É preciso parar Bolsonaro

Insanidade, egocentrismo, delírio de grandeza, cálculo político, má-fé ou tudo isso junto. Os analistas políticos lançam mão de ensaios de psiquiatria para decifrar a personalidade do presidente Jair Bolsonaro e entender melhor seu comportamento, principalmente desde que as circunstâncias de uma pandemia que assola o planeta e se mostra agressiva e letal escancararam a sua irresponsabilidade. O que levou a crescer a tese e o movimento que acredita na necessidade de apear Bolsonaro, que se mostrou um risco.

O presidente não tem nenhum controle sobre a peste e isso o irrita. E mais irritado fica quando o comando contra o coronavírus se transfere do leigo ignorante para os especialistas em saúde pública de seu governo. Bolsonaro tentou convencer a todos a ficar com sua tese, a de que a pandemia que já matou milhares de pessoas em todo o mundo não passa de uma gripezinha.

Fez mais. Passou a desmoralizar o trabalho de seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e os esforços de todo o sistema de saúde pública, de prefeitos e governadores, entrando em campanha aberta contra o isolamento social. De forma irresponsável pregou a desobediência civil contra a saúde pública. Dobrou a aposta. Dispôs de cerca de R$ 5 milhões para contratar, sem licitação, a IComunicação, para, entre outras tarefas não explicitadas, divulgar a campanha “O Brasil não pode parar”. O vídeo acabou derrubado pela Justiça, mas antes rodou no Instagram, YouTube, Facebook e Twitter.

O slogan oficial contra o isolamento social, na verdade já havia provocado engulhos ao ser dito pelo empresário bolsonarista Junior Durski: “O Brasil não pode parar por 5 ou 7 mil mortes”. O conceito imita a campanha #MilãoNãoPara (Milano non si ferma), lançada há um mês, quando a cidade italiana registrava 12 mortos e seu prefeito culpava o alarmismo da mídia pelo baque na economia local. Mais de 4,4 mil mortes depois, Giuseppe Sala fez seu mea culpa.

Voz isolada no mundo, Bolsonaro metralha no sentido inverso dos esforços para conter a epidemia. Igual o dono do Madero, desdenha da vida: “Infelizmente algumas mortes terão. Paciência, acontece, e vamos tocar o barco”. Nessa altura, até os que politicamente lucram com as sandices diárias do presidente concordam com a urgência: o Brasil tem que parar Bolsonaro.

 

Mais uma guerra

Bolsonaro iniciou mais uma guerra. Disparou tiros para todo lado, alguns fatais, como o afrouxamento do isolamento social, outros nos seus próprios pés. Na tentativa de destruir desafetos, acertou a culatra ao dar palanque nacional aos governadores de São Paulo, João Doria, e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, pré-candidatos à Presidência em 2022. Ou seja, seus adversários diretos.

Com atuações determinadas, transparência de dados e entrevistas diárias, os dois governadores passaram a ser vistos como dirigentes lúcidos e preocupados com a população de seus estados, em contraponto a um presidente egoísta, incapaz de perceber que a vida vale mais do que a bolsa.

Embora cuidar da saúde e costurar saídas econômicas para evitar o caos não sejam temas excludentes, o presidente insistiu em antagonizá-los. Bolsonaristas comemoraram as várias carreatas realizadas em seis estados e outras programadas em favor da reabertura do comércio. Embora os carrões demonstrassem ser um ato de patrões, isso animou Bolsonaro a dizer que são os próprios trabalhadores que querem voltar ao trabalho. “Esse negócio de confinamento aí tem de acabar…Deixem os pais, os velhinhos, os avós em casa e vamos trabalhar.” Faltou explicar ao público de que maneira os mais novos podem ir trabalhar sem correr o risco de se infectar e transmitir o vírus para os pais, os velhinhos e os avós, a insensibilidade do presidente mais uma vez se escancarou.

Isolado politicamente, Bolsonaro dobrou a aposta na radicalização de sua base e estimulou as carreatas de empresários em várias cidades pedindo pela reativação das atividades desde a sexta-feira. Além disso, mais uma vez driblou todas as orientações de médicos e especialistas e passeou no domingo por mercados e centrais de vendedores ambulantes na periferia de Brasília. Durante o chamado “coronatour”, o presidente cumprimentou cidadãos de Taguatinga, Ceilândia e Sobradinho, além de reforçar sua tese de que é importante fortalecer a economia. Alguns analistas acreditam que Bolsonaro não quer ser visto como responsável pela recessão na economia, diante de mortes inevitáveis, segundo sua visão. Por outro lado, se governadores e prefeitos têm sucesso em suas medidas e consigam conter o coronavírus, ele ainda poderia argumentar que estava certo ao dizer que não havia demasiados riscos para a saúde da população.

