Academia de imortais por quê?

Ad immortalitatem, do Latim, quer dizer para a imortalidade”. É o lema de muitas academias e da Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897, que, mesmo sendo de um país lusófono, não quis tomar por modelo a Academia das Ciências de Lisboa, fundada na noite de Natal de 1779, cujo lema, também em Latim, é outro: Nisi utile est quod facimus stulta est gloria (Se não é útil o que fazemos a glória é tola).

Serviu-lhe de modelo, curiosamente, a Academia Francesa, que tem seu lema em francês: “À l’immortalité”, do Francês, à imortalidade, presente no selo oficial mandado fazer por seu fundador, o cardeal Richelieu, então primeiro-ministro da França (Século XVII).

Academia, do Grego academia pelo Latim academia, é palavra composta de ékas, longe, e démos, povo, isto é, longe do povo, separado dele. Designou originalmente um terreno perto do cemitério de Atenas onde estava a estátua do herói Academos, guarnecida por cem oliveiras, e onde tinha sido erguido um altar à Atena, a principal deusa da cidade-estado e que por isso lhe dava o nome: Atenas. Como os deuses eram imortais, os acadêmicos passaram a ser considerados assim também, por obras que, como os atos de deuses e de heróis, fariam com que fossem lembrados eternamente.

Era nesse bosque que Platão perambulava ensinando filosofia a seus discípulos.  Ele tinha 390 alunos, dois dos quais eram mulheres disfarçadas de homem para poder entrar: Asioteia de Filos (muito bela) e Lastênia de Mantineia (menos bela), professora de Sócrates.

Platão ensinava ali porque as leis não lhe permitiam erguer um prédio no centro de Atenas para este fim. A saída jurídica foi comprar o terreno onde estavam as estátuas de Apolo, de Atena e de outros deuses e heróis, inclusive das musas, aos quais ele e seus discípulos renderiam cultos e isso não era proibido.

Quando Platão morreu, Aristóteles fundou o Liceu, do Grego Lýkeion, da luz, assim chamado em homenagem ao deus da luz, Apolo Lýkeion, palavra que tornou lyceum em latim e liceu em português. Pela manhã, os estudos eram esotéricos, isto é, só para os iniciados. À tarde, eram exotéricos, para quem quisesse.

Muitas histórias e lendas rondam a Academia Brasileira de Letras. O poeta Olavo Bilac, perguntado por um jornalista porque os acadêmicos eram imortais respondeu: “porque não têm onde cair mortos”. Mas isso deu-se bem antes de os acadêmicos terem seu mausoléu no Cemitério São João Batista, um espaço dedicado somente a seus restos mortais.

Todavia os restos mortais de Machado de Assis e Carolina foram trasladados só depois que foi autorizada a entrada feminina. Durante muito tempo Machado não esteve ali porque seus herdeiros não permitiram que ele fosse sem Carolina.

Mário Quintana perdeu três eleições e nunca entrou para a Academia. Carlos Drummond de Andrade e Erico Veríssimo jamais se inscreveram, o que faz lembrar a comparação com um hospício: muitos do que lá estão não são; e muitos dos que são não estão.

O que pode tornar os escritores imortais são suas obras.

 

Deonísio da Silva é escritor e professor, membro da Academia das Ciências de Lisboa e membro honorário da Academia Paranaense de Letras.

 

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