Vai recomeçar a pantomima eleitoral

Ainda não há sinais da turba. Mas logo virão. Prepare-se para mais um ano eleitoral. Teremos os detestáveis ruídos das eleições. Os comícios, carros de som, jingles idiotas. A propaganda política no rádio e na televisão.

As calçadas que estão limpas serão ocupadas mais uma vez pelos cavaletes e pela fuça dos candidatos. Vamos passar a correr o risco de uma abordagem a bombordo, outra a estibordo, de candidatos, cabos eleitorais e de torcedores de candidatos.

A eleição municipal deste ano, para a escolha de prefeitos e vereadores, pode ganhar dimensão plebiscitaria. Vai dizer que forças estão vivas e têm alcance para projetar a disputa de 2022, quando o poder na República e nos Estados estará em jogo.

Jair Bolsonaro será julgado, queira ou não, pelos brasileiros eleitores. Um insucesso muito grande mostrará sua fragilidade e os riscos da não reeleição. Na outra ponta, as esquerdas tentarão se reorganizar e acumular forças. Lula poderá exercer o papel de grande eleitor. Os tucanos, o MDB, o DEM, o PP, tentarão demonstrar força.

Enfim, pelas primeiras amostras e pelo que elas significam em plano mais amplo e orientado com vistas a 2022, as eleições deste ano tendem a descer o debate político ao nível das cloacas. Será um confronto na base do cacete. A previsão é de uso intensivo da internet para desancar adversários.

Há um lado bom a ser considerado. Sempre há. Na crise em que vivemos, a eleição abre vagas temporárias para os profissionais que estão sem trabalho. A começar pela malta de marqueteiros que deverão usar a imaginação e convocar aquela fauna que pode render na propaganda

É a oportunidade para o grotesco. Anões de aluguel, noivas de fachada, heróis de fancaria, filósofos de latrina, atores fracassados, bebês coadjuvantes, cheerleaders histéricas, representantes das minorias, padres e pastores a soldo, ciclistas de passeata, publicitários, analistas, pesquisadores, ghost writers e assessores de todo tipo e catadura terão a chance de ganhar algum.

Quem não quer passar por essa experiência, é bom preparar e blindar seu nicho de civilização para evitar a invasão dos bárbaros. É a única proteção para os que estão fartos do festival de asneiras, preconceitos, moralismo chinfrim, agressividade vazia e debates marcados pela intolerância e pela mediocridade.

Qualquer pessoa sem ânimo político de torcedor de futebol e com algum senso crítico, deve admitir que a política nunca desceu a padrão tão deplorável como o que devemos presenciar nas eleições deste ano. Basta examinar a folha corrida e o discurso dos candidatos. Descarnadas as exceções que confirmam agregar, é uma lástima. Seria cruel demais compará-los com os políticos de gerações anteriores. Mas, como diria um sábio paroquial, é o que temos.

De dois em dois anos as eleições nos lembram que a absoluta maioria da população está imersa no breu da ignorância e é presa fácil dos políticos nativos que se mostram, quase todos, dotados de uma ambição de mando, uma sede de poder absolutamente desproporcionais ao seu preparo para governar.

Mais entristecedor é constatar que não poderia ser diferente. Quem elege é um povo em que a grande maioria não sabe o que é o mundo além de seu bairro e da sua igreja, que acredita piamente na palavra do primeiro pregador que lhe prometa mais que o reino dos céus.

Estadistas? Piada. Nesta área do planeta a política é jogo bruto, dominado por sentimentos e paixões que se podem chamar de negativos: o ressentimento, a mágoa, a inveja, o orgulho ferido. As grandes palavras, as ideias, os altos propósitos patrióticos ou impatrióticos servem para mover e até arrebatar partidários e admiradores que entram em cena com a esperança de garantir uma sinecura, uma prebenda, uma vantagem qualquer extraída do erário.

O que anima chefes e chefetes políticos são motivos pessoais nem sempre grandes ou estimáveis. Eles encenam a pantomima, se reelegem, descem do palco e voltam a sua atividade rotineira, secreta, longe dos olhos do público. Uma vez ou outra se desentendem e algo vem à luz.

Mas não devemos perder completamente as esperanças. Isolar-se para evitar o mal-estar ajuda a colocar em risco a democracia. Há sinais preocupantes. Quando o presidente Jair Bolsonaro convoca sua horda para agredir o Congresso, revela-se o desprezo que elevem pelas instituições democráticas. É preciso acreditar e trabalhar por um dia em que teremos um jogo político menos bruto, mais limpo, mais guiado pela razão que pelas emoções baratas produzidas pelo espetáculo das campanhas eleitorais. Talvez não estejamos aqui. Talvez leve cem ou duzentos anos. Mas devemos acreditar na evolução da espécie nativa.

Acredito que ainda será vitorioso o impulso libertário, essência das aspirações de nosso tempo, que procura reafirmar a liberdade e os direitos do cidadão diante da máquina do Estado, que a inspiração patrimonialista e tecnocrática tornou grande demais e opressiva, quando não opressora, e que tutela o sistema de escolha a partir do controle da massa de miseráveis.

Como dizia Leibnitz e agora também a horda instalada nos palácios, tudo está bem, no melhor dos mundos possíveis. Frase que levou o francês François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire, a escrever dois ou três de seus melhores livros. Prefiro Voltaire.

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