Ode a Fernando Pessoa

Não! Não cantarei teu Canto, tua Obra, tua Vida,

sinfonia fantástica de palavras

gravitando em órbitas perfeitas, desenhando

no cosmo branco do papel vazio

constelações, galáxias.

Não cantarei as odisseias, as ilíadas, os périplos

ásperos no infinito pélago do Desconhecido, nem

as lutas insanas com o fado cruel,

os erros quotidianos, as dúvidas vãs, os sonhos

inúteis, as esperanças adiadas,

as máscaras, os rituais, os medos.

Não cantarei os labirintos, com seus

talismãs, dédalos, minotauros em vigília

que os teus pés sangrando trilharam duramente,

nem os oceanos e a fúria das ondas

que os teus olhos marítimos de vagabundo sulcaram

com as velhas velas pandas do olhar iluminadas

por um sol interior implacável, mais causticante do que o sol

dos trópicos em brasa. Não cantarei

os delírios, as febres, o espanto ácido, os temores

noturnos, as angústias subterrâneas, os desesperos

clandestinos, a certeza nítida, a certeza veemente de que

para ser gênio é necessário arder, arder como lenha

numa fogueira ciclópica, arder como carvão

numa fornalha, arder, arder misteriosamente

em convulsões, gemidos e espasmos,

e ao mesmo tempo em que se arde,

saber, claramente saber que é preciso superar

barreiras de alma, muros altos, obstáculos intransponíveis,

percorrer desertos adustos, atravessar

com o rosto sonâmbulo de Esfinge impassível,

pântanos, lodaçais, pauis de areias movediças, pontes

suspensas no ar, sinistramente instáveis, escalar

montanhas coroadas de branca neve nos píncaros hieráticos,

com seus dentes de pedra cravados no céu,

sobretudo saber que é inevitável ter a alma violada

por todas as inquietações, o cérebro

torturado pelo cilício amargo de todas as dúvidas,

o coração dilacerado por todos os sentimentos,

emoções, paixões, êxtases, orgasmos.

Não cantarei teus possíveis/impossíveis amores

(se tivesses casado com a filha da tua lavadeira,

terias sido realmente feliz, Fernando?)

que talvez pudessem ter sido (sim, talvez) parágrafos

serenos, oásis breves entre imensidões inóspitas

de areias escaldantes. Não cantarei

teus exílios (com suas agonias) nas misteriosas

cidades longínquas do país estranho de ti mesmo, nem

teu gesto demiúrgico que do nada conseguia

erguer magicamente universos rítmicos em voo

através do éter. Não cantarei sequer o teu

imperial, olímpico domínio sobre a nossa

bela, antiga, doce portuguesa língua,

que a tua pena soube transformar em música

das esferas, em cântico dos cânticos.

Não cantarei o cancioneiro, as ficções do interlúdio,

as (tão lúcidas) tuas criaturas, Campos, Reis, Caeiro,

que eram outros e simultaneamente eram

o que tu próprio foste: pessoas. Tão fernandinamente!

Quero cantar apenas,

como quem reza em surdina uma oração

aprendida com a avó no país secreto da infância,

a tua mensagem emblemática

com seu brasão, seus campos, latifúndios,

seus castelos, quinas, timbres e coroas,

infantes, padrões, horizontes, mostrengos,

com suas insígnias rutilantes, suas naus, seus gládios,

calmas, tormentas, antemanhãs, nevoeiros

em cujas dobras se esconde o vulto ansiado, desejado

d’El Rei Dom Sebastião.

Rangendo os dentes cantarei,

de mãos crispadas cantarei,

com mel nos lábios cantarei,

com fel na boca cantarei,

eu cantarei sobretudo

a Hora.

Pois esta é a tua e a nossa Hora!

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