Maus bofes

Estou de maus bofes, exasperado. Mergulhado neste enredo de grotesco filme de horror, daquelas produções tipo c de baixo custo, não tenho fígado para a bufoneria de governante inescrupuloso que faz piada, uiva contra a imprensa, nomeia e demite segundo sua vontade despótica, enquanto a pandemia se alastra no Brasil e apresenta índices assustadores de mortalidade. Hoje, Jair Bolsonaro, que se alçou à condição de cientista, atropelou a ciência e liberou o protocolo para uso extenso da cloroquina, contrariando todos as pesquisas e estudos que apontam graves riscos no uso da droga.

Antes disso, logo cedo a pantomima palaciana ofereceu o capítulo da demissão da secretária de cultura, Regina Duarte, que durou 77 dias no cargo. Como se vê, este é um governo de alta rotatividade. Processo que vai se acelerar agora com as mudanças ditadas pelo toma lá dá cá instituído por Bolsonaro para aumentar sua base de apoio no Congresso antes que ali desabem as tempestades anunciadas nas investigações de crimes comuns para uso político cometidos pelos filhos e que o alcançam. Situação que o levou a forçar a barra para mudar a direção da Polícia Federal. Um ato confesso de interferência que não exige nem vídeo de reunião ministerial nem processo da Procuradoria-Geral da República. Está lá no pronunciamento feito pelo próprio Bolsonaro no dia em que o então ministro da Justiça Sérgio Moro pediu demissão.

Não foi a primeira vez. Em pelo menos duas outras ocasiões, Bolsonaro interveio na PF: ordenou novas diligências quanto à autoria da facada de Adélio Bispo (confirmada e reconfirmada pela PF como ação individual, sem patrocínio ou mandante), e a investigação das declarações controversas do porteiro de seu condomínio no Rio.

Quando Bolsonaro iniciou a pressão para mexer na PF do Rio, por lá corriam investigações caras ao presidente, uma delas envolvendo o filho Flávio. Mas há outras histórias cabeludas que ligam o clã às milícias que têm de sumir da mira e, portanto, necessitam de gente de confiança na Superintendência, codinome “segurança” do Rio. Não pairam dúvidas quanto à intromissão, que só cresceu em intensidade. Já a fazia em menor grau e recrudesceu porque, como ele próprio disse e a Advocacia Geral da União (AGU) confirmou, não ia “esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigo meu”.

Atrabiliário, Bolsonaro comporta-se segundo o modelito dos déspotas tipo Mussolini, Hitler, Idi Amin, Pol Pot. Ou seja, o presidente do Brasil não fica atrás na galeria de execráveis. Diante da tragédia, ele ri, faz bravatas e insufla seus seguidores a sair às ruas para fazer eco às suas ordens. Com taxa de mil mortos por dia, Bolsonaro saiu-se com a frase rimada “a direita toma cloroquina e a esquerda toma tubaína.” Indigência até nas boutades.

A direita conservadora ganhou eleições, varreu a esquerda e assumiu o poder em muitos países do mundo neste início de século. Mas em nenhum desses países entronizou alguém sem mínima estatura moral e intelectual para exercer o cargo. Aqui, o processo foi diferente. Todas as correntes políticas estruturadas foram devastadas pelo processo de combate à corrupção comandado pelo ex-juiz Sergio Moro, que mirou as principais lideranças que poderiam se opor a ascensão do líder populista obtuso e autoritário que se respalda no prestígio de generais que o apoiam.

A expectativa da Nação é sobre os desdobramentos de tudo isso. Afinal, o STF vai se comportar como Suprema Corte ou como o que tem sido, um medíocre conjunto de juízes que legislam e decidem segundo as circunstâncias? O Congresso estará à mercê do Palácio depois das rocas de apoio por cargos, sinecuras e benesses? Não há razão para otimismos. Antes de ser apeado, o PT no poder conseguiu, além de todas as denúncias que o desgraçaram, dissolver as forças sociais que levaram décadas para cumular forças de forma organizada. Restou uma legião de funcionários que se seguram como podem. Os únicos movimentos que ainda dispõem de alguma vitalidade para ir à luta são o MST, bastante exaurido, e o sindicalismo dos professores. De resto, é esperar pelo processo eleitoral que já não sabemos quando virá. Se vier.

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