Uma perfeita xícara de chá, segundo Orwell

George Orwell, escritor nascido na Índia britânica em 1903, é conhecido por obras fantásticas como “A Revolução dos Bichos” e “1984”. Definitivas. Mas nem só de literatura era feita a cabeça do grande escritor. Um homem metódico, de gostos e costumes rigorosos, como todo britânico que se preza.

Orwell bebia chá. Levava muito a sério esse hábito. Tanto que dedicou a ele, em 1946, o ensaio “A Nice Cup of Tea” (Uma boa xícara de chá, em tradução livre). Nesse texto, Orwell estabeleceu suas regras para o que considerava uma perfeita xícara de “English tea”.  Duas delas são consenso geral, mas pelo menos quatro outras são “gravemente controversas”, reconhece ele. Confesso que não consegui adotá-las, mas creio que vindo de Orwell merecem ser conhecidas. Vamos a elas:

 

1 – Deve ser feito em quantidade pequena, ou seja, em um bule de chá. Em recipientes maiores, ele tende a perder o gosto. O bule, por sua vez, deve ser feito de porcelana ou cerâmica. Bules de outros materiais, como prata, produzem um chá inferior.

2 – O chá deve ser forte. Seis colheres de chá é o recomendável, mas nem sempre é possível. Orwell defende que “uma xícara forte é melhor que vinte fracas”.

3 – As folhas ou ervas devem ser colocadas no bule. Nada de peneiras, saquinhos ou “outros aparatos que aprisionam o chá”. Ele argumenta que, se a preocupação é engoli-las, folhas podem ser ingeridas em quantidade considerável sem fazer mal. Se a planta não estiver solta no bule, diz, a infusão não se faz devidamente.

4 – Tirar a nata do leite antes de misturá-lo à bebida, como fazem os britânicos, para que não fique com um gosto enjoativo.

5 – Colocar o chá na xícara antes do leite. Esta pode parecer uma orientação inofensiva, mas Orwell a define como “um dos pontos mais controversos de todos”. Em cada família britânica, segundo ele, distinguem-se duas escolas de pensamento sobre o assunto. Mas seu argumento, dito incontestável, é que colocando o chá antes e mexendo enquanto se derrama o leite em seguida é possível regular a quantidade exata que se quer, sem correr o risco de errar a proporção.

6 – Chá deve ser bebido sem açúcar, capaz de destruir o sabor da bebida. Faz tanto sentido acrescentá-lo quanto pôr pimenta e sal. Orwell defende que chá é para ser amargo, assim como cerveja. “Você poderia preparar uma bebida muito similar dissolvendo açúcar em água quente pura”, ironiza.

 

A receita de chá não foi a única deixada por Orwell. Ele assina dois outros ensaios da mesma época, “In Defence of English Cooking” (Em defesa da culinária britânica), de 1945, e “British Cookery” (Cozinha Britânica), de 1946. O primeiro também traz receitas, como as de pudim Yorkshire e marmelada.

 

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