Sete crônicas da era do Dizzy

A noite, o jazz, a janela

Naquele tempo, a música era meu pai. Lembro das mil e uma noites que fiquei a ouvi-lo inundar a vida de sons que extraia maravilhosamente de seu piano. Eu, na escada de entrada da casa, sentado no silêncio.

A noite nascia e eu tocava com ele na imaginação. Havia uma mágica que me prendia: a expectativa do novo. A música eu ouvira tantas vezes, mas ela jamais foi repetida. O pai era um mestre no improviso, nas variações, eu afinava os ouvidos e percebia.

A escada era o melhor lugar para o show. Ali batia o vento, atrevido, que acompanhava o piano, assoviando, levantando folhas e galhos nas árvores que dançavam. Delícia ouvir os dois. A sinfonia Jazz para Vento e Pai. O som perfeito para o menino, naqueles dias antigos dos anos setenta.

Tudo isso me vem agora, quando o pianista sou eu e deixo a janela escancarada a convidar o vento para entrar e tocar.

Não para mim, mas comigo. E o pai na memória.

Arriscar é estar vivo

Jazz não tem zona de conforto. É voo sem piloto automático. Jazz é improviso, tocar sem ensaio. Porque o jazz flui como vida. Livre, sem se repetir.

De tudo que mais gosto de fazer, sinto um prazer enorme ao subir ao palco de surpresa para um solo no piano a quatro mãos. Seja quem for o pianista.

Quem é do jazz espera sempre pelo inesperado. Desde guri eu vi meu pai tocando a quatro mãos com seus amigos e entendi que tocar junto é, antes de tudo, um elogio que o pianista faz ao outro. Um ligado à alma do outro.

O público adora e se diverte porque às vezes eu quebro a cara. Feio. Mas até isso é bom. Faz parte. Improviso não tem como prever, e é exatamente isso que eu gosto. O risco que me põe a prova.

 

keffiyeh

keffiyeh, kufiya, ghutrah, shemagh, ḥaṭṭah, mashadah, chafiye…

O lenço tem mais de cem nomes. Mas pra mim é só o presente que trouxe pro meu pai quando voltei de um festival de jazz em Cartago, Tunísia.

Ele o usava em casa, no inverno, para aquecer as orelhas.

Hoje o Keffiyeh é meu.

Uso em casa para lembrar dele. Um libanês branco, loiro de olhos azuis. Tão branco que pensavam ser alemão. Em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, o amarraram num poste para surrar. Foi salvo da turba por meu avô, que veio correndo com uma cimitarra e um keffiyeh idêntico a esse, libertar o filho da ignorância e ódio daqueles dias.

Meu pai dizia que toda maioria é apedeuta. Na época não entendi nem a palavra nem o que ele quis dizer.

Hoje entendo. Allah maak Baba habbib.

 

O nascimento do Dizzy

O Dizzy Café nasceu de muita vontade e boa dose de ousadia insana. Sem dinheiro, mas pleno de ideias. A história é linda. Eu me ufano ao pensar que o Dizzy ganhou alma e personalidade. É uma entidade da história do jazz, da noite, da alegria nesta cidade. Fico pensando o que seria da Bossa, do Samba ou do BeBop, sem os bares do beco, lotados, com muita fumaça e alegria. O bar é o melhor laboratório para nós.

A força dada pelos amigos foi decisiva. Lembro que no dia da avant première o dinheiro era pouco ou quase nada. Foram convidadas apenas 30 pessoas. Compareceram 122.

A bebida acabou em uma hora. Sufoco, correria, equipe ainda crua, todos batendo cabeça. Cansaço e desespero somados. Mas ninguém reclamou. Nem poderia. O mais importante estava lá, o tempo todo. Meus dois pais tocavam juntos no palco em que soava jazz pela primeira vez. Gebran & Saul.

Para a estreia pública, apenas três dias depois, tivemos que pedir dinheiro emprestado de um amigo fiel. Não tínhamos um centavo. Zero.

Ninguém veio na quinta. Fracasso? Endividados e com a casa vazia, tudo que esperávamos deu errado. Então deu-se o milagre. No sábado, o boom. E tudo que esperávamos deu novamente ao contrário. O bar explodiu de tanta gente e nunca mais teve um só dia sem sucesso.

