Editorial. Ed. 222

O presidente Jair Bolsonaro é o único líder eleito no mundo que continua a negar a gravidade da pandemia do coronavírus. Um leigo, de rasa formação científica, se põe a pregar na condição de presidente da República.  Irresponsável, boicota ações sanitárias determinadas pelo Ministério da Saúde de seu próprio governo. Ensandecido, sai pelas ruas, gera aglomerações e contato físico. Comete crimes comuns e crimes de responsabilidade.

Populista chinfrim, não hesita em colocar seu futuro político-eleitoral acima da vida de milhares de brasileiros e vende a ideia de que a economia não pode parar mesmo que morram pessoas “com alguma deficiência”. Bolsonaro atinge o ápice da crueldade ao pedir que a população se sacrifique em nome de uma fantasia.

Para convencer o trabalhador brasileiro, Bolsonaro mente. Não tem números, não tem estudos, não tem evidências. Chega a distorcer declaração do diretor da Organização Mundial da Saúde, favorável à quarentena, para proclamar que “a OMS se associa a Jair Bolsonaro”.

A tese de Bolsonaro é tão pífia quanto a de que a terra é plana. Refutada por cientistas da área da saúde de um lado e por economistas de outro.  A lucidez diz que se medidas sanitárias não forem respeitadas, o desastre será também econômico, mais profundo e duradouro. Crise econômica não é hoje uma escolha. A escolha está entre atravessá-la com mais ou menos mortes.

Não há quem conteste a ciência, a não ser Bolsonaro e seus súcubos. Não há teoria que sustente a negação do óbvio. Nenhuma corrente: liberal, democrática, constitucionalista, constitucional, conservadora ou cristã. De Hobbes a Arendt, de Locke a von Mises, de Rousseau a Hayek, de Wolstonecraft a Angela Davis, de Burke a Scruton, de Gandhi ao Papa Francisco, qualquer um deles concorda que é impossível seguir as ordens e apelos de um presidente que demonstra seu desatino em arroubos absurdos. O presidente e seu entorno mais radical – sobretudo seus filhos – divulgaram e incentivaram medidas contra o isolamento ou fazendo ênfase sobre possíveis curas para o coronavírus.

A insurreição institucional demorou, mas aconteceu: primeiro, do Judiciário, logo do Legislativo, que tomam decisões à revelia do presidente. Logo se expandiu do plano federativo, com prefeitos e governadores anunciando o não cumprimento de medidas federais; e, por fim, em seu próprio ministério, com o surgimento da curiosa coalizão entre Guedes, Moro e Mandetta para reduzir o dano e prevenir o descalabro final.

O que acontece quando o presidente pede para deixar morrer? A insurreição pode desembocar na desobediência social e individual. Quando chegar ao ponto da convulsão, haverá outras razões para não sair de casa. Mas, vejamos, o motivo de querer o caos se deve à própria natureza do bolsonarismo, que precisa do conflito para se manter e se expandir.

Bolsonaro poderia encontrar na convulsão social a justificativa que precisa para tentar concentrar ainda mais poder em suas mãos, seja a partir de operações de Garantia da Lei e da Ordem ou da decretação de um Estado de Sítio. A tentação de um golpe se apoia na cultura política dos defensores de Bolsonaro, que não desistem da pregação pelo fechamento do Congresso e do Judiciário.

 

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