Mulheres não afundam navios

Não é a primeira vez que escrevo sobre o dia das mulheres ou sobre as mulheres e suas lutas por aqui. Nunca é simples, é mais desconfortável do que se imagina. Saber falar das experiências das mulheres. Quem é mulher entende. Entende? Não. Mulheres, é tudo tão diverso. Tão bonito e dor. E assim, me veio dois poemas na cabeça, antes dos dados de violência e morte, antes da relação das mulheres e o governo de Jair Bolsonaro, antes das mulheres e a pandemia. Veio Ana Cristina Cesar e Wislawa Szymborska, duas poesias-irmãs.


cartilha da cura
as mulheres e as crianças são
as primeiras que desistem
de afundar navios

vietnã
mulher, como você se chama? — Não sei.

quando você nasceu, de onde você vem? — Não sei.

para que cavou uma toca na terra? — Não sei.

desde quando está aqui escondida? — Não sei.

por que mordeu meu dedo anular? — Não sei.

não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? —  Não sei.

de que lado você está? — Não sei.

é a guerra, você tem que escolher. — Não sei.

tua aldeia ainda existe? — Não sei.

esses são teus filhos? — São.

Além da maternidade vista neste primeiro plano, o cuidado. Além deste cuidado, tão maternal, que essencializa mais uma vez a experiência das mulheres, eu vejo outra coisa: a vivência atravessada pela sustentação. Mais uma vez, a força incontentável das mulheres. Não a força que adoece, humilha e sobrecarrega. Eu vejo uma sustentação do ser. Pelo menos uma tradição de mulheres que nos mostram ser possível ser atravessada pela vontade de fazer e de imaginar e de criar com a dor presente, com o navio afundando, com a guerra batendo no ouvido, mulheres fazem e por isso aqui falo também da libertação, essa que atravessa e muitas vezes sufoca a dor. Isso me lembra a potência do ser entre tanta, tanta, confusão. Já que vivemos no desconforto e no descontrole, façamos algo que pulsa e liberta com isso.

8 de março: data esquerdista

Em 8 de março de 1908, através da criação de uma comissão da mulher pelo Partido Socialista dos Estados Unidos, as mulheres do bairro Lower East Side, em Nova Iorque, organizaram uma manifestação de massa pelo sufrágio. Angela Davis escreveu que foi aqui a origem da data que vem sendo motivo e impulso de manifestações todos os anos por mulheres mundo afora.

Em 1909, ainda em Nova Iorque, houve uma passeata com cerca de 15 mil mulheres em defesa de condições de trabalho dignas. À época chegavam a trabalhar 16 horas por dia, seis dias por semana, quando não aos domingos.

Já em 1910, na Europa, crescia também o movimento através das socialistas indignadas com as desigualdades entre homens e mulheres no ambiente do trabalho. Clara Zetkin foi um grande nome na Alemanha. Jornalista, professora e política marxista, durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, propôs, junto de Alexandra Kollontai, revolucionária e teórica marxista russa, a criação do Dia Internacional da Mulher, com objetivos obviamente feministas, como a igualdade de gênero, mas sem abandonar o recorte de classe e a busca por uma sociedade socialista: o horizonte da igualdade e da libertação.

Somente em 1975 a Organização das Nações Unidas (ONU) creditou à data sua oficialização, a mostrar a importância dos debates não iniciados com o 8 de março na década de 1910, mas já presente nos trabalhos e análises de mulheres em séculos anteriores, vide o clássico Reivindicação dos direitos da mulher (1792) de Mary Wollstonecraft.

O movimento de mulheres é um movimento à esquerda, como de fato diz Davis em seu livro Mulheres, raça e classe, “as mulheres socialistas trouxeram uma nova energia para o movimento sufragista e defenderam uma visão de luta que vinha das experiências de suas irmãs da classe trabalhadora”. Aqui é importante a visualização do feminismo como um movimento e uma linha teórica diversa e conflitante. Entre suas tensões está o próprio choque entre concepções liberais do feminismo e o feminismo marxista, por exemplo, ou entre feministas brancas e negras.

Sueli Carneiro, militante e teórica do feminismo negro, descreveu um pouco dessas tensões: “nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas… Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar!”

Aqui está o ponto. Mulheres operárias buscavam melhores condições de trabalho, mulheres negras nunca puderam escolher ficar apenas em casa e mulheres brancas de classe média e alta exigiam o direito de saírem dos espaços privados e conquistarem o mundo público. E há mais, sempre há mais. Com o perdão da bagunça entre o tempo e o espaços e pelo pobre resumo histórico, cabe dizer que assim como nascem os movimentos, nascem as tensões. O 8 de março continua uma data de luta e de conflitos. Reflexo da diversidade entre as experiências de mulheres pelo mundo. Resta perguntar e responder, em algum momento caminharemos juntas pro mesmo lugar?

