Noivinha da cultura

Então, agora temos uma atriz global de novelas, adepta das ideias de direita, para substituir um trapalhão da mesma extração ideológica, o Roberto Alvim, que entregou a rapadura ao plagiar um discurso de seu ídolo Goebbels, homem da propaganda de Hitler e do nazismo. Na verdade, Alvim era apenas um epígono trapalhão e dispensável na corja que governa o país. O terrorismo contra a cultura é política ampla e tem feito mais estragos do que imagina a vã filosofia dos nativos que se limitam a mobiliar a cabeça no debate chinfrim travado na internet, já foi dito.

É bom repetir. O presidente da República é figura emblemática dessa situação. Em um ano de governo, Jair Bolsonaro restaurou a censura, desencadeou o terror cultural, baseado em teses grotescas que provam seu caráter e despreparo, destroçou o sistema educacional público, fragilizou as universidades e gerou formas bastardas de comunicação através da internet.

Bolsonaro, sem pejo, diz uma sandice atrás da outra. São frutos das suas convicções retrógradas e do hábito da provocação. A defesa das teorias de que a Terra é plana, de que há raça superior, e de que os pobres são vítimas de sua própria indolência e preguiça, são repetidas à exaustão por ele e seus três filhos, o grupo familiar. Bolsonaro é esperto. Pois, pois, tirou Alvim e chamou uma atriz que tem um enorme fã clube na ignorância que é a maioria absoluta no Brasil. Ela era conhecida como namoradinha do Brasil e provoca frissons na novela de horário nobre da Globo. Agora, já vetusta, diz que deixa de ser a namoradinha para ser a noivinha. Pois, pois, estamos ferrados.

De ferrenha apoiadora de pautas e manifestações de direita a responsável pela Cultura no Governo Bolsonaro. A atriz global Regina Duarte afirmou nesta segunda-feira, de acordo com a Folha de S.Paulo, que inicia um período de “testes” na Secretaria Especial da Cultura, após conversar com o presidente, que lhe convidou para ocupar o cargo depois da exoneração de Roberto Alvim, na sexta-feira, que caiu depois de copiar trecho e estética de um discurso nazista em vídeo para anunciar o Prêmio Nacional de Cultura.

Antes de aceitar o convite de Bolsonaro, a atriz pediu uma conversa “olho no olho” com o presidente para entender seus planos para a área de Cultura. O encontro aconteceu nesta tarde, no Rio de Janeiro. Em nota, o Palácio do Planalto informou que “após conversa produtiva com o presidente Jair Bolsonaro, Regina Duarte estará em Brasília na próxima quarta-feira, 22, para conhecer a Secretaria Especial da Cultura do Governo federal”. Bolsonaro publicou no Twitter uma foto com a atriz e disse que tiveram uma “conversa sobre o futuro da cultura no Brasil” e que ambos iniciam um “noivado que possivelmente trará frutos ao país”.

“Nós vamos noivar, vou ficar noiva, vou lá conhecer onde eu vou habitar, com quem que eu vou conviver, quais são os guarda-chuvas que abrigam a pasta, enfim, a família. Noivo, noivinho”, afirmou a atriz à coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha. “Quero que seja uma gestão para pacificar a relação da classe com o Governo. Sou apoiadora deste Governo desde sempre e pertenço a classe artística desde os 14 anos”, disse a atriz.

Duarte chegou a criticar, em novembro do ano passado, a indicação de Roberto Alvim para a Secretaria Especial de Cultura. “Quem me conhece sabe que, se eu pudesse opinar, teria sugerido outro perfil. Alguém com mais experiência em gestão pública e mais agregadora da classe artística”, publicou a artista em seu perfil pessoal no Instagram, na época.

A atriz, que eternizou o “Eu tenho medo” na campanha eleitoral de 2002 durante propaganda do tucano e então candidato à presidência José Serra contra o agora ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, costuma utilizar seus perfis nas redes sociais para demonstrar apoio ao Governo. Nos últimos meses, durante a publicação das notícias com o vazamento de conversas entre o ex-juiz Sergio Moro e o promotor Deltan Dallagnol, ela utilizou o Instagram para defender ambos. “Somos todos Sergio Moro”, publicou em uma ocasião.

Ela também posta mensagens contra o Supremo Tribunal Federal: “STF. Guardião da Constituição ou da impunidade?” ou “Lava Jato está correndo perigo nas mãos do STF” são algumas das mensagens encontradas em seu perfil.

Duarte, que foi às ruas protestar a favor do impeachment de Dilma Rousseff, aproximou-se da família Bolsonaro em 2018 e chegou a postar fotos com o atual presidente durante as eleições. Em entrevista ao Estado de São Paulo naquele período, afirmou que Bolsonaro tem “uma alma democrática” e que suas declarações machistas e homofóbicas eram “da boca pra fora” e tinham mais a ver com “um humor brincalhão típico dos anos 1950”.

Alinhada com o Governo de extrema direita, a atriz é favorável à flexibilização do porte de armas. “Se o registro de novas armas aumentou 50% em 2019, não deveria haver uma explosão de homicídios, como previam os especialistas da extrema-imprensa? Ao invés disso, houve uma redução de 22% dos homicídios”, escreveu nas redes sociais.

Uma ala do Governo aposta na ida da atriz para a Esplanada e enxerga nesse movimento uma oportunidade para reduzir a crise com o setor cultural. Por exemplo, em meio à polêmica com a retirada da divulgação de filmes brasileiros da sede e da página oficial da Ancine, a atriz —assim como fizeram outros artistas, principalmente os de esquerda— usou o perfil para publicar cartazes de produções nacionais, como Deus e o Diabo na terra do sol, Tropa de Elite e Carlota Joaquina.

Por outro lado, ela criticou o filme Democracia em vertigem, de Petra Costa, indicado ao Oscar de Melhor Documentário na última segunda-feira (13/01), que retrata destituição de Rousseff. “A verdadeira história sobre o impeachment foi feita por milhões de brasileiros nas ruas e Oscar nenhum vai reescrever nossa história”, postou.

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