Como chegamos a este ponto?

Acredito que o texto jornalístico mais lúcido já publicado no Brasil sobre o bolsonarismo é um artigo de Eliane Brum, que escreve no jornal El País. É um verdadeiro libelo contra os desatinos do governo. Ela mora em Altamira, do meio da selva amazônica. E de lá consegue enxergar o que está e porque o país, a democracia e as nossas vidas começaram a ser destruídas pelo antipresidente (expressão dela) Jair Bolsonaro.

Eliane Brum ouviu uma penca de psiquiatras e psicólogos -a maioria não quis se identificar, temendo represálias, outro sintoma da doença- para tentar entender o que se passa na nossa cabeça com o país submetido a uma depressão coletiva, sem cura à vista. Ele muito nos ajuda a entender tudo o que acontece no Brasil de hoje. Inclusive essas erupções de direitismo canhestro em pronunciamentos que fazem colagem de discursos dos líderes nazistas.

“Jair Bolsonaro é um perverso”, assim começa o texto. “Não um louco, nomeação injusta (e preconceituosa) com os efetivamente loucos, grande parte deles incapaz de produzir mal a um outro. O presidente do Brasil é perverso, um tipo de gente que só mantém os dentes (temporariamente, pelo menos) longe de quem é do seu sangue ou de quem abana o rabo para as suas ideias (…)n Logo adiante, ela põe o dedo na ferida aberta pelo bolsonarismo: “Submetidos a um cotidiano dominado pela autoverdade, fenômeno que converte a verdade numa escolha pessoal, e portanto destrói a possibilidade de verdade, os brasileiros têm adoecido”.

Sem ter mais referências para saber o que é verdade e o que é mentira, o brasileiro padece de adoecimento mental. Mas o que veio antes? Jair Bolsonaro ou um país já doente, dominado por bolsominions, que o levou ao poder pelo voto? É o que muita gente se pergunta até hoje na Alemanha: como foi possível um povo tão civilizado, criador de uma fantástica cultura, em todas as artes e ofícios, ter votado num certo Adolfo Hitler nos anos 30 do século passado, depois de ele já ter lançado o “Mein Kampf” (Minha Luta), em que antecipava tudo o que pretendia fazer com o país e o mundo?

Como foi possível? É difícil entender o que aconteceu com o Brasil, um país que, apenas cinco anos atrás, antes do golpe de 2016, era respeitado e admirado no mundo todo. E Eliane se pergunta quase ao final do seu libelo: “Como enfrentar o horror? Como barrar o adoecimento provocado pela destruição da palavra como mediadora? Como resistir a um cotidiano em que a verdade é destruída dia após dia pela figura máxima do poder republicano?”.

Ela ouviu Rinaldo Voltolini, professor de psicanálise da Universidade de São Paulo, um dos poucos a permitir a publicação de seu nome, que lembrou de um diálogo entre Albert Einstein e Sigmund Freud. “Quando Einstein pergunta a Freud como seria possível deter o processo que leva à guerra, Freud responde que tudo o que favorece a cultura combate a guerra”. Com esse texto escrito há quatro meses, parece que Eliane profetizou o que está acontecendo nas últimas semanas na cultura nacional:

“Os bolsonaristas sabem disso e por isso estão atacando a cultura e a educação. A cultura não é algo distante nem algo que pertence às elites, mas sim aquilo que nos faz humanos. Cultura é o que nos apalavra. Precisamos recuperar a palavra como mediadora em todos os cantos onde houver gente. E fazer isso coletivamernte, conjugando o nós, reamarrando os laços para fazer comunidade. O único jeito de lutar pelo comum é criando o comum _ em comum”.

“É preciso dizer: não vai ficar mais fácil. Não estamos mais lutando pela democracia. Estamos lutando pela civilização”. Não sei se Fernanda Montenegro leu este texto de Eliane Brum, mas a maior atriz brasileira de todos os tempos veio a público para alertar: “Se eles puderem, estaríamos todos num paredão e eles atirando em nós com metralhadoras”. Antes que isso aconteça, é importante ler a íntegra do texto de Eliane Brum no El País.

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