A coisa tá ruça!

Quando estamos diante de uma situação difícil, costumamos dizer que a coisa tá ruça. Ruça ou ruço significa pardacento ou grisalho. Mas, segundo o dicionário Houaiss, ruça ou ruço, passou a significar “complicado, cheio de adversidades, de dificuldades; perigoso, apertado.” Parece a definição perfeita para o governo de Jair Bolsonaro.

Nenhum governo se daria ao luxo de priorizar o supérfluo quando o essencial agoniza. Mas nem os 12,4 milhões de desempregados, a economia estagnada, beirando a recessão, a violência crescente, a miséria abundante, a saúde e educação em frangalhos, afastam o presidente Jair Bolsonaro de privilegiar uma agenda acessória, limitada aos seus fiéis.

Contrariando o bom senso para satisfazer sua visão particular entre o que é bom ou mal para o cidadão, Bolsonaro insiste em dar peso a matérias secundárias. Não raro, como fez na ressureição da ideia insana de uma moeda única para Brasil e Argentina – “uma trava para aventuras socialistas na América do Sul” –, parece estar enredando a todos em manobras diversionistas.

Com o equivalente a 11,6% da força de trabalho, as condições de emprego no trimestre móvel encerrado em outubro foram muito parecidas com as de um ano antes, quando o deputado Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República. O quadro piorou depois da posse, embora empresários tenham proclamado otimismo em relação ao novo governo. O primeiro ano de mandato foi marcado por baixa atividade, severa escassez de vagas e aumento da informalidade e da ocupação precária.

 

Melhora pífia

Os desempregados chegaram a 13,2 milhões no período de fevereiro a abril, e a partir daí o número declinou lentamente. No trimestre da eleição, em 2018, 12,3 milhões de trabalhadores caçavam qualquer oportunidade. A taxa de desemprego passou de 11,7% para 11,6% em um ano, uma variação estatística insignificante, enquanto aumentou o número absoluto dos trabalhadores e famílias em situação ruim, precária. Estes são dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para que ninguém nos acuse de inventar catástrofes.

Não se tratou, obviamente, de um triste caso de mera fatalidade. Durante mais de um semestre o governo Bolsonaro nada fez para atenuar com alguma rapidez os piores problemas de muitos milhões de trabalhadores. A grande realização nesse período foi o encaminhamento da reforma da Previdência, iniciativa essencial para o futuro do país, mas insuficiente para dar impulso imediato aos negócios e à contratação de pessoal. Mesmo os dados positivos acumulados no ano ficam bem menos bonitos quando examinados com cuidado. O escasso aumento da ocupação resultou principalmente de contratações informais – sem registro em carteira – e da expansão da atividade por conta própria, em grande parte por meio de trabalhos precários e de baixo rendimento.

No setor privado, os 11,9 milhões de empregados sem carteira assinada constituíram um recorde. Número recorde foi também o dos trabalhadores por conta própria, 24,4 milhões. Já no trimestre encerrado em setembro dados sobre essas categorias haviam chamado a atenção. No caso da ocupação por conta própria, a interpretação mais otimista envolve a repetição de uma pergunta já formulada mais de uma vez: há um surto de empreendedorismo no Brasil?

 

Vale tudo para sobreviver

A resposta mais prudente apontaria um fenômeno muito distinto e bem prosaico: muita gente, cansada de esperar a melhora no mercado, resolveu fazer qualquer coisa para sobreviver e manter os dependentes. Parte dessas pessoas provavelmente abandonará o negócio próprio se aparecer uma chance de contratação. Outra parcela se disporá a manter a nova ocupação, talvez mais compensadora do que a já experimentada relação de emprego. Esse grupo, sim, poderá descobrir-se, talvez de forma surpreendente, com uma vocação empreendedora. Por enquanto, é arriscado dizer como ficará o quadro das atividades quando a oferta de vagas se tornar menos precária.

Mas o desemprego, a contratação informal e o recorde da ocupação por conta própria mostram só uma parte de um quadro ainda muito sombrio. Somando-se 12,4 milhões de desocupados, 7 milhões de subocupados com insuficiência de horas de trabalho e 4,6 milhões de desalentados, chega-se a um total de 24 milhões de pessoas em condições muito ruins – por falta de ocupação ou de ânimo para continuar procurando emprego. No trimestre móvel terminado em setembro, esse conjunto era formado por 24,2 milhões de trabalhadores.

Os técnicos do IBGE propõem outra conta, adicionando aos desocupados, subocupados e desalentados um contingente de força de trabalho potencial. Esse contingente inclui pessoas fora do mercado, mas em condições de trabalhar, se o quadro se tornar mais favorável. Essa conta leva a um total de 27,1 milhões de pessoas subutilizadas. O número é 3,5% menor que o do trimestre móvel de maio a julho, mas igual ao de um ano antes. Também nesse caso houve um retorno às condições observadas na época da eleição.

Como naquele tempo, há alguma expectativa, agora, de alguma dinamização dos negócios e do emprego. Falta ver se o governo se tornou mais preocupado com crescimento e emprego, prioridades de quem precisa garantir a sobrevivência da família. Uma resposta positiva terá de envolver algo mais que a expansão econômica de 2% prevista para 2020.

 

Em causa própria

Além de atirar, o presidente gosta de pescar. Multado em 2012 pelo Ibama por lançar seu anzol nas águas da Estação Ecológica de Tamoios, em Angra, Bolsonaro antecipou como costuma agir e como elege suas prioridades. Deputado federal à época, ele apresentou um projeto de lei que impedia fiscais ambientais de portar armas, algo nada condizente com o parlamentar pró-bala. Presidente, ele não só demitiu o fiscal como já anunciou que pretende transformar a sua área de pesca predileta em uma “Cancún brasileira”.

Em comum, todas essas questões têm a prevalência da motivação pessoal em detrimento da coletividade. Nem todos os números que mostram a descrença da população em armas – 73% dos brasileiros ouvidos pelo Ibope são contra a flexibilização do porte e 61% contra a posse –, ou os que apontam mais de 47 mil mortos no trânsito e outros 20 mil inválidos, são capazes de convencê-lo da estultice e irresponsabilidade de afrouxar regras em legislações que mexem com a vida e a morte.

Ele se move por voluntarismo, cujo efeito deletério o país já conhece, associado a agrados baratos e linguajar fácil para o “povão”, mesmo método que assegurou a popularidade de Lula. Parece ter aprendido ainda a arte de tergiversar. Lança uma ideia estapafúrdia por dia, ocupando todos os espaços com debates inócuos que acabam por escamotear sua incapacidade de governar.

Como bom populista, aposta na periferia, em questões que movem corações e copos nas mesas de bar e nos porres virtuais. Mas nada tem de tolo. Qualquer coisa que der certo – mesmo aquelas como a Reforma da Previdência, para a qual teve empenho próximo de zero –, o mérito será seu. O que falhar ficará na conta do Congresso.

 

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