Saul do Trompete

Saul Trompete. Devo muito a ele. Foi o cara que, além do meu pai, acreditou em mim quando, guri de 17, do alto da minha presunção, decidi que meu caminho era o Piano.

Gosto de lembrar dele abrindo aquele sorriso bonito quando encerrava um solo. Saul no palco. A noite e o jazz se iluminavam.

Mas o Saul, para tristeza geral do nosso mundo do jazz, ficou muito doente. Então fizemos uma noite só para ele. Os amigos de verdade apareceram. Saul, mesmo debilitado, apareceu com o seu sorriso no meio da noite. Carregado. Com ele, o velho Trompete para a última sessão de jazz.

Foi nosso último aplauso. Saul nos deixou pouco depois.

 

Sintam, sintam, sintam

Os primeiros ensaios foram difíceis. A banda respeitava os dois ídolos. Tocava travada. Certinha. Afinal, aqueles dois fizeram música com Hermeto, Milton Nascimento, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Chick Corea, Michael Brecker e outros tantos do Monte Olimpo do Jazz. Como não respeitar? Pois os dois foram conhecendo cada um dos caras da banda. Não como pessoas, mas como músicos.

“Amigos, amigos… música à parte!” Esse é o jeito certo para se ter uma grande banda. Enfim, a banda soou maravilhosa pela primeira vez. Depois de muito ensaio sério, coisa que detesto, mas sei que (às vezes!) é necessário. Pois bem, os ensaios não eram para tirar as músicas perfeitas. Mas para cada um de nós entrar na sintonia dos dois. Isso mesmo, sintonia.

Depois de muito tocar, Airto Moreira falou em voz baixa: “Não me perguntem nada! Não quero dizer como vocês devem tocar. Apenas fechem os olhos e sintam o que eu tenho a dizer quando toco e toquem comigo. Sintam… Sintam… Sintam!”

Sentir profundamente o que se toca é mais importante que executar uma nota ou acorde perfeitamente. A perfeição, dura, precisa e seca, enche o saco! O sentimento o esvazia. A foto que fiz do Airto mostra exatamente isso.

“Sintam, sintam, sintam…”

Que honra.

Sou Jeff

Meu nome não é Jeff. É JeffersoHn na certidão de nascimento. Com esse H atravessado que me provocou constrangimentos até a adolescência. Ninguém escrevia meu nome, nem professores, amigos, nem a namorada da infância, em suas cartas de “amor eterno”.

Escreviam para o JeferSON. Eu era o JefferSOHN e era obrigado a dar explicações. Fui à minha mãe e intimei: “Por que a senhora criou esta maneira de escrever meu nome, JeffersoHn, com ‘H’? O que foi que eu fiz para merecer isso?”

Ela, lavando a louça, nem olhou para a minha cara e disse: “Vá falar com teu pai, teu nome é obra dele.”

Fui. Meu pai podando uma árvore no jardim me recebeu como sempre, assoviando e nem aí para minha irritação. Perguntei e ele explicou, com a calma e doçura de sempre.

“Filho, teu nome tinha que começar com ‘J’ de Jazz, como teus irmãos. Mas no teu fiz uma homenagem especial ao compositor Jakob Felix MendelssoHn, um cara fantástico, judeu alemão, que entre outras coisas escreveu a suíte ‘Sonho de uma Noite de Verão’, de onde veio a marcha nupcial que tocamos nos casamentos até hoje e que faz as pessoas se emocionarem.”

Pronto. Explicado. Um pouco brega, mas eloquente. Fiquei feliz por não ser o único na Terra a ter esse H esdrúxulo no nome. E mais feliz ainda por não ter dois desses como o MendelssoHn.

Agora sou Jeff, e nem sempre lembro que sou ou fui JeffersoHn.

 

 

 

Jeff Sabbag é músico, pianista, líder e ativista cultural, alma do Dizzy Cafe, a casa noturna onde os melhores intérpretes do jazz e da MPB de Curitiba mostram seu talento. A começar por ele, o ícone. Neste caderno outra qualidade de Jeff. De sua sensibilidade nascem crônicas que ele publica nas redes sociais ou guarda na gaveta, à espera do dia em que se transformarão em livro. Ah, e Jeff é de uma linhagem especial, filho do lendário pianista Gebran Sabbag.

 

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