Impactos da falta de água no Paraná

Com a pandemia do novo coronavírus o tema da estiagem no Paraná está em segundo plano, mas o cenário é preocupante. As chuvas estão muito abaixo da média há muito tempo.

A seca no estado começou antes deste outono. Segundo o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), estamos há quase um ano com chuvas abaixo da média, desde junho de 2019.

Houve nos últimos meses um agravamento na estiagem a exigir do governo estadual decretar situação de emergência hídrica por 180 dias. Assinado pelo governador Ratinho Junior em 7 de maio, a medida busca agilizar processos e evitar a falta de água para a população e produtores.

A combinação pandemia do novo coronavírus mais estiagem resulta num cenário ruim para os paranaenses: o consumo de água aumentou com os hábitos de limpeza acentuados para extirpar o vírus em 11% na comparação de abril de 2019 e abril de 2020. Apesar de tudo isso, o estado conseguiu bater recorde na plantação de soja.

“As projeções mostram que a seca tende a se agravar. Esse grupo [profissionais do Instituto Água e Terra (IAT)] irá fazer o acompanhamento e monitoramento diário em busca de tomar as decisões mais acertadas, priorizando o consumo humano e animal”, afirmou a diretora de Políticas Ambientais da Secretaria do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo, Fabiana Campos.

MANANCIAL

Relatório do Simepar aponta para um volume de chuvas no Paraná abaixo da média num período de três a seis meses. O instituto diz que podemos ficar com parcas chuvas até setembro. Com a atual situação, municípios da região Oeste, como Cascavel, já estão enfrentando riscos severos de falta de água. Os índice da cidade já se comparam com a pior seca desde 2004 quando estava em 337 milímetros, atualmente está em 377 milímetros. Já foi necessário abrir em 40% o registro do Lago Municipal para contribuir com o aumento no volume de água do Rio Cascavel.

De acordo com o Simepar os baixos índices de chuva já atingem todo o estado, variando entre 30% e 90%, dependendo da região. Levantamento recente do instituto revelou um déficit acumulado de chuvas para a região de Curitiba de -43,1%, Ponta Grossa (-40%), Guarapuava (-47,2%), Foz do Iguaçu (-34,7%), Cascavel (33,8%), Umuarama (-31,1%), Litoral (-22,7%), Maringá e Londrina (-15%). No geral, observa-se um acumulado negativo de pluviosidade de aproximadamente 30% no Paraná. No Norte do estado, em 18 sistemas a vazão de rios e poços caiu em torno de 80%, o que levou a Sanepar a reforçar o abastecimento com caminhões-pipas em cidades do Vale do Ivaí, Vale do Paranapanema e Norte Pioneiro.

DECRETO

Ratinho Junior se viu obrigado a assinar o decreto 4.626/2020 que regulamenta e dá respaldo às empresas de água atuantes no Paraná, a permitir rodízio no abastecimento por até 24 horas.

“O Paraná atravessa a estiagem mais forte dos últimos 30 anos. Esse decreto permite ganhar agilidade nas ações por parte do Governo do Estado. Precisamos da consciência de todos para evitar o desperdício”, ressaltou Ratinho Junior. “Com todos colaborando, não vai faltar água para ninguém”, acrescentou.

A Sanepar mantém um protocolo de gestão de crise que inclui uma série de medidas de reforço da produção, reservação e distribuição de água visando diminuir o impacto da estiagem severa no Paraná. Aceleração de obras que estavam em andamento, execução de obras emergenciais e campanhas de uso racional da água na mídia e nas redes sociais estão entre essas medidas.

“Infelizmente o Paraná vem enfrentando, junto com a pandemia do novo coronavírus, a estiagem. E para amenizarmos essa situação e dar celeridade às necessidades para esse enfrentamento foi editado esse decreto. A intenção é amparar a população paranaense da melhor forma possível”, afirmou o chefe da Casa Civil, Guto Silva.

 

CONSUMO

Apesar das soluções governamentais e estudos dos profissionais do IAT e Simepar, é necessário chuva e mais chuva. Correndo em paralelo para aprofundar a crise hídrica, vivemos a maior pandemia da história que exige cuidados de higienização, lavar constantemente as mãos e limpar superfícies, o que causou um aumento no consumo de água.

Em algumas cidades, o índice ultrapassa bastante a média, como Piraquara, onde o aumento do consumo residencial foi de 17,58%, e Fazenda Rio Grande, com 16,48% (todas na região Metropolitana de Curitiba).

Levantamento feito pela Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento (Assemae), divulgado em meados de maio, também aponta que nas cidades que mantêm serviços municipais de saneamento o consumo de água aumentou, em média, 24% desde o início da pandemia.

A Assemae informa ainda que, nos três Estados da Região Sul, na média, os reservatórios de água estão com 30% de sua capacidade, o que colocou em situação precária o abastecimento de 450 municípios nos três estados.

“A higienização é uma arma contra o vírus, por isso precisamos priorizar o que é essencial. Fazer com que a água chegue a todos os que precisam”, ressaltou a diretora. “Sabendo usar, não vai faltar água para ninguém”, garantiu Fabiana Campos.

PRODUÇÃO

Inclusive não faltou para a colheita de soja. O Paraná deve bater um recorde na produção com quase 20 milhões de toneladas, embora o Departamento de Economia Rural, da Secretaria Estadual da Agricultura (Deral), estime uma perda de 24% na produção do feijão.

Agricultores de Palmeira e de São João do Triunfo, nos Campos Gerais, registraram perdas significativas nas lavouras de feijão e soja. “Dos 35 hectares plantados, sobraram apenas dez, no máximo”, afirmou ao G1 o agricultor Orlando Ventroba.

Vagner Barausse, agricultor, está terminando a colheita de soja plantada em novembro e calcula as perdas. “Na soja, a quebra chega a 20% e no feijão, que ainda vai ser colhido, a 15%”, disse.

O Departamento de Economia Rural, da Secretaria Estadual da Agricultura (Deral), estima uma perda de 24% na produção do feijão.

Para Edmar Gervásio, técnico do Deral, ainda não é possível calcular as perdas das próximas safras. “O cenário ainda é bom, com preço bom. A estiagem, no entanto, pode gerar impacto no milhões, no feijão que já está no campo e no trigo, mas vamos ter muitas oscilações e ainda não dá pra prever algo ruim lá na frente.”

 

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