O primado do desprezo

Nunca tivemos tanto desprezo pela ciência como agora a despeito da ocorrência da pandemia da Covid-19 que obriga a essa atmosfera de sonambulismo em escala universal. Há quem acredite que esse surto pode servir de alerta ao eleitorado que vê a ciência como tema secundário na hora de escolher um governante, questão levantada por Rodrigo Soares, mestre de Columbia, economista dos mais respeitados no meio acadêmico.

Quando imperava o regime fardado, com os partidos manietados, houve necessidade de esse papel ser ocupado pela Ordem dos Advogados, Conferência dos Bispos e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. A anomia era de tal ordem que o cientista tinha de sair do seu nicho para ingressar pesadamente na política, o que nem sempre é desejável pelo radicalismo ético. Segundo Rodrigo Soares o corona vírus mostra o risco de políticos que desprezam a ciência como os temos na endemia de terraplanistas ou de recicladores do criacionismo.

Conflitos entre a ciência e a política são históricos como se viu no Brasil na revolta contra a vacina que até intelectuais como Rui Barbosa defenderam e ainda se vê no varejo das fantasias divulgadas nas redes sociais.

Não se trata, fique bem claro, de um ordenamento em que a ciência tenda ao absolutismo por exemplo relativamente à religião, a questões de fé, mas que não seja desprezada como é a linha do país relativamente à participação do Estado nas pesquisas e produção científicas e perceptível nos nossos níveis de saneamento sistematicamente desvelados pelo IBGE em sua pesquisa domiciliar contínua.

Uma situação como a vivida pede também a participação da filosofia que deveria sustentar a formulação política e impedir que praticássemos um ordenamento anti-intelectual sob a suposição de que esse é um império da esquerda com o monopólio do pensar, o que é também conceder a um grupo ideológico uma força que está longe de ter até pelos descaminhos que adota . O fato é que a pandemia testa esses valores e faz a checagem da nossa perspectiva do viver coletivo, tão decantado nas utopias ideológicas e tão distante da realidade imediata, essa imposição de agir em grupo pela proteção comum.

 

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