Sobre ler e comer

Pôde-se dizer que não há literatura sem gastronomia. Pela simples razão de que não há vida sem comer e beber. O homem pode se abster de tudo, inclusive de sexo, mas não sobrevive sem comer. Desde o princípio.

Não é sem razão que o tema tenha papel fundamental em alguns livros. A “Ilíada”, de Homero, por exemplo. A cena em que heróis derrotados se alimentam de mel para recuperar forças é uma das passagens mais conhecidas do clássico grego, que data do século 8º a.C.

E que dizer de “Gargântua e Pantagruel”, escrito em 1532 por François Rabelais. Um relato divertido do homem de apetite descomunal, cujo nome é o mesmo de um demônio do folclore bretão que tem como atividade preferida jogar sal na boca de bêbados adormecidos nas ruas para lhes causar sede e fazer com que bebam ainda mais.

Não posso deixar de citar “O Livro de Pantagruel” (1945), da portuguesa Bertha Rosa-Limpo. Ela revisita a saga pantagruélica, adaptando receitas ao gosto de Portugal, numa obra que se tornou um clássico.

Tolstói, em “Anna Karenina”, escrito de 1873 a 1877, narra o caso extraconjugal de uma aristocrata czarista que passa bom tempo quando não está na cama, sentada à mesa com muito caviar, ostras e champagne.

Esse interesse meu pela gastronomia na literatura ganha pontos quando escritores tratam diretamente do assunto. Tenho minhas preferências. Uma delas é o “O Livro de Cozinha de Alice B. Toklas”. A companheira de Gertrude Stein escreveu em 1954 e traz anotações sobre o apetite de Picasso, Matisse, Hemingway, Zelda e Scott Fitzgerald, entre outras estrelas que a dupla recebia em sua casa em Paris no pós-guerra.

Mas meu livro de cabeceira sobre gastronomia é o “Grande Dicionário de Culinária”, de Alexandre Dumas. Maravilha da gastronomia e da literatura. Foi um pulo. Logo que fez 60 anos, recolheu-se a um chalé para escrever sobre o que mais gostava: gastronomia.

 

UMA RECEITA SIMPLES

DE ALEXANDRE DUMAS

Andei revendo o “Grande Dicionário de Culinária”, do meu mui amado Alexandre Dumas (Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2006), e me deliciei com as receitas saborosas, comentários absolutamente surreais sobre gastronomia nesse livro cheio de ilustrações primorosas e divertidas.

Algumas receitas são muito simples e atuais, como esta Abóbora-menina ao parmesão.

Corte a abóbora-menina em pedaços quadrados e ferva-os por 15 minutos em água e sal: escorra-as; ponha na panela um bom pedaço de manteiga frite os pedaços de abóbora com sal e especiarias; transfira-os para uma travessa, cubra com parmesão ralado, leve ao forno para dourar e sirva”.

 

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