Nós que amamos Fellini

Grazie mille, signor Cava

 

Federico Fellini completaria 100 anos em 20 de janeiro. No museu Guido Viaro inaugurou-se, no dia 23, uma sala dedicada ao gênio. Ali está a coleção de peças reunidas durante toda uma vida por um grande admirador do cineasta. Antônio Cava nos aproxima de Fellini através de objetos, cartazes, desenhos capaz, peças de vestuário, de época. Para quem ama Fellini é uma maravilha de sentir arroubos de beijar as mãos de nosso benfeitor. Grazie mille, signor Cava.

Fiquei emocionado ao entrar na sala e mais ainda ao ser distinguido por Cava com uma chave que me faz participante de honra desse museu. Fellini sempre me remete a um passado mítico. É o cineasta que mais fez a minha cabeça porque foi quem melhor expressou, em profundidade, as singularidades de meu tempo, de minha geração. Eu não sei quantas vezes vi 8 e 1/2, e quantas ainda verei, um filme que contém todas as reflexões que me constituíram.

Sou da geração que testemunhou o fim da era da castidade e o início da liberdade sexual das mulheres. Talvez por isso sejamos bígamos incorrigíveis. Guardamos em nosso imaginário a relação de dualidade que separa as mulheres virtuosas das mulheres do prazer. As primeiras destinadas ao amor casto, à vida doméstica e à reprodução. Nestas se projeta a imagem da mãe, de quem não se admite pecado em nossa civilização ocidental, cristã e psicanalisada.

As do prazer teriam vindo ao mundo para atender as nossas expectativas que emergem abaixo da linha da cintura. As amantes, as mulheres sem tutela, sem peias, prontas para a paixão e para os relacionamentos de ocasião. Nem tudo é tão simples. Há hibridismos. Mulheres capazes de várias vidas ao mesmo tempo. A adúltera, senhora doméstica e virtuosa, que ao mesmo tempo tem como diversão preferida os casos fora do casamento, repete o comportamento masculino típico que as mulheres de formação mais recente condenam.

Conheci uma felliniana senhora que conseguia ser mãe e esposa dedicada pela manhã. À tarde prestava serviços sexuais ao chefe, o que lhe assegurava estabilidade no emprego e o pagamento disfarçado em salário mensal, que exigia pontual, impreterivelmente no dia 5, para que desaparecesse a sensação de prostituição.

Não satisfeita, à noite vestia a farsa de animadora de festas e deitava e rolava, literalmente, com todos os homens que lhe apeteciam. Duas ou três taças de vinho a ajudavam a aplacar a consciência e voltar ao lar, doce lar, cheia de pudores e a verter observações de um moralismo exacerbado para o crédulo marido.

A verdade é que assim como nós, homens formados em uma época de dualidades, há mulheres que só se satisfazem em vida promíscua. Orgasmo só se houver traição ao distinto pai ou pretenso pai de seus filhos. Os analistas freudianos tentam explicar. E a filmografia de Federico Fellini é toda construída sobre essa obsessiva compulsão para a vida amorosa que tem duas faces.

Fique claro. A mulher ideal não é aquela que reúne as qualidades das duas. O prazer só se completa quando cada qual cumpre seu papel e a vida escorre em duas vertentes. De um lado a personagem de Anouk Aimée, de outro as Saraguinas e Gradiscas. Afinal, quem não sonhou conciliar pessoas e situações absolutamente inconciliáveis? A esposa e a amante. O pé no chão e o direito de sonhar. O resgate da figura materna e a pacificação com o personagem paterno. Perguntei a uma amiga psicanalista e ela disse que essa soma de impossíveis vive, como desejo, no fundo do inconsciente de cada um. Por isso Fellini, com seu 8 1/2, toca tão fundo.

A poucos filmes se aplica tão bem a frase de Horácio nas Sátiras: “Quid rides? Mutato nomine, de te fabula narratur” (perdoe o latim). Por que ris? A anedota fala de ti, só que com outro nome. A situação desejada por homens de meu tempo seria deitar-se numa banheira, a fumar um Hoyo de Monterrey acompanhado de uma taça de champagne, cercado por todas as mulheres pretendidas e disponíveis para os prazeres e as perversões, enquanto a vida segue em outro plano, tranquila e sob controle da mulher única, casta, insubstituível. Aquela do amor eterno enquanto dura. Ao fundo, o som da marchinha circense de Nino Rota.

Seria uma epifania, desde que se aprenda a separar os sentimentos e jamais esperar das Gradiscas o que só a verdadeira pode oferecer.

 

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