Intolerância radical

Embora a pobreza do discurso político brasileiro – tanto do governo como da acuada oposição – nunca tivemos, paradoxalmente, tanta ideologia a condicionar os comportamentos. A direita, hoje vitoriosa, não tem a articulação doutrinária do discurso integralista dos anos quarenta e cinquenta e da formação de quadros, inclusive em retórica, um dos fortes dos águias brancas. Mas aquela época era apropriada aos totalitarismos e governos fortes como os do eixo, Alemanha-Itália, como de resto tal se dava em nosso país com a ditadura varguista e a força do seu corporativismo que importou a legislação do trabalho e um dos que nela atuou foi Lindolfo Collor, apontado como seu proponente.

O pior é que essa falange do bolsonarismo sem conteúdo e pensamento, é fortemente arregimentada em torno do chefe e isso vale mais do que uma doutrina na medida em que expressa uma fidelidade incomum desde o andamento da campanha eleitoral no uso massivo das redes sociais. Apurou-se por exemplo num determinado momento que o presidente tinha um montante de acessos de 8 milhões de engajados, sem falar que cada um dos seus filhos acionava um milhão e meio de adeptos. Sua comunicação, ainda que grosseira, é coloquial e revela interação e o estilo de falar, o de briga de rua, insere-se na visão de processo do guru Olavo de Carvalho. A ideia de que o sistema vitorioso sofre ameaça das instituições como o Congresso e o STF, o que não é verdade, alimenta a mobilização já marcada para 15 de Março como suposta resposta das ruas à chantagem referida pelo general Augusto Heleno por parte de parlamentares e do orçamento impositivo. Não é a primeira vez que o país enfrenta o furor do fanatismo, seguramente hoje numa outra escala com os recursos de manipuladores da internet, mas é preciso que haja, para equilibrar as coisas, mais democratas a defender o que construímos como consenso e nossas normas de convívio. E para reagir é indispensável melhor identificar o adversário e partir para o convencimento e a persuasão. Irracionalidade, instinto e anti-intelectualismo são capazes de recriar um clima semelhante ao da Guerra Fria.

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