A insanidade no poder

Em meio à insanidade que passou a dominar a vida brasileira desde a ascensão do governo conservador, retrógrado, de uma direita que se orienta por toscas teorias políticas e religiosas, ganhou importância a guerra no front cultural.

À sucessão de sandices defendidas pelo bolsonarismo, como a defesa do criacionismo, do terraplanismo e da abstenção nas relações sexuais para evitar a transmissão de doenças, corresponde uma ampla ação que pretende mudar os padrões culturais e impor nova ideologia.

Por ódio ou ignorância, os agentes do governo decretaram que cultura é coisa da esquerda. E abriram fogo contra todos os artistas e produtores culturais. Nada surpreendente. Mandantes autoritários, totalitários, sempre tentam substituir uma ideologia por outra desde os primórdios.

Bilhares de livros foram incinerados em praças públicas na China da Dinastia Qin, 200 anos antes da Era Cristã, na Alemanha nazista e nos primeiros tempos da revolução soviética. Tentativas de apagar registros e reescrever a História. Na era digital, direita e esquerda tentam fazê-lo queimando reputações.

Num vale tudo deplorável para destruir uma imaginária hegemonia ideológica da esquerda nas artes, Bolsonaro reduziu a pó a força da cultura dentro da administração federal,

Fez mais. Cortou incentivos e possibilidades de captação de financiamento, procurou excluir artistas do cadastro de microempreendedores individuais, impôs isenções de cobrança de direitos autorais. E se dá ao papel de esculachar o cinema brasileiro e nomes respeitados da arte nacional.

De forma coerente, Bolsonaro entregou a gestão de sua política cultural aos incultos. Exemplo gritante. O presidente da Funarte (Fundação Nacional das Artes), Dante Montovani, diz que o rock é algo satânico – “que ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto” – e os Beatles e Elvis Presley agentes soviéticos contra a cultura ocidental. Nem o melhor humorista conseguiria reunir tanta asneira de uma só vez.

Para além da piada reside a visão torta de substituir a cultura, que estaria dominada pelo comunismo, de acordo com os discípulos do guia e mestre Olavo de Carvalho, um filósofo charlatão venerado pelos Bolsonaro.

Quando não tem outra justificativa para seus atos discricionários, o movimento anticultura do governo de Jair Bolsonaro se sustenta no velho e enferrujado argumento da defesa da moral e da família.

Uma cartilha inibe manifestações culturais de negros e LGBTs, com produções suspensas pela Caixa Cultural. Condena o Carnaval, maior festa popular do país, porque considera anticristã e imoral. Por decreto, estabeleceu “filtros” que impedem projetos classificados como pornográficos.

A reação a esse surto de insanidade ainda é pouco articulada e se perde com facilidade no debate de baixíssimo nível que favorece a banda governista. Sem contar manifestações de adesismo explícito por parte de sôfregos habituados a verbas e sinecuras e que passam a elogiar a atriz Regina Duarte, nova gestora da cultura de Bolsonaro, certamente a imaginar que ela pode reabrir o cofre para os amigos. Por que não faria? Afinal seria a forma mais antiga e eficiente de cooptar os pobres de espírito.

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