A desigualdade do coronavírus: a realidade na favela

O primeiro caso de coronavírus no Brasil foi confirmado no dia 16 de fevereiro. Semana passada completamos dois meses desde então.

Nestes 60 dias, muita coisa mudou. De início não assustou muito. Depois cogitou-se ser algo rápido e passageiro. Até que o objetivo de todas as nações do mundo com exceção de três líderes – Belarus, Nicarágua e Turcomenistão (todos regimes autoritários) – era achatar a curva para não colapsar os sistemas públicos de Saúde.

Jair Bolsonaro está entre juntar-se com os autoritários negacionistas e seguir o que a Organização Mundial da Saúde propõe e aceitar que se trata de uma pandemia que, por si só, já é bastante séria.

O começo

No Brasil, o desenvolvimento da doença ficou muito marcado pela questão das classes sociais. O vírus chegou via Itália, não via China, através de um senhor de 60 anos. Quando a contaminação ainda não era local, o paciente zero estivera ou na Itália ou na China, logo pessoas com certa condição social foram acometidas primeiro.

Entretanto, o caso brasileiro não é simples de ser controlado por causa de suas favelas. Em muitas comunidades, várias pessoas dividem um mesmo ambiente.

Em coletiva de imprensa no dia 27 de março, ou seja, quase um mês atrás, o então secretário-executivo do ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, disse que favelas são “a grande preocupação” da pasta. “A nossa grande preocupação são essas comunidades, pelas dificuldades com saneamento, com acesso a água potável, a dificuldade de evitar aglomerações”, disse ele, e citou medidas que estão sendo avaliadas: hotéis, hospitais de campanha, navios.

Ontem, o Fantástico mostrou que em uma dos bairros mais carentes de São Paulo, Cidade Tiradentes, a prefeitura não havia tomado medidas práticas em relação àquela população. Muitas casas não têm caixa d’água, o que torna impossível a recomendação básica de lavar as mãos freneticamente. E ações educativas e de orientação não chegavam até lá. Embora, a gestão de Bruno Covas tenha informado que as faz com carros de som. O #fiqueemcasa não pegou em Cidade Tiradentes, seja por falta de orientação, seja pela necessidade das pessoas mais pobres de sair ao trabalho.

A realidade

Se ações mais efetivas por parte do governo federal não forem tomadas, um estudo aponta que 86% dos moradores de favelas passarão fome.

Esses são alguns dos principais dados da pesquisa Data Favela/Instituto Locomotiva divulgada em 24 de março. O estudo realizou 1.142 entrevistas entre os dias 20 e 22 de março em 262 comunidades de todos os Estados da Federação. Foram ouvidos homens e mulheres com 16 anos ou mais, e a margem de erro é de 2,9 pontos percentuais.

“Ouvimos o discurso de que a epidemia é democrática, que pega ricos e pobres da mesma forma. Mas a pesquisa deixa claro que não é assim, que existe uma parcela da sociedade que não tem poupança, que não tem recursos para manter seu padrão de vida caso não consigam trabalhar. É mais fácil fazer quarentena com uma geladeira cheia e uma casa confortável do que quando se mora em uma favela onde a geladeira está fazia, falta água e cinco pessoas moram num espaço de 20 metros quadrados”, resume Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.

O trabalho é a principal fonte de renda para 71% dos moradores de favelas. Mas, ainda segundo a pesquisa, 47% dos entrevistados trabalham por conta própria ou são profissionais liberais, 10% estão desempregados e 8% trabalham sem carteira assinada. Apenas 19% dos moradores de favelas possuem contrato de trabalho formal. “Essa força de trabalho majoritariamente autônoma está fora da rede de proteção do Estado brasileiro”, explica Meirelles.

“Essas pessoas não têm gordura para queimar, elas vendem o almoço para comprar a janta. Já possuem poucas condições econômicas de sobreviver com dignidade e sentem rapidamente qualquer efeito de uma crise”, diz Meirelles. “É preciso dizer que uma economia se recupera, mas vidas humanas não. Se os moradores das favelas fossem um Estado da Federação, seriam o quinto maior Estado do país. Há mais favelados que gaúchos no Brasil. Isso não é detalhe”, destaca.

 

Casos

Segundo balanço divulgado no dia 15 de abril, ou seja, um dia antes de completar dois meses da doença, os casos nas favelas do Rio de Janeiro, eram de 78 com dez mortos.

A favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio, tem 69,1 mil habitantes. Nos últimos dias, moradores da comunidade chegaram a relatar um aumento da circulação de pessoas na comunidade, impulsionado pelas falas e ações de Jair Bolsonaro, que ainda insiste em se tratar de algo pouco nocivo. Eles cobram mais ações das autoridades no combate ao coronavírus.

A mobilização de alguns moradores, por outro lado, tenta ajudar e conscientizar. O projeto “Favela sem Corona” fará 100 testes rápidos na comunidade. A prioridade de atendimento é dos moradores mais velhos.

A periferia de São Paulo lidera os casos de coronavírus. De acordo com a Secretaria da Saúde Municipal, é longe do centro que estão os maiores números de óbitos suspeitos e confirmados da covid-19. Até este sábado, 18, das 686 mortes ocorridas na cidade, ao menos 51 foram no distrito de Brasilândia, na zona norte, e 48, no de Sapopemba, na zona sudeste, seguidos por São Mateus e Cidade Tiradentes, ambos na zona leste e com 36 óbitos respectivamente. O Brasil inteiro registra ao menos 2.347 mortes neste sábado, com 36.599 casos confirmados da doença.

“Você percebe que as pessoas querem cumprir [o isolamento], mas uma parte das pessoas que está saindo nas ruas está saindo por dificuldade, porque precisa trabalhar”, disse o Henrique Deloste, líder comunitário e membro da Associação de Moradores na Brasilândia/Cachoerinha, região que lidera o número de óbitos, em São Paulo. “Pode ser que com a ajuda do Governo melhore um pouco, mas eu duvido. As pessoas estão preocupadas porque a ajuda é só por três meses. E depois disso?”, questiona.

Deixe uma resposta