Entre o capim e o dinheiro

Eram comuns as polêmicas internas no jornalismo dos anos 50, século passado, muitas delas com boa dosagem de humor. No O Estado do Paraná o mineiro Sebastião de Oliveira Salles fazia a coluna “Três flagrantes”, um tópico internacional, outro nacional e um terceiro local e num dos seus artigos, irritado com a prodigalidade do governo da União em gastos supérfluos e na emissão de papel moeda, tascou o título “Dinheiro não é capim”. O Coelho Júnior sentiu-se provocado na condição de operador geográfico e versado em agrostologia replicou com “Capim é dinheiro” e fez uma erudita exposição das múltiplas utilidades que vão da missioneira à brachiaria e detalhando a importância dessa variedade para a estabilidade do solo e a expansão da pecuária.

No fim da semana, na sexta, era o dia do vale, adiantamento do salário e o Coelho Júnior entrou na fila para receber o seu envelope no ritual comandado pelo diretor comercial, o João Batista Moraes, que deve ter sido o autor da falseta, ao abri-lo percebeu que havia apenas um chumaço de capim. Era resposta à altura de sua impaciência com aquela história de que dinheiro não é capim. O episódio rendeu boas gargalhadas o que seria impossível nos dias de hoje com a polarização ideológica, aliás destituída de senso, que toma conta do país e faz imperar um maniqueísmo que leva mais à intolerância do que à cena de humor vivida na redação e que exalta a solidariedade e a fraternidade no alegre culto das divergências.  O “sem perder a ternura” do Che Guevara pode também referir-se ao humor.

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