Querer e dever

É muito bom quando queremos fazer algo. Aliás, é ótimo quando queremos algo, pois o querer está ligado ao prazer. Faço algo porque quero, pois, esse algo é bom demais, e isso me traz satisfação. Até aí perfeito. Vai tudo bem. As coisas começam a se complicar quando não temos vontade. No dia a dia somos até capazes de fazer alguma coisa, mesmo sem vontade. Todos nós já experimentamos situações assim. Quem já não atendeu a algum convite e acabou indo por questões protocolares ou por consideração a quem convidou? Tudo muito normal. Tudo muito do dia a dia.

O ponto a ser levantado aqui é quando aquele convite está ligado a algo prazeroso e mesmo assim é recusado por falta de vontade. Indo só teríamos a ganhar e mesmo assim não vamos. Um churrasco com amigos que gostamos, uma viagem para um destino fantástico e tantas outras situações que nos dariam normalmente muito prazer e não aceitamos. Estou me referindo à falta de vontade que é patológica. Aquela ligada à depressão. Onde sair da cama é um martírio. Tomar banho é um esforço hercúleo. Alimentar-se não parece sequer necessário. Há uma falta de sentido nas coisas mais básicas, que dirá naquelas que exigem um esforço a mais, mesmo sendo boas.

Nesse tocante, trago sempre ao paciente à seguinte questão: Vamos trabalhar com o dever que está acima da vontade. Nossa mente está dividida em duas partes: A inferior, ligada ao corpo físico, movida pela vontade e pelos desejos. A superior, ligada ao espiritual e ao dever.

No momento que, por alguma razão, estamos passando por um processo depressivo, sublimemos a necessidade de fazer as coisas. A medicação ajudará. O terapeuta ajudará, mas nada acontecerá sem nós. Sem o nosso comando. Esse comando passa pela consciência do dever. Façamos as coisas nesses momentos de total falta de vontade, pela sublimação da necessidade do fazer. Esse é o primeiro passo em direção à saída dessa inércia que depressão nos leva. Fazer porque tem que ser feito, independente da minha vontade. Não negocio com a personalidade, apenas faço. Essa é uma questão que muitas vezes não é colocada e ficamos reféns dos remédios e das terapias. Não se trabalhou a necessidade de fazer mesmo sem vontade. A mágica disso acontece quando, em algum momento, o dever encontra a vontade. Nesse momento damos um salto quântico em nossa existência e sentimos o nosso verdadeiro poder, o da superação.

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