Missa em latim em Curitiba

O jovem padre Anderson Bonin não está interessado em responder ao avanço
pentecostal, que a FAPESP aponta como desafio aos católicos. Mas suas
missas tridentinas atraem multidão

Na edição de janeiro do Jornal Universidade (pode ser acessado na web –
www.cienciaefe.org.br) o leitor encontrará, e também na sua edição impressa, um dos mais importantes estudos sobre o avanço evangélico no Brasil. Trata-se de avanço que é, fundamentalmente, das denominações de linha pentecostal e neopentecostal. O maior perdedor no caso é a Igreja Católica, que em 1980 detinha a escolha de 90% dos brasileiros. Hoje seriam católicos não muito mais do que 50%.
O estudo em questão tem a assinatura da FAPESP (Fundaçao de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), respeitabilidade acima de suspeitas, portanto.
MUITAS CAUSAS
O trabalho aponta vários caminhos para a compreensão do fenômeno. Eles vão da perda da identidade do antigo morador no habitat rural “jogado” nas periferias urbanas, ao sugerido abandono (?) da Igreja Católica voltado às classes pobres, em favor da classe média. Isso sem contar a grande realidade do peso com que a administração das dioceses se movimenta. Esse peso das dioceses recairia sobre a movimentação católica, gerando a dependência de burocracias lentas para a criação de paróquias e
capelas, até o longo período para formação do clero e obstáculos, “como o celibato dos sacerdotes”.

A VIDA CONTINUA
Ao mesmo tempo, este site, interessado no fenômeno religioso no país, tema de antropologia cultural, foi examinar ângulos sobre como continua a vida em algumas comunidades católicas em Curitiba, apesar do avanço do pentecostalismo.
Aliás, esclareça-se: não apenas a Igreja Católica perde fieis com o avanço pentecostal e neopentecostal. A FAPESP indica que igualmente são afetadas pelo fenômeno as igrejas do protestantismo histórico (batista, metodista, presbiteriana, luterana…).
MISSA EM LATIM

Mas pelo menos num dos braços pequenos, mas vigorosos, do catolicismo conservador em Curitiba, a expressão de fé “vai muito bem”, conforme me assegura o jovem padre Anderson Bonin, do clero secular, hoje responsável pelas celebrações das missas em latim que ocorrem aos domingos às 17 horas, na Capela Nossa Senhora da Glória, Alto da Glória. Padre Bonin, um jovem simpático, bem articulado verbalmente e com visível liderança na paróquia da periferia de Curitiba, onde exerce seu ministério e celebra apenas em português, “caiu de paraquedas” na chamada missa em latim.
AS MORTES
Explico: com as mortes de monsenhor Luiz Gonzaga Gonçalves (Igreja da Ordem) e do padre Paulo Iubel (Igreja da Imaculada Conceição, no Guabirotuba), os tradicionalistas, mesmo que amparados por moto próprio do papa que faculta às dioceses terem espaço para a chamada “missa tridentina”, em latim (na verdade, Missa sacramentada por João 23), ficaram sem aquelas celebrações.

APRENDENDO A REZAR
Procurado pelo tradicionalistas, Bonin aceitou celebrar a missa em latim. E foi aprender a rezá-la na Administração Apostólica São João Maria Vianney, em Campos, estado do Rio de Janeiro. Lá ficou dois meses, estudando latim básico e a realizar celebrações de missa e outras liturgias na língua de Ovídio. Isso foi em 2017. Voltando a Curitiba, conseguiu que a Arquidiocese abrigasse o grupo na restaurada Capela da Glória, Avenida João Gualberto, espaço oficialmente sob os cuidados do padre José Aparecido, ecônomo da Cúria Metropolitana.

GRANDE ACEITAÇÃO
Bonin, um padre muito obediente às ordens da hierarquia, recorda que o arcebispo Dom Peruzzo reconheceu, a dar-lhe autorização para as missas em latim, que há uma considerável parcela de fieis que requisitam a celebração chamada de tridentina.
O sacerdote confirma: suas missas na Capela da Glória deixam o espaço lotado. Pessoas apinham-se no lado de fora, em busca de participar da celebração, de alguma forma.
INSTITUTO BOM PASTOR
Criado por Bento XVI, o Instituto Bom Pastor nasceu na França, com o direito de – reconhecendo o Concílio Vaticano II de forma plena – exercer a liturgia católica em latim. Crescendo no mundo todo, está há dois anos em Curitiba e é forte em São Paulo. Todos os sábados à tarde e no domingo, às 10 horas, um padre do Bom Pastor, agora residente em Curitiba, celebra missas e outras funções litúrgicas na primeira língua da Igreja Católica, na capela enorme do Colégio Bom Jesus-Nossa Senhora de Lourdes, no Cajuru. As religiosas de São José de Chamberry alugam o espaço para as celebrações semanais e o padre dá atendimento durante a semana aos que o procuram no seu endereço residencial.

ADMINISTRAÇÃO APOSTÓLICA
Por anos seguidos, a Administração Apostólica São João Maria Vianney ministrou missas quinzenais aos domingos na capela do Hospital Militar de Curitiba. Dom Fernando Riffan, o superior da administração, chegou a celebrar missa em latim no local algumas vezes. Hoje esse braço tradicionalista da Igreja, reconhecido pela Santa Sé, celebra ainda missas ocasionais no local, quase sempre rezadas pelo padre Jonas Lisboa.

 

INGREDIENTES QUE AGRADAM
Padre Anserson Bonin não se faz de vítima, mas, sob insistência minha, acaba confessando que “muitas vezes” sofreu algum tipo de preconceito por preservar a missa em latim e participar de uma linha católica tradicionalista, embora aja sempre sob total aceitação do Concílio Vaticano II. E em acatamento ao arcebispo Peruzzo. Atribui a um padre que é verdadeira unanimidade no clero curitibano, André Biernaski, da Paróquia Nossa Senhora Aparecida (Seminário), então diretor do Seminário Rainha dos Apóstolos, o grande incentivo para ordenar-se. Deu-lhe apoio total. Jovem, 35, culto, bom de discurso, sem ser um “show off” – pelo contrário, é discreto – padre Anderson é um agregador “por natureza”, como afirma um estudante de Medicina, participante do grande retiro que o Movimento Evangelizador Luz e Vida realizou em janeiro deste ano.
Em vias de concluir sua pós-graduação em Teologia pela PUCPR, Bonin gasta, na verdade, 95% de seu tempo pastoral com a pregação de uma linha de retiros espirituais nascida na Polônia (onde o conheceu), chamado Luz e Vida. Tudo em português, nada a ver com o latim.

A ênfase do movimento recai sobre um trabalho que exige profunda imersão espiritual, vida de oração e descoberta do cotidiano cristão. Seu público, por ora, centra-se na sua paróquia da periferia de Curitiba, com enormes e bons resultados.

Fotos:

Padre Anderson Bonin (foto: Hélio Martins de Freitas)

Padre André Biernaski

 

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