Mulheres da favela exigem paz

Em Curitiba o 8 de março desse ano descentralizou e apontou como as discussões feministas também podem refletir uma estrutura urbana, aonde bairros centrais são privilegiados por seus vários eventos e reuniões, excluindo mulheres das periferias. A pauta era ouvir o que as mulheres das favelas tinham a dizer, ao mesmo tempo em que se criticou a ideia de Curitiba como cidade modelo. Como o advogado Renato Freitas disse em uma entrevista ao Brasil de fato “a favela do Parolin é central, e como diz um morador do local, uma cárie no sorriso de Curitiba”. Ao que me ocorre instantemente às citações de Carolina Maria de Jesus em Quarto de Despejo, onde ela desenha a favela como o quarto de despejos das cidades. Se esconde a miséria e o abandono, para a performance da higienização. Mas as mulheres da favela exigem paz e esse foi o foco da Frente Feminista de Curitiba e Região Metropolitana na organização da manifestação.

Uma das organizadoras, Andreia de Lima, disse que não é permitido às mães da favela, que saiam e deixem seus filhos nas creches e escolas, “não nos dão o direito de moradia com qualidade e quando conseguimos emprego, temos que ser ou a zeladora ou catar nossos carrinhos e ir para rua com nossos filhos”, disse ao Brasil de fato.

As realidades das mulheres brasileiras são múltiplas, muitas já ascenderam aos bancos universitários e ocupam espaços de poder no mercado de trabalho, mas a maioria pobre e negra tem seus objetivos de mobilidade social freados por uma estrutura que privilegia homens e mulheres brancos e de classes mais abastadas. A meritocracia cai por terra quando existe a necessidade de ajudar no sustento das família e abandonar sonhos.

Além das diferentes realidades em relação ao mercado de trabalho, maternidade e estudos, mulheres enfrentam violências de maneiras distintas. As falas de Jair Bolsonaro a respeito de mulheres e o feminismo como mimimi hoje também refletem em dados alarmantes de violência.

Mulheres na rua, mulheres em casa

Foi em 2017 que Bolsonaro soltou mais uma de suas brilhantes reflexões sobre os problemas sociais: “eu defendo a posse de arma de fogo para todos, inclusive vocês, obviamente, as mulheres. Nós temos que acabar com o mimimi, acabar com essa história de feminicídio. Daí, com arma na cintura, vai ter homicídio, tá ok?”. Em agosto de 2018, questionado sobre a fala, continuou: “para mim, não tem que ter lei de feminicídio. Se cometeu um crime, não interessa se contra homem ou mulher, é 30 anos de cadeira”.

E olhem bem, em 2019, primeiro ano de seu governo, o número de feminicídios cresceu, chegando a aumentar em 7,3%. Os dados são de 26 estados e do Distrito Federal. São 1314 mulheres mortas por serem mulheres. Em 2018 foram 1222. O levantamento é do Monitor da Violência, parceria entre o G1 e o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Agora com o surto do novo Corona Vírus, muitas mulheres estão em isolamento social, o que também já mostrou o crescimento da violência de gênero. Antes mesmo da pandemia, dados já alertavam que os lares não são sinônimos de proteção para as mulheres, pelo contrário, 39% dos feminicídios acontecem em casa. Mais um ponto de atenção a ser compreendido como direito de segurança para as mulheres nessa época de tanta turbulência pública. As mulheres precisam de proteção privada.

Com a necessidade de estarmos em casa como contenção da transmissão do novo vírus, o Rio de Janeiro já tem o crescimento de 50% em casos de violência contra a mulher.

Em Curitiba não foi diferente, de acordo com a Polícia Militar, o número de casos de violência doméstica aumentou. Entre o primeiro final de semana de isolamento, sexta-feira (20), sábado (21) e domingo (22), o número de casos cresceu em comparação ao final de semana anterior. Foram 217 casos.

Abandonar o isolamento não é a solução, mesmo que para o presidente da república o importante seja a economia. Afinal, são só idosos que vão morrer, não é? Ou algumas milhas de pessoas doentes. Pois aqui já estamos em outro tema. Ou não. Quais vidas importam nesse governo de Jair Bolsonaro? Ou ainda, quais vidas podem ser interrompidas por esse desgoverno?

Mais uma vez recai sobre as mulheres, sobre os idosos, sobre as pessoas pobres e periféricas. Porque não se pode parar, a economia tem que girar. Quando escuto isso, penso em como o poder do povo está implícito na manutenção dessa sociedade para eles. E aí o medo da consciência. Isso também é sobre as mulheres e suas lutas.

É hora de reafirmar a indignação, reunir as fúrias, como diria o poeta Francisco Mallmann, e, enfim, libertar-se.

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