O show não pode parar

Zito Alves Cavalcanti, através da sua empresa a Paracine, instalava e mantinha cinemas em todo o Paraná, chegando a ser responsável, em certa época, por todos os cinemas da capital, através de contratos de manutenção com as empresas exibidoras. Foi também exibidor, gerente, operador, passou por todos os estágios da exibição cinematográfica, além de uma memória privilegiada e detalhada como nestes relatos a mim.

Além dos cinemas comerciais, e antes da expansão da televisão, existiam cabines de projeção 35mm fixas em diversas entidades, como o Clube Curitibano, Palácio Iguaçu, Biblioteca Pública, Colégio Estadual, Secretaria de Cultura e muitos outros locais. Também com projetores portáteis 16mm, outros clubes, associações e residências exibiam filmes alugados das distribuidoras.

Na antiga Penitenciária do Ahú, projetor enguiçado, e o Zito foi chamado. Mesmo sabendo que em um par de horas veria o sol novamente, já na entrada, um certo mal-estar. A primeira porta gradeada ocupava todo o espaço. Chaves enormes, o guarda atende o funcionário e abre. O ruído provocado pelos gonzos soa como gemidos na imaginação do Zito. Em menos de cinco metros, novas grades e os ruídos se ampliam pelos corredores, provocando-lhe arrepios. A mente tensa, como se o destino de repente mudasse o roteiro da vida. O barulho das chaves no cinturão do guarda, ele também, de certa forma um prisioneiro. O projecionista, um encarcerado, estava à espera. O rapaz teria no máximo uns vinte e cinco anos, com ar desligado e parecia sonolento. Antes o carcereiro lembrou que o moço gozava, pelo bom comportamento, certas regalias, para acalmar o Zito. Era tranquilo e já estava ali há seis anos, parecia um conformado. Atendido nas reclamações sobre o projetor defeituoso, Zito lhe deu uma chave de fenda para auxiliar seu trabalho, e que certamente lhe seria subtraída. Ficou encantado pelo aparelho multiteste utilizado para medições elétricas. Guiado pelo funcionário e saída pelos mesmos corredores e portões. Perguntado pelo moço projecionista, o relato do funcionário: “Ele é muito calmo, está aqui porque matou a mãe”.

Outra situação muito emotiva foi quando aceitou consertar o projetor do então Leprosário São Roque em Piraquara, hoje Hospital de dermatologia sanitária do Paraná. Inaugurado em 1926, era como uma pequena cidade, com casas, quadras de esporte, cinema, pois o controle da doença era baseado no isolamento. Quem era internado, não saía mais, era para o resto da vida. Temeroso, Zito foi apresentado ao projecionista, que lhe relatou o defeito, e ficou admirado pela habilidade e conhecimento do homem. Curioso lhe perguntou quem lhe teria ensinado tudo. Fora o projecionista anterior, que morrera recentemente. Abalado, Zito se despediu e retornou a Curitiba com um nó na garganta.

Mas teve também seu momento de glória. Cine Excelsior, depois Cinema Um, na rua Saldanha Marinho, quase esquina com a Visconde de Nacar, se entrava por duas grandes portas embaixo da tela, defronte a plateia. Cinema lotado, sessão para as oito e já com mais de meia hora de atraso, problema de defeito na cabine de projeção, técnico chamado. Gente na bilheteria pedindo o dinheiro de volta, agitação, assobios, impaciência. Surge o Zito numa das portas com sua pasta de instrumentos e ferramentas. A plateia explode em aplausos gritaria de “agora começa”. Tomado pelo susto, quase deu meia volta para sair, constrangido, mas foi rapidamente ao fundo da sala para acesso à cabine de projeção. A sessão começou em seguida. Saiu no escuro.

 

Foto: Zito (1924 – 2008) em sua oficina na Paracine em 2007.

Foto: Leprosário São Roque.

Foto : local onde funcionou o Cine Excelsior, depois Cinema Um.

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