamais admitiria, jamais apoiaria o AI-5, isso é inconcebível”. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli também resolveu opinar sobre a declaração de Paulo Guedes sobre o AI-5. “O AI-5 é incompatível com a democracia. Não se constrói o futuro com experiências fracassadas do passado”.

Há quem aposte que o ministro Paulo Guedes, que morou e lecionou numa universidade de Santiago durante muitos anos durante a ditadura de Pinochet, sente saudades daqueles tempos onde tudo no Chile andava mais rapidamente. Afinal, não havia Congresso (fechado) para negociar, impor ideias, nada disso. E Guedes imaginaria “o avanço do Brasil” se, em sua área de atuação especialmente, tudo funcionasse como nos tempos de Pinochet.

Bolsonaro se utiliza de uma agenda dispersiva, por vezes excêntrica, para mudar o foco sobre a incapacidade de seu governo. E, pior, rouba energia do que realmente importa. Os expedientes mais bizarros incluem um rol de falas sem pé nem cabeça e atos de natureza discutível. De Bolsonaro e de auxiliares fundamentalistas. Reside aqui, por exemplo, o projeto do Canal 100 para que alunos denunciem a conduta ideológica de professores na sala de aula.

 

O que ganha com isso?

Acusar o ator Leonardo DiCaprio de “dar dinheiro para tacar fogo na Amazônia”, defender exportação de madeira protegida in natura ou garimpo em terras indígenas fazem parte desse esforço sempre bem-sucedido de ocupar a mídia com os impropérios ditos e, assim, arregimentar os seus.

A verdade é que sem plano algum para combater o aumento indecente do desmatamento na Amazônia, o governo Jair Bolsonaro conseguiu pelo menos um feito inédito. É o primeiro a ter uma política antiambiental. Mais grave: o presidente se orgulha disso. Resta saber quais ganhos ele espera ter com o antiambientalismo. Diferentemente de questões caras ao extremismo de direita – como armas e licença para matar, bandido bom é bandido morto ou moralidade cristã distorcida e exacerbada –, nem a ideologia retrógrada explica a ojeriza do presidente às questões ambientais.

Mais do que omissão ou negligência, que já seriam danosas, o governo Bolsonaro passou a ser um incentivador de práticas escandalosas que, agora, têm aval para se multiplicar. Fiscalização frouxa, flexibilização de normas para multar serrarias que compram madeira ilegal, a recém anunciada pretensão de liberar a exportação de madeira “in natura” da Amazônia e o apoio explícito a garimpeiros, incluindo os que lavram terras indígenas, são apenas alguns itens da pauta antiambientalista.

O descalabro

Há mais. As liberações de agrotóxicos banidos há tempos de boa parte do planeta – alguns deles suspensos recentemente por decisão judicial – e o desejo confesso do presidente de transformar santuários ecológicos em zonas turísticas de alta densidade. É o que ele imagina para Angra dos Reis, que rejeita peremptoriamente a ideia, e para Fernando de Noronha. Em vez de somar pontos para ele, a postura acende suspeitas de que estaria criando condições para beneficiar pesos pesados da mineração mundial, além de jogar a causa ambiental, que não deveria ter partido, no colo de opositores.

Ainda que anime sua milícia digital, Bolsonaro não pode dizer que a defesa do meio ambiente é coisa do diabo comunista. Até entre os direitistas, o antiambientalismo que o presidente cultiva com fervor desagrada mais do que agrada. O descaso amazônico – e não só ele – preocupa parcela importante do agronegócio e do empresariado que apoiou Bolsonaro. Mexe no bolso dessa turma e deixa o Brasil em posição para lá de vulnerável nas relações externas. O reflexo já é visto fortemente, por exemplo, nas exportações do setor de couro.

A conservadora Angela Merkel, primeira-ministra da Alemanha, tem a pauta ambiental na linha de frente de seu governo. Recentemente, garantiu aporte de mais €40 bilhões para ações nessa área, gesto tido como essencial para que ela consiga se manter no poder. Nos Estados Unidos, empresas de grande porte como Chevron, General Motors, Apple e Facebook criticaram duramente a decisão de Donald Trump, que Bolsonaro venera, de retirar o país do Acordo de Paris. O ato também aborreceu alguns partidários republicanos e doadores de sua campanha.

 

A vocação autoritária

Na outra ponta, Bolsonaro trata a ferro e fogo a imprensa, na maior parte das vezes indesejada. Baniu a assinatura do jornal Folha de S. Paulo das hostes governistas, o que atenta contra a lei de licitações, e estimulou o boicote aos produtos anunciados pelo jornal desafeto. Sem a oficialização pretendida pelo PT e rechaçada publicamente, faz o controle da mídia – por tergiversação, a partir de falas absurdas (a maior parte deletérias), e por asfixia.

No Congresso, projetos como o fim da obrigatoriedade da cadeirinha para crianças no carro concorrem com o pacote anticrime do ministro Sérgio Moro, desdenhado pelo capitão. Para o Legislativo o governo enviou propostas como a da autonomia do Banco Central, de privatização da Eletrobrás e da quebra do monopólio da Casa da Moeda. Por elas, liberais demais, Bolsonaro não mexe um único dedo.

Na alma do presidente moram outros demônios. Daí a invenção da urgência para conferir à polícia autorização para matar, para ampliar o porte e posse de armas e para que a União, por meio de forças especiais, possa atuar em reintegrações de posse no campo. Nada capaz de alterar um milímetro na necessária agenda de desenvolvimento do país, para a qual, ao que parece, o presidente se lixa.

 

Falsos milagres

Como falta competência ao governo para colocar em prática uma agenda séria capaz de mudar os números bem abaixo da expectativa criada, Bolsonaro recorre aos falsos milagres. Os conhecidíssimos ou os mais exóticos. Entre métodos antigos e experimentados – diga-se, sem sucesso –, estão a desoneração da folha de pagamentos sob o pretexto de criar empregos e o tabelamento de juros.

Lançada com fogos de artifícios, a mexida em encargos trabalhistas é a alma do Programa Verde-Amarelo, Medida Provisória de nome pomposo e constitucionalidade duvidosa já questionada pelo Senado. De caráter ainda mais populista, o tabelamento dos juros do cheque especial até parece um ovo de Colombo. Só não fica de pé. Estimula o mau uso do crédito emergencial e fermenta o lucro escorchante dos bancos, autorizados a cobrar novas taxas de seus correntistas. É o fim.

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