Colunista
Andrea Greca Krueger

26.06.12
Transparência na política: utopia ou realidade?

O Brasil presenciou nas últimas semanas a realização de dois esforços que, em comum, têm o compromisso com a busca da verdade. Ainda que a noção de verdade seja uma das mais subjetivas da história da humanidade, discutida por filósofos, psicanalistas (Jung dizia que nada é verdade - e que isso, também, não é verdade) e cientistas, o que se viu nas iniciativas executadas pelo governo representa, sem dúvida, um grande passo rumo a uma das mais importantes tendências socioculturais de hoje: a transparência. A Comissão da Verdade, que vai esclarecer as circunstâncias da morte ou do desaparecimento de pessoas durante a ditadura militar, e a Lei de Acesso à Informação, que traz à luz todo o modus operandi dos governos através do acesso a dados públicos, não poderiam estar mais inseridas no espírito do tempo em que foram finalmente colocadas em prática.

Vivemos na era da informação, em que o advento da internet não permite, pelo menos em nações democráticas, que instituições opacas privem os cidadãos do acesso à realidade dos fatos. A transparência é exigida em todos os níveis da sociedade, de empresas à iniciativa pública. É impossível escapar: se você não falar a verdade, alguém falará por você.

Alguns países são prova de que, sim, política e transparência cabem na mesma frase. Afinal de contas, quem não deve, não teme, certo? Sob o slogan empowering people (“dando poder ao povo”), os Estados Unidos disponibilizaram dados em um site oficial (data.gov) que teve, nos dois primeiros anos de vida, mais de 1,6 milhão de downloads; entre maio de 2010 e abril de 2011 foram quatro mil por dia. A Inglaterra inaugurou recentemente o London Data Store (data.london.gov.uk), um banco de dados online sobre a capital do país. O objetivo é melhorar, com a ajuda da população, o governo local e promover a transparência, principalmente no setor social. Os dados são gratuitos e estão disponíves ao público. O prefeito Boris Johnson convida a população a usar as informações para criar aplicativos no Facebook e outros sites de plataformas móveis.

Ainda na Inglaterra, a consultoria de design Berg lançou um projeto no setor de educação, financiado pelo canal de televisão Channel 4 e pelo programa de investimentos 4iP. A ação, chamada Schooloscope (schooloscope.com),é um site informativo que permite aos pais visualizar rapidamente a qualidade do trabalho da escola dos filhos e se as crianças que estudam nela estão felizes. O site utiliza recursos visuais para apresentar o desempenho das instituições, provenientes de fontes como o governo do Reino Unido.

De volta aos EUA, em 2010 surgiu na cidade de São Francisco, na Califórnia, a primeira rede social dedicada exclusivamente a temas políticos. A Votizen é uma plataforma livre que conecta diretamente eleitores e candidatos de forma simples, tornando mais fácil e atraente o engajamento na política. A missão, segundo os idealizadores, é criar uma nova moeda política com base em conexões entre eleitores, reduzindo a influência do dinheiro e aumentando a importância dos relacionamentos no compromisso cívico. Atualmente a Votizen tem mais de um milhão de membros e o principal tópico é a corrida presidencial americana.

Em abril de 2011, desenvolvedores da Estônia lançaram um aplicativo gratuito que permite que usuários de smartphones anonimamente relatem e georreferenciem casos de suborno e a área do governo afetada. Através do Bribespot (bribespot.com) é possível não apenas revelar, mas também visualizar a corrupção, já que o app avisa automaticamente a localização do usuário e exibe os casos de contravenção nas proximidades. Para mais detalhes, a opção “fluxo de suborno” revela detalhes sobre cada prática desonesta: como foi solicitada ou paga, o preço e quem estava envolvido.Os brasileiros ainda não descobriram, mas o serviço é global, ou seja, subornos em qualquer lugar do mundo podem ser denunciados.

Esses são apenas alguns casos que demonstram que não há mais volta, o povo quer e merece saber o que acontece nos bastidores da vida pública, em todos os âmbitos. Cabe às autoridades não apenas andar com retidão, mas trabalhar em conjunto com a população para resolver problemas. A longo prazo, essa colaboração pode se transformar em inúmeros benefícios para ambos os lados, como corte de gastos e otimização de recursos, sem contar o sentimento de responsabilidade e orgulho despertado nos cidadãos.

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