O quarto em Arles

Entenda o revolucionarismo conservador do pintor holandês

 

Certamente estamos diante de uma das obras mais contestadoras da história da arte. Basta um olhar um pouco mais clínico para perceber o teor político de seus elementos. A primeira questão, no entanto, diz respeito à propriedade do quarto.

Especialistas garantiram que se trata de uma representação do quarto de Van Gogh, em Arles. Embora de difícil conclusão tratar-se de fato de seu quarto, haja vista a ausência de elementos que o comprovem, poder-se-ia estimar tal hipótese a partir do título da obra: “O quarto em Arles”. O que seria um devaneio, na minha interpretação, pois este não é o único quarto em Arles, seria necessário, portanto, fazer um levantamento de todos os quartos em Arles para poder fazer uma estimativa da possibilidade deste quarto em específico ser o de Van Gogh. Tendo isso em vista, é uma leviandade por parte dos críticos de arte, meus colegas de profissão, que muito me envergonham, não raras as vezes, pois tecem elogios a extintores de incêndio em instalações e bienais.

Mas se dermos como certo que este quarto é o de Van Gogh, o que na minha avaliação é totalmente irrelevante, porque como vemos é um quarto bastante sem graça, temos aqui mais um traço da personalidade do pintor holandês destacada: o seu revolucionarismo conservador. Explicarei mais adiante.

O ponto nodal da questão do quarto diz respeito à propriedade: o quarto estaria a serviço da especulação imobiliária promovida por donos de shoppings ou seria uma ocupação do MTST? É uma das questões que os críticos, meus colegas de profissão, não se atentam pois estão muito preocupados com o mantra “a arte pela arte”.

ELEMENTOS

Dada esta contextualização mais geral com algumas questões em aberto, passemos aos elementos. Avaliando de vários ângulos, concluí que o elemento central não poderia ser outro senão a cama, o que também levar-me-ia ao questionamento de se tratar ou não do quarto de Van Gogh discutido no tópico anterior. As dúvidas não existem, a cama é uma representação da avant-garde dos jovens do século XXI que morariam com as mães até os 37 anos. A cama de solteiro, ao lado de adesivos na janela e na parte interior do guarda-roupa, é o símbolo dessa nova faixa etária conhecida como jovens-adultos.

As cadeiras, depois de eu ficar horas debruçado em livros estudando todos os movimentos artísticos apresentados nas coleções da Folha, e o livro “O que é arte?” da Primeiros Passos, levaram-me a um único lugar: “Por quê?”. Não cabe a mim trazer definições absolutas e formas definitivas desta obra, o expectador precisa exercer o seu papel de centralidade na obra de arte e responder ao meu questionamento.

Elenquei alguns prognósticos, todos falhos: 1. A cadeira serve de apoio a um copo d’água. Falho. Como se pode observar as cadeiras em questão são aquelas de palha muito presentes em restaurantes de beira de estrada, não dando a estabilidade necessária a um objeto tão perigoso como pode vir a ser um copo d’água. 2. Van Gogh lia à noite Gênesis para entender a origem de tudo e apoiava a Bíblia na cadeira ao dormir. Falho. Não há sequer um livro neste quarto. Como esperar de um gênio, como Van Gogh, a ausência de leitura? O que nos leva a desconfiar do pertencimento do quarto em questão ser do próprio Van Gogh.

Sobre a janela, a mesa e a toalha pendurada à esquerda prefiro não tecer comentários, tampouco sobre a esquisitice de pendurar as próprias obras de arte nas paredes do quarto, considerando ser de Van Gogh, o que desmentiria sua característica melancólica e triste em relação à vida e revelaria uma autoestima e segurança de dar inveja. Mais um motivo para eu duvidar da hipótese desse quarto em Arles ser o do próprio Van Gogh. Talvez seja de algum fã.

Antes de nos encaminharmos para o nosso último e principal tópico, é necessário elogiar o ar de limpeza que dá esse assoalho, apesar de ficar claramente nítido o descolamento de algumas partes.

APROPRIAÇÃO

Finalmente chegamos ao que interessa. Por me restar pouco espaço serei objetivo. Não é incomum obras de arte serem apropriadas às interpretações do momento. Principalmente pelos meus colegas, críticos de arte, que aparentemente não dispõem do verbo historicizar em seus léxicos. Dito isso, vamos à última interpretação.

Há em “O quarto em Arles” uma contradição inerente, o que admiro muito. O quarto é representado como desocupado, como se estivesse sem ninguém, mas obviamente alguém está ali para observar o que se passa naquele quarto vazio e representar tal “vazio”. Chegamos, portanto, ao conceito – cunhado por mim – do revolucionarismo conservador de Van Gogh. Claro, esta interpretação é a posteriori, por isso cabe a mim também reconhecer suas falhas, e não só os seus sucessos.

Uma ala conservadora brasileira, principalmente ligada ao bolsonarismo-olavista, tem usado em campanhas publicitárias a imagem de “O quarto em Arles” para incentivar a população voltar ao trabalho. O lema usado, de uma mesquinhez sórdida ou de uma ignorância muito comum a essas pessoas, foi “Até Van Gogh voltou”, como se ele não estivesse em seu quarto a pintar o seu próprio quarto. É claramente mais uma das fake news do Gabinete do Ódio espalhadas pelo WhatsApp, pois obviamente Van Gogh está naquele quarto, sendo seu ou não, cumprindo as determinações da OMS de ficar em casa. Logo, o lema correto deveria ser “Até Van Gogh ficou”, a esquerda poderia adotá-lo, mas ultimamente não adota nada e despedaça em silêncio.

O que poucos entenderam, dado o hermetismo da campanha dos bolsonaristas, é que o ângulo presente neste quadro é o mesmo de sair em carros para exigir que saiamos à pé. Há um diálogo constante, e inevitável, entre Van Gogh e bolsonaristas, fazendo dele, um artista tão revolucionário quanto foi, um conservador, não importando a propriedade do quarto, desde que seja privada.

 

 

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