O presidente e seu entorno mais radical — sobretudo seus filhos — também divulgaram e incentivaram medidas contra o isolamento ou fazendo ênfase sobre possíveis curas para o coronavírus. O Twitter decidiu pela primeira vez barrar conteúdo compartilhado pelo presidente e sua entourage e apagou dois vídeos que havia postado contra o isolamento social. Depois, o Facebook e o Instagram decidiram fazer o mesmo, após considerar que o conteúdo promovia a desinformação. O vídeo mostrava o presidente conversando com um ambulante: “Eles querem trabalhar. É o que eu tenho falado desde o começo”, dizia. “Aquele remédio lá, hidroxicloroquina, está dando certo em tudo o que é lugar”, continuava. Em nota ao portal BBC News Brasil, a rede social justificou a remoção dizendo que “viola nossos padrões da comunidade, que não permitem desinformação que possa causar danos reais às pessoas”.

 

Chacota no mundo

“O movimento negacionista do coronavírus agora tem um líder”. Foi com essa manchete que a revista norte-americana The Atlantic descreveu os discursos diários do presidente Jair Bolsonaro contra as medidas de distanciamento social decretadas por governadores e prefeitos e recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo próprio Ministério da Saúde para conter a pandemia do coronavírus. No início da crise, ele parecia seguir os passos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que também minimizava os efeitos do coronavírus. Mas até mesmo Trump, vendo que seu país se transformara em epicentro mundial do novo vírus, mudou de atitude: negociou com o Congresso um pacote de dois trilhões de dólares (cerca de 10 trilhões de reais) para resgatar a economia, adotou um tom de conciliação com governadores, estendeu até 30 de abril as restrições à circulação e, no último fim de semana, chegou a dizer que poderia instituir o chamado lockdown nos Estados de Nova York, New Jersey e Connecticut.

Em suma, o republicano deixou de lado a retórica de que a atividade econômica não pode parar e passou a salientar que, neste momento, a saúde dos estadunidenses deve ser a prioridade. Bolsonaro ignorou a guinada daquele que lhe serve como modelo político e vem insistindo que as pessoas devem sair às ruas e trabalhar normalmente. “É um nível de irresponsabilidade que nunca vi num líder democraticamente eleito. Bolsonaro faz Trump parecer Churchill”, ironizou Ian Bremmer, presidente da consultoria de risco Eurasia Group, no Twitter.

Agindo de maneira errática logo após atender as demandas de governadores, o mandatário brasileiro determinou em pronunciamento em cadeia nacional na passada terça-feira que “algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento do comércio e o confinamento em massa”. Também aproveitou a ocasião para forjar inimigos e voltou a se referir ao coronavírus como uma mera “gripezinha”.

Em entrevista ao canal de televisão aberto Rede TV, Bolsonaro voltou a questionar os números de mortes provocadas pela Covid-19. “Parece que há interesse por parte de alguns governadores de inflar o número”, disse o presidente, ecoando uma notícia falsa, espalhada em grupos de WhatsApp e nas redes, de que um porteiro ou borracheiro teria tido sua morte erroneamente incluída nas estatísticas de coronavírus.

O que Bolsonaro faz é utilizar “uma comunicação meticulosamente arquitetada para ironizar e atacar inimigos ideológicos e políticos, da imprensa ao médico Drauzio Varella, passando por governadores e prefeitos adversários”, opina o cientista político Vinícius do Valle. “Bolsonaro quer, na verdade, o caos”, conclui Valle.

O motivo de querer o caos se deve à própria natureza do bolsonarismo, que precisa do conflito para se manter e se expandir, segundo Valle e outros estudiosos, como o historiador argentino Federico Finchelstein. “Eventualmente a realidade se impõe e inclusive os seguidores mais fanáticos em algum ponto deixam de acreditar neles. Mas, quando isso acontece, já terá havido muito sofrimento e muitas vítimas, no sentido literal do termo. As políticas de ajuste, de repressão e de discriminação têm suas consequências”, disse Finchelstein ao EL PAÍS na semana passada. Para Valle, Bolsonaro poderia encontrar na convulsão social a justificativa que precisa para tentar concentrar ainda mais poder em suas mãos, seja a partir de operações de Garantia da Lei e da Ordem ou da decretação de um Estado de Sítio. A tentação de um golpe sempre esteve presente entre os direitistas radicais e a situação seria propícia, lembram eles, lustrando os coturnos.

 

Deixe uma resposta