Em preto e branco

Fotografias em preto e branco me causam uma séria ambiguidade. Ao falar artisticamente, para mim, são as melhores e as mais belas. Quando as admiro guardo um forte impacto visual e emocional. A sensibilidade sobre uma foto em branco e preto passa necessariamente pela ausência das cores, não importando a cena retratada. Pode ser um garoto jogando bola, uma família reunida, um bebê ou mesmo amigos do peito. É uma cena que evoca o passado e traz uma melancolia imediata.

Acontece que tenho motivos de sobra para essa tal ambiguidade. Tudo começou lá pelos idos dos anos sessenta quando minha família, morando em Curitiba, recebeu do interior do Pará uma carta com a notícia do falecimento do meu avô paterno. Ao ser aberto aquele envelope, notei que junto com a epístola viera uma fotografia. Olhei para o meu pai que manuseava a foto, o vi ali parado, completamente lívido. Leu a carta em silêncio e disse: “ O meu pai morreu”. Sem dizer mais uma única palavra, repassou aquela imagem para o resto da família.

Era uma fotografia em branco e preto tendo ao centro um caixão aberto com o meu avô ali deitado. Observei que o esquife fora inclinado propositadamente para expor melhor o corpo. Ao redor, a minha avó e demais parentes. Todos bem vestidos e circunspectos. Aquela foto macabra foi um choque violento. Ver o meu querido ‘vovô’ que tanto me alegrara com seus carinhos e mimos, ali, eternizado naquela situação mórbida, passou dos limites para uma boa sanidade futura. Jovem demais, não imaginava que fotografar mortos era uma praxe entre os antigos para guardarem como lembrança dos entes queridos que partiram dessa para a pior. Obviamente que aquela foto se fixou para sempre nas minhas conturbadas memórias.

Voltei a lembrar-me daquela foto em setembro de 2001 ao assistir o filme Os Outros (The Others) do diretor Alejandro Amenábar, que de forma perturbadora trata da morte e das lembranças inevitáveis que ela deixa nos parentes, o suficiente para trazer os que se foram de volta. Alejandro procurou fortalecer essa impressão ainda mais ao inundar a tela, em determinados momentos, de fotografias em preto e branco de pessoas mortas. A associação com a fotografia do meu avô foi inevitável e mesmo passados mais de cinquenta anos, o fato é que isso ainda me perturba.

Hoje, todas as vezes que me deparo com fotografias em preto e branco, não consigo dissociá-la dos mortos. O pior é que, em geral, essas fotografias, as antigas, retratam mesmo pessoas que já morreram. São belas e mórbidas. Daí o sentimento ambíguo que me acomete, mesmo quando visito uma maravilhosa exposição de Henri-Cartier-Bresson, um mago do retrato em branco e preto. Fico em êxtase e ao mesmo tempo assustado. Vou procurar um psicanalista.

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