Casa poesia

Não tenho culpa de ter ideias tortas. Tenho-as todos os dias logo quando acordo. Pensando na rotina que me aguarda, procuro criticar ou zombar de alguém que me aborrece. Talvez o que realmente deseje é zombar de mim mesmo, provando que sou capaz de fazer graça com a minha própria desgraça. Olho pela janela do quarto ou da sala e não vejo nada além de prédios e trânsito. O sol do verão só me traz a lembrança de um dia quente e abafado. Certamente minha rotina não é uma poesia.

Então, certo dia, após uma série de ideias tortas, me deparo com um texto de uma pessoa querida narrando um dia no seu quotidiano que faria Leopold Bloom repensar a sua narrativa caótica em Ulisses. Que me perdoe James Joyce mas prefiro as meninas da Casa Travessia. Autorizado, reproduzo.

Giovanna e eu abrimos a Casa Travessia há 4 meses.

Aqui tem árvore na janela e passarinho que canta enquanto montamos a sala para um evento.

Tem surpresa na chegada: as vezes comida, as vezes bebida. As vezes um amigo esperando. Às vezes, boleto.

Não tem funcionário do mês, mas tem o herói da semana que nos salvou de uma lagartixa. Ele atende pelo nome de Bruno, é biólogo, paraense, expositor da loja e casado com a Carolzinha perfeita. Pegou a lagartixa com a mão e a devolveu para a natureza com todo amor e respeito que ela merecia.

Tem a senhorinha de 75 anos que mora em frente e passa toda semana para perguntar sobre o bazar. Compra as jaquetas mais coloridas e descoladas, uma rainha; conta sobre o bairro, um pouco sobre a vida e segue para o supermercado.

Todo dia, ao ir embora, passamos na bomboniere dar um beijo na Luci e depois no Bar Fernando. Amamos os dois e, talvez um pouquinho mais, os filhos.

Depois seguimos para o estacionamento e ficamos de conversa com os meninos: Serginho, Rodrigo, Fabinho, Neto e Bruno.
Cada dia é uma história. Semana passada uma Kombi descontrolada prensou o Fabinho entre o balcão e a parede. Um susto daqueles, mas felizmente já passa bem. Nos dias com menos emoção falamos sobre o tempo, a folga da semana e os clientes sem educação.

Tem sim um pouco do interior ao lado da Avenida Paulista.

Nossos dias seguem sendo poesia.

(Rejane Moreira)

Agora todas as manhãs deixei de iniciar os meus dias com pensamentos tortos. Olho pelas janelas e noto que existem árvores. Procuro passarinhos. Não os ouço, mas tem momentos que vejo alguns. Surpreso, vislumbro mesmo que distante a Serra do Mar. Está linda e me lembra os Andes. Observo que o trânsito não é assim tão desagradável e passei a deixar que o sol do verão aquecesse o meu rosto cansado. Meus dias ainda não são uma poesia e ainda tenho as tais ideias tortas, mas ao menos já consigo vislumbrar Fernando Pessoa dando pitacos no meu dia a dia. Já é um começo.

 

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