Colunista
Tisa Kastrup

10.10.12
O coração é uma bola

Que me perdoe o venerável Nego Pessôa, mas vou me apropriar temporariamente do seu tema predileto e que ele domina como ninguém: o futebol. Como os jogadores de futebol fazem com a bola, trate seu coração e o de quem você ama com carinho. Seja gentil, seja hábil, chute e drible com elegância. Dê tratos à bola. Faça o adversário te admirar – mesmo que seja o Messi a trançar suas pernas ao te dar um chapéu antes de fazer um golaço – e te respeitar. Afinal, qual a graça de um jogo sem dribles? Nenhuma. Ainda mais se não tiver gol na partida, daí, nenhuma torcida merece.

Pois bem, chegamos ao gol. Para começar, precisa vestir a camisa do seu time, honrá-la e defendê-la. É indispensável saber de que lado fica o gol. Também tem que conhecer – e entender – a regra do impedimento. E tem que ter fair play. Nada de pé alto, totó na canela ou carrinho sem bola e por trás. E sem essa de catimbar! Só saia de campo com a perna quebrada.

Para não esquentar os ânimos paranaenses, imagine que você jogava pelo Vasco e mudou-se para o Flamengo, adversários cariocas históricos. Que estória é essa de vestir a camisa rubro-negra, fazer gol contra e ir comemorar com a torcida vascaína? Ou, pior, chegar na cara do gol do Vasco e amarelar com peninha da tua ex-galera? A torcida do Mengo ia te crucificar ad eternum! E teu treinador ia te mandar para o banco idem. Pois é. Ainda bem que não vemos isso acontecer no futebol, onde toda mudança de time é bem pensada, negociada com as diretorias dos clubes envolvidos e amparada legalmente. E são raros os casos de trocar justamente para o time do pior adversário. Já o mesmo não pode ser dito da política, onde não há lealdade, honra e nem amor à camisa, muito menos pela torcida que votou. O que mais vemos é um bando de vira-casaca.

Namorar é que nem jogar futebol. Ficar falando dos “ex” para quem está com você, com o olhar distante e semblante triste, e ficar em dúvida se vai ou se fica faz o mesmíssimo estrago moral que a hipótese do jogador de futebol na crise existencial acima. Além de mostrar a leviandade de não saber o que se quer no momento, quem quer ao seu lado, em que time você está jogando e sequer com qual torcida sente ganas de comemorar seus gols, suas vitórias e os seus títulos.

No amor, como no futebol, seja leal e fiel ao seu time, aos teus colegas de camisa e à sua torcida. Seja assim com quem está contigo e com as outras pessoas que vêm junto – família e amigos que te querem bem e que participam deste teu “jogo”. Afinal, ninguém é propriedade de ninguém. E sempre há a liberdade de sair desse time, mudar de equipe, trocar de país até. Mas não faça isso antes de terminada a temporada ou o campeonato, pega mal. Dê uma chance ao seu time, à sua torcida e ao seu próprio talento com a bola.

Não permita que dúvidas estraguem a delícia que é uma boa partida de futebol ou um amor gostoso de viver. Seja nos gramados ou na vida, a bola e o coração merecem o melhor trato possível: o trato de um craque. E os craques sempre saem de cabeça erguida, pela porta da frente e nos braços da torcida, deixando boas lembranças expostas com orgulho no museu do clube.

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