Tempo de apedeutas

Tenho sofrido críticas, ataques de hackers, ofensas, especialmente da banda a destra em seu triunfalismo desde que ganhou as eleições e empalmou o poder no país. Que fazer? Aprendi com o Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, que em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se alguém não gosta de uma declaração ou um pensamento, deleta, desconecta, insulta e bloqueia.

Perdeu-se a profundidade das relações. Perdeu-se a conversa, a interlocução que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida. Assim instala-se naturalmente a desinteligência que não comporta mais que um pensamento maniqueísta, por isso mesmo limitado, apedeuta.

Eu sofri 28 processos de petistas e assemelhados nos anos do reinado de Lula. Era um crítico permanente. Nessa época hostilizado, caluniado, ofendido pela malta que estava no poder e dele procurava vantagens de toda monta. Da menor sinecura aos assaltos vultosos que escandalizaram o país. Mas isso não me transformou em adepto da outra face da mesma moeda do populismo chinfrim, que é a desgraça nesta parte do mundo que não teve século XVIII. Aqui, onde o iluminismo não chegou, Dona Maria, a Louca, mandava esquartejar Tiradentes enquanto as revoluções libertárias no mundo anunciavam a modernidade.

Aqui, as formas do fascismo moldaram o poder no governo de Jair Bolsonaro. Não me surpreendi com o delirante discurso sobre o que considera o “renascimento da arte” no Brasil, feito pelo secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, que não se limitou a plagiar espantosamente Joseph Goebbels, o gênio do mal da propaganda hitlerista. Alvim, num tom triunfalista, trouxe à tona elementos que, há 90 anos, constituíram, no que toca à cultura, o nascimento do fascismo europeu e de sua forma germânica, o nazismo.

A ideia de que o povo precisa ser salvo de uma “cultura doente” (primeiro sintoma, ele diz, de uma doença social) ecoa claramente a noção nazista da “arte degenerada”, a ser expurgada. Parecido com o afã purificador que, em Berlim, fomentava no grande público, o horror a tudo que respirasse liberdade, crítica, transgressão, pluralidade.

Na versão brasileira, Alvim acrescentou ingredientes do teofascismo, tendência política emergente tanto no fundamentalismo islâmico quanto na onda neopentecostal. Ele o faz ao vincular seu projeto de “arte da nova década” não só à família, mas à fé cristã da imensa maioria do povo brasileiro: Alvim crê numa pretensa revolução dos já proverbiais homens de bem contra o mal, esse alvo móvel representado por tudo o que foge à bitola equestre dos luminares das trevas que conduzem o Brasil à Nova Idade Média.

Pois bem, creio que ninguém que tenha consciência social mais ampla, pode ignorar essa ameaça que paira sobre nós. Sou crítico desse governo de Bolsonaro, Alvim e todos os outros filhotes de Goebbels e Olavo de Carvalho. Ora, pois, não consigo engolir esse modelito de meia confecção que acentua desigualdades enquanto tece loas ao regime militar, aos torturadores e estimula milícias.

Que fazer? Vou continuar porque não vim ao mundo a turismo ou para tocar flauta. Sei das consequências. Mas estamos aí, como se dizia, para uivar contra os liberticidas de qualquer extração. E contra todas as formas de elogio da ignorância e da burrice. Não sei viver de outra maneira.

 

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