Quebramos a cara!

Até aqui, nada mudou, infelizmente: a prepotência do governo e sua vocação mussoliniana, a espinha mole dos parlamentares, a insistência do baixo clero no toma lá dá cá. Mas há uma novidade: o povo abre os olhos. Jair Bolsonaro está em queda nas pesquisas. Para uma boa parcela dos que acreditaram no capitão como tábua de salvação, chegou a hora do espanto. O governo vai se transformando em sinônimo de fracassos, desilusões e lições de cinismo.

Pasmem, 39% dos brasileiros e brasileiras, segundo o Instituto Quaest Consultoria, são a favor do impeachment de Bolsonaro. Não é pouco. Ainda mais se somarmos outros 12% que têm dúvida sobre essa solução, mas consideram o governo desastroso. Niccolò Maquiavel dizia que aqueles que se tornam príncipes por sorte ou favor das circunstâncias, “com pouca fadiga assim se transformaram, mas só com muito esforço se mantém.” Pois o distinto público começa a entender que quebrou a cara.

A preocupação com o futuro incerto oferecido por Bolsonaro é maior entre as mulheres (66%) – diante de 56% dos homens. Maior ainda entre os jovens, de 18 e 29 anos, onde o índice chega a 69%, com outros 10% de revolta. Hoje, a maioria das pessoas acredita que o Brasil ia mal, mas agora piorou (38%) ou está paralisado (27%). Há 33% que veem melhoras, principalmente entre evangélicos (42%), quando o otimismo supera o pessimismo. Bom lembrar que há uma dose robusta de sectarismo nos crentes das pentecostais, que costumam confundir política com crenças religiosas e ideias conservadoras que privilegiam os preconceitos e o atraso.

Há evidente reação aos atos políticos de Bolsonaro, que procura radicalizar o confronto político. Entre os pesquisados, 61% acreditam que Bolsonaro quer fechar o Congresso. Pois, pois, a maioria não embarca nessa aventura: 50% diz não apoiar o fechamento do parlamento. No recorte, apenas entre evangélicos o apoio ao fechamento do congresso (44%) supera aqueles que são contrários (38%).

Bolsonaro conhece as pesquisas, se irrita com os números e culpa a imprensa e as instituições. Desce o porrete, ameaça, insinua. Sabe que o quadro político é frágil. Lideranças populistas, partidos sem qualquer identidade, desigualdades extremas, educação precária são algumas das explicações para a indigência em que o debate nacional se desenvolve. Os que se dizem de direita demonizam os de esquerda que satanizam os de direita. Os extremos sovam-se com braveza e baixarias para fermentar seus mitos, não raro sem saber o significado histórico-político da direita e da esquerda no mundo e no Brasil.

Profetas do atraso, os dois líderes dessa polarização, mostram-se interessados apenas em se manter à frente e inibem as conexões dos neurônios de seus adeptos. Tudo gira em torno deles. No centro, a encrenca começa na falta de estofo de muitos políticos de se assumirem como tal. Temem ser confundidos com o centrão, que carrega a pecha da política do toma lá dá cá e de negociações espúrias. Envergonhada, a maioria se diz de centro-esquerda ou centro-direita. Até se unem em votações parlamentares, mas tratam de expor diferenças irreconciliáveis sempre que o papo é eleição.

No Brasil de hoje se dizer de direita é fácil. É só seguir, ser ativo e briguento nas redes, usar linguagem chula, dar um like e compartilhar as lives e os tweets do presidente Jair Bolsonaro, aclamar o guru Olavo de Carvalho, reproduzir e não criar encrenca com os filhos do chefe. Ser de esquerda, mais simples ainda: basta louvar Lula todos os dias. A disputa das prefeituras em outubro tende a se transformar em plebiscito nacional. Há grande expectativa sobre os resultados. Cada grupo faz os seus cálculos, soma e divide para avaliar possibilidades que podem se desdobrar nas eleições de 2022. É um bom exercício. Mas política passa longe de ser ciência exata.

 

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