Editorial. Ed. 219

Jair Bolsonaro é um mestre da dissimulação e do engodo. Ele se move por voluntarismo, cujo efeito deletério o país já conhece, associado a agrados baratos e linguajar fácil para o “povão.” Parece ter aprendido ainda a arte de tergiversar. Lança uma ideia estapafúrdia por dia, ocupando todos os espaços com debates inócuos que acabam por escamotear sua incapacidade de governar.

Como bom populista, aposta na periferia, em questões que movem corações e copos nas mesas de bar e nos porres virtuais. Acusar o ator Leonardo DiCaprio de “dar dinheiro para tacar fogo na Amazônia”, defender exportação de madeira protegida in natura ou garimpo em terras indígenas fazem parte desse esforço sempre bem-sucedido de ocupar a mídia com os impropérios ditos e, assim, arregimentar os seus.

As almas parvas que seguem Bolsonaro acreditam que essa mágica grotesca jamais perderá sua eficácia. Pois estão enganados. O talk show do capitão perdeu a graça e a credibilidade. Para irritação da caterva palaciana, a maior parte dos brasileiros afirma desconfiar das declarações do presidente Jair Bolsonaro, segundo o Datafolha.

Apenas 19% dos entrevistados declararam confiar sempre no presidente, enquanto 80% desconfiam e 43% nunca confiam nas falas de Bolsonaro. Na mesma pesquisa foi avaliada a opinião do público sobre o comportamento de Bolsonaro. Para 28% das pessoas, ele não se comporta como um presidente deveria. E outros 28% disseram que ele se comporta de acordo com seu cargo na maioria das vezes. As atitudes do presidente são sempre adequadas para apenas 14% dos entrevistados.

A verdade é que a paciência da maioria está se esgotando.  Não é fácil viver num país em que há 12,4 milhões de desempregados, a economia estagnada, beirando a recessão, a violência crescente, a miséria abundante, a saúde e educação em frangalhos. Mas nem esse quadro desesperador afasta o presidente Jair Bolsonaro de privilegiar uma agenda acessória, limitada aos seus fiéis. Antes de tudo, Bolsonaro administra em causa própria e da prole.

A coisa está ruça, como nos diz a matéria de capa desta edição. O povo, que não é bobo, perdeu as esperanças. As promessas do falastrão não se cumpriram. Trágico é perceber que as condições para virar o jogo estão dadas, mas as subjetivas, incluída a necessidade de uma forte frente de oposições, não existem. As esquerdas patinam na incapacidade de se ajustar a este tempo. Guilherme Boulos, por exemplo, fala sobre a importância de se refletir sobre um fator essencial: a dificuldade de incorporar “uma militância de novo tipo em torno de outras bandeiras que não são as trabalhistas, clássicas”.

Além disso, as organizações deterioram. Os militantes de hoje não querem mais “saber de estruturas organizadas verticalmente”, mas reivindicam a prática de uma política mais horizontal. Que fazer? Perguntaria Lênin cheio de respostas. Aqui, nada. A cultura divisionista continua forte e dominante. Embora ideia de unir todas as esquerdas numa ampla frente seja correta, isso parece impossível porque a esquerda sempre viveu aquilo que a gente chama de “síndrome de Caim e Abel”, ódio entre irmãos. É preciso superar essa cultura da divisão. Mas quem há de? Está aí a maior liderança populista das esquerdas, Lula, posto em liberdade e a afirmar que seu partido, o PT, não faz alianças com ninguém.

Deixe uma resposta