Terrorismo Cultural

O Brasil está cada vez pior na fita. Somos um país desigual, governado por uma trupe racista, violenta e impune. O presidente da República é figura emblemática dessa situação. Em um ano de governo, o troglodita Jair Bolsonaro restaurou a censura, desencadeou o terror cultural, baseado em teses grotescas que provam seu caráter e despreparo, destroçou o sistema educacional público, fragilizou as universidades e gerou formas bastardas de comunicação através da internet.

Bolsonaro, sem pejo, diz uma sandice atrás da outra. São frutos das suas convicções retrógradas e do hábito da provocação.  A defesa das teorias de que a Terra é plana, de que há raça superior, e de que os pobres são vítimas de sua própria indolência e preguiça, são repetidas à exaustão por ele e seus três filhos, o grupo familiar. Bolsonaro é esperto. Aprendeu a ocupar os espaços com discussões grotescas para mascarar seus insucessos e incapacidade de governar.  Nessa linha, para que se tenha uma ideia do estilo pornopolítico presidencial, destilou sua homofobia, seus preconceitos de gênero e de raça e esbanjou no besteirol. Acusou o ator Leonardo DiCaprio de “dar dinheiro para tacar fogo na Amazônia”, defendeu a tortura, homenageou a ditadura militar e sugeriu que a população “faça coco um dia sim, um dia não, para reduzir a poluição.”

O governo Bolsonaro tem tutor, o estamento militar. E preceptor, o farsante Olavo de Carvalho, que se apresenta como filósofo e faz seguidores excretando teorias estapafúrdias em linguagem chula, mais apropriada a horas tardias em bordéis da periferia que ele costumava frequentar quando morou em Curitiba por conta do empresariado conservador.

Pois é Olavo de Carvalho quem comanda o terrorismo cultural e nomeia os gestores do setor, que deixou de ter ministério para virar um departamento na área do turismo. Primeiro indicou Roberto Alvim, novo secretário da Cultura, que agradou o guru ao xingar Fernanda Montenegro. Logo que assumiu, ele entronizou ao seu lado Katiane Fátima de Gouvêa. Um espanto. Em sua campanha à deputada federal, ela defendia a redução da maioridade penal, incentivava a homofobia e queria facilitar o porte de armas.

Para a Fundação Nacional de Artes (Funarte) foi nomeado o maestro Dante Mantovani, que em canal no Youtube endossa teorias da conspiração, como a de que o governo americano teria distribuído drogas sintéticas a jovens nos anos 1960 graças a agentes soviéticos infiltrados. Ao desqualificar os predicados musicais do rock, disparou: “O rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo. O próprio John Lennon disse que fez um pacto com o diabo”.

Ele também defende que o rock, em geral, não pode ser classificado como música, mas diz que, apesar disso, gosta de duas bandas do gênero. A norte-americana Metallica e a brasileira Angra, ambas representantes do gênero heavy-metal. “Rock é muito bom quando você está dirigindo e te dá aquele sono”, aconselha.

Mantovani desce a lenha no festival Woodstock. “Woodstock foi aquele festival da década de 1960 que juntou um monte de gente, os hippies fazendo uso de drogas, LSD, inclusive existem certos indícios de que a distribuição em larga escala de LSD foi feita pela CIA [agência de inteligência do governo americano]. Mas como pela CIA? Tinha infiltrados do serviço soviético”.

Rafael Alves da Silva, que se apresenta como Rafael Nogueira, e diz ser “professor de filosofia, história, teoria política e literatura, aspirante a filósofo e a polímata”, é o novo presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Nogueira acaba de voltar de Portugal onde participou do Colóquio Olavo de Carvalho.  Simpatizante da monarquia, no dia 15 de novembro ele escreveu: “A Proclamação da República foi um golpe militar improvisado e injustificável. O Brasil nunca mais se encontrou. Nada a comemorar.”

Em texto publicado nas redes sociais, Nogueira contesta dados oficiais sobre negros serem mais assassinados do que brancos no Brasil. “Se o reconhecimento científico de quem é negro e quem é branco é impossível, o reconhecimento estatístico só pode ser feito por razões de aparência, reconhecimento de cor ou auto-identificação. Quem diz que alguém é negro? O IBGE. Como? Por meio de pesquisas nas quais a pessoa, assim como no caso do gênero, pode se dizer negra a despeito de ser resultado de mestiçagem complexa”, escreveu Nogueira.

“Então, na verdade, não são negros os que mais morrem, são aqueles que se reconheceram negros ou pardos de forma relativamente arbitrária. Como os institutos de pesquisa têm apontado que a maioria da população é negra (pelos novos critérios elásticos já mencionados), então, é natural que numa maioria negra a maioria dos crimes sejam cometidos contra negros, certo?”, complementa Nogueira.

O incrível é que este absurdo que escamoteia racismo foi apoiado por um negro, Sergio Nascimento de Camargo, o novo presidente da Fundação Palmares, Sergio Nascimento de Camargo, afirmou em suas redes sociais que o Brasil tem um “racismo Nutella”, defendeu a extinção do feriado da Consciência Negra e declarou apoio irrestrito ao presidente Bolsonaro. Camargo também afirmou que a escravidão foi “benéfica para os descendentes” e atacou personalidades como a ex-vereadora do Rio Marielle Franco e a atriz Taís Araújo. Camargo é negro, mas tem forte oposição na sua comunidade.

Nem mesmo o irmão quer o racista Sergio Nascimento de Camargo na Fundação Palmares: “Tenho vergonha desse capitão do mato”. O músico e produtor musical Oswaldo de Camargo Filho, Wadico Camargo, divulgou abaixo-assinado contra a nomeação do irmão para presidir a Fundação Palmares. “Se fosse para o bem da nossa raça, eu seria o primeiro a apoiar, mas para o mal do povo negro, sem chance. Para mim, raça é Pátria, é Alma. Sou negão!”, escreveu Wadico em sua página no Facebook.

As declarações de Sergio Nascimento de Camargo foram tão estapafúrdias que o juiz substituto da 18ª Vara Federal do Ceará, em Sobral, Emanuel José Matias Guerra, chegou a suspender a sua nomeação como presidente da Fundação Palmares. A medida foi tomada devido ao risco do que apontou como “rota de colisão com os princípios constitucionais da equidade, da valorização do negro e da proteção da cultura afro-brasileira”, explicou o juiz.

A sucessão de bobagens ditas pelos novos condutores da política cultural no Brasil revela a posição de Bolsonaro, que considera a cultura supérflua ou até desnecessária. Para os governos de viés fascista, de vocação totalitária, ela sempre representou uma ameaça, por sua insistência em levar os homens a pensar e, mais do que tudo, a pensar livre e democraticamente.

O conceito de cultura mexe com as pessoas e as instituições. Por sua índole essencialmente tolerante, por ajudar o ser humano a conhecer melhor o outro e a respeitá-lo, é o melhor instrumento que temos à mão para o desarmamento de corpos e mentes e para a paz universal. Deveríamos estar preocupados com o conceito de democratização da cultura. Ela não deveria ser privilégio. Exposições de arte e artesanato, feiras de antiguidade, a valorização do patrimônio histórico são temas que deveriam estar em discussão. Mas estamos à mercê de um governo que pratica um absurdo terrorismo cultural. Isso me faz lembrar de um frase que se tornou célebre e de sua contestação.

“Quando ouço alguém falar em cultura, saco o meu revólver.” A frase, de uma peça antinazista de Hanns Jost, encenada em 1933, ano em que Hitler assumiu o poder, acabaria atribuída a Herman Göring, chefe da Gestapo e braço direito do Führer. Há uma variante, de um magnata de Hollywood: “Quando ouço falar em cultura, puxo o meu talão de cheques”. E temos a versão pacifista e inteligente dos anos 1960, do “mago” Louis Pauwels: “Quando me falam em revólver, puxo a minha cultura”.

 

 

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