Pobre língua portuguesa

Pasmem. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, semialfabetizado, conseguiu, em um mês, cometer 33 erros crassos de português em sua conta no Twitter. Nada surpreendente, se considerarmos que Jair Bolsonaro e sua trupe decidiram encarnar de vez o papel de inimigo da cultura.

Os erros de concordância e regência, os barbarismos, as obscuridades, a utilização caótica dos pronomes e das preposições é comum na linguagem dos membros mais destacados do atual governo. Mas ao menos o ministro da Educação poderia tomar cuidados maiores no uso da língua.

Weintraub é o mesmo que troca palavras por tentar usar um vocabulário novo. Dia desses usou o termo “acepipes” quando, na verdade, gostaria de dizer “asseclas”. Falou “indentificadas”, quando queria dizer “identificadas”. Erro que o presidente Bolsonaro também já cometeu. Repete o vexame do ministro Sérgio Moro, que por não saber dizer “cônjuge”, falou “conje”, o que continua a ser motivo de chacota em todo lugar em que haja pessoas com escolaridade mínima.

Incrível é que Bolsonaro, ex-capitão do exército que há anos faz política full time na internet, nos meios de comunicação de massa, em partido político e Câmara dos Deputados, até hoje não se deu ao trabalho de corrigir-se e de pôr as ideias em ordem, para exprimi-las com clareza.

Praticamente um em cada quatro tuítes de Jair Bolsonaro tem erro de português. Ao analisar os posts do presidente, o economista Gabriel Brasil chegou a esse levantamento de erros gramaticais ou ortográficos cometidos pelo mandatário. Brasil pegou como amostra todas as postagens de Bolsonaro entre 1º de janeiro e 11 de março de 2019. O total é de 381 posts na rede social de até 280 caracteres. Desses, 86 continham pelo menos uma presepada.

Com tal volume de erros, “podemos afirmar matematicamente”, diz Brasil, que Jair Bolsonaro é um “analfabeto funcional”.  “A taxa de erros deve ser ainda maior nos posts antes de Bolsonaro assumir a Presidência, pois não havia tanta checagem e fora outros posts com erros que podem ter sido apagados e repostados”, completa.

Também não foram considerados posts escritos em outros idiomas. Ao confrontar uma jornalista espanhola do jornal El Pais, Bolsonaro usou um falso cognato e foi corrigido publicamente pela repórter do periódico. Já num texto em inglês, ao responder à rainha Elizabeth, da Inglaterra, cometeu uma gafe. Chamou-a de “Queen”, quando o protocolo é utilizar “Her Majesty”, “Your Majesty” ou “Your Highness”. A não ser que Jair estivesse se referindo à banda de Freddie Mercury, o que é pouco provável porque JB “não gosta desse tipo de música de pervertido”, como afirma.

Os atentados ao vernáculo são reflexo da ignorância ou puro ódio, de caso pensado ou não, com que o bolsonarismo ataca na frente cultural. O presidente parece adorar o papel. Na verdade, temos um vale tudo de baixíssimo nível para destruir uma imaginária hegemonia ideológica de esquerda na cultura, nas artes. Essa é uma das cruzadas inspiradas pelo guru pornográfico Olavo de Carvalho, que orienta a turma no poder.

Sem poder utilizar os instrumentos clássicos da censura, Bolsonaro tenta inibir a área cultural pela asfixia. Reduziu a pó a força da cultura dentro da administração federal, escanteando-a para o Ministério do Turismo. Cortou incentivos e possibilidades de captação de financiamento, tentou excluir artistas do cadastro de microempreendedores individuais, busca impor isenções de cobrança de direitos autorais contrariando a lógica do tocou em público tem de pagar ao artista. Esculacha o cinema brasileiro e ícones da arte nacional como os compositores Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Martinho da Vila e a premiadíssima atriz Fernanda Montenegro.

Por puro ódio ou por ignorância, bolsonaristas estão convencidos de que cultura é coisa da esquerda. Dessa forma jogam na oposição todos os que amam as artes, inclusive os que votaram no capitão.

A tentativa de substituir uma ideologia por outra é prática corrente desde os primórdios. Bilhares de livros foram incinerados em praças públicas na China da Dinastia Qin, 200 anos antes da Era Cristã, na Alemanha nazista (como mostra a foto acima) e nos primeiros tempos da revolução soviética. Tentativas de apagar registros e reescrever a História. Na era digital, direita e esquerda tentam fazê-lo queimando reputações.

Em dezembro tivemos o exemplo mais sólido do que pode acontecer quando a miséria intelectual do debate político brasileiro se mistura ao direito de fala concedido aos milhões de imbecis. Só podia dar no que deu: um espetáculo de degradação e desinformação de fazer corar, como se dizia antigamente, um frade de pedra.

É o que se deduz diante das sandices expostas pelo novo presidente da Funarte (Fundação Nacional das Artes), Dante Mantovani, para quem o rock é algo satânico – “que ativa a droga que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto” – e os Beatles e Elvis Presley agentes soviéticos contra a cultura ocidental. Nem o melhor humorista conseguiria reunir tanta asneira em uma tacada só.

A investida da turma de Bolsonaro sobre os organismos da cultura acabou em debate acerbado na internet. O que faz lembrar de Umberto Eco, que foi impiedoso com as consequências do uso indiscriminado das mídias sociais para discussões supostamente edificantes: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”.

Mas não devemos perder as esperanças. Essas campanhas para acabar com cultura e com a esquerda, acabaram sempre dando com burros n’água, Nos Estados Unidos, a caça aos comunistas promovida nos anos 1950 pelo macarthismo acabou por transformar em heróis quase a totalidade dos artistas banidos, menos de uma década depois. Por aqui, os censores da ditadura militar perseguiram e tentaram calar muitos, mas, ao contrário de impedi-los, jogaram luzes na MPB, na música de protesto, no cinema e no teatro, nas letras e nas artes plásticas. No final, o enterro do regime se deu com milhões nas ruas comungando política e música em gigantescos showmícios